terça-feira, julho 06, 2004

Wu Ming

[continuação]

Deveres

O narrador tem o dever de não se crer superior aos seus semelhantes. Qualquer concessão à obsoleta imagem idealista e romântica do narrador como uma criatura mais sensível, em contacto com dimensões mais elevadas do ser, inclusivé quando escreve sobre absolutas banalidades quotidianas, é ilegítima.

No fundo, também os aspectos mais ridículos e circenses do ofício de escrever, baseam-se numa versão degradada do mito do artista, que se converte em divo porque se crê de algum modo superior ao "comum dos mortais", menos mesquinho, mais interessante e sincero, com um certo sentido heróico, pois carrega os tormentos da criação.

Que o estereótipo do artista "mortificado" e "atormentado" desperte maior interesse nos media e tenha maior peso de opinião que o esforço de quem limpa fossas faz-nos compreender em que medida a actual escala de valores está distorcida.

O narrador tem o dever de não confundir a fabulação, a sua principal missão, com um excesso de autobigrafismo obcessivo e de ostentação narcisista. A renúncia a estas atitudes permite salvar a autenticidade do momento, permite ao narrador ter uma vida para viver em vez de um personagem que interpreta por coacção.



| Marcha Mundial das Mulheres | 22 de Maio 2004 | Vigo |

Wu Ming

Notas para uma declaração de direitos (e deveres) do narrador.
[Traduzido do Castelhano]

Preâmbulo
Quem é o narrador e quais são os seus deveres e direitos?

O narrador (ou narradora) é aquele que conta histórias e recria mitos, conjuntos de referências simbólicas partilhadas - ou pelo menos conhecidas e, se fôr o caso, postas em discussão - por uma comunidade.

Contar histórias é uma actividade fundamental para qualquer comunidade. Todos contamos histórias, sem histórias não teríamos consciência do nosso passado nem das nossas relações com o próximo. Não haveria qualidade de vida. Mas o narrador faz do contar histórias a sua actividade principal, a sua "especialidade"; é como a diferença entre o hobby da bricolage e o trabalho de carpinteiro.

O narrador recupera - ou deveria recuperar - uma função social comparável à do griot nas aldeias africanas, a de bardo na cultura celta ou a do aedo no mundo clássico grego.

Contar histórias é um trabalho peculiar, que pode trazer vantagens para quem a desenvolve, mas é sempre um trabalho, tão integrado na vida da comunidade como apagar incêndios, arar os campos, apoiar deficientes, etc...

Noutras palavras, o narrador não é um artista, mas um artífice da narração.

[continua]


| Alcazar | Sevilha | 2003 |

sábado, julho 03, 2004

O ser humano.

Capaz de se adaptar a qualquer ambiente. Sobrevive nas condições mais adversas. Misteriosamente.

| Lisboa | Junho 2004 |