quarta-feira, julho 21, 2004

Disse há pouco a um amigo.

É uma puta de sensação de impotência a de não se ter tempo sequer para reflectir sobre aquilo que se faz. Longe de mim considerar estas fotos muito importantes, mas pelo menos chegar a essa conclusão depois de olhar para elas com olhos de ver.


| A Lena tem, desde a infância, pavor aos caretos | Podence | Fevereiro 2004 |

sábado, julho 17, 2004

Creio que nunca visitarei Lhasa.

«Aquele que viaja sem encontrar o outro não viaja, desloca-se. »
Alexandra David-Neel


| Carolina comendo maçã | rolo estragado por água quente | Trás-os-Montes | Fev 2004 |

quarta-feira, julho 14, 2004

Desconforto

É natural pensar na fotografia como uma forma de comunicação como qualquer outra, onde está envolvido um emissor e um receptor. Entre quem fotografa e quem observa uma imagem há uma distância que é física e temporal. Mas é também uma distância de interpretação e de entendimento, que é também uma distância de vivências. Nesse sentido o fotógrafo é um receptor especial da sua própria mensagem e em grande medida alguém que faz uma leitura das suas imagens diferente dos restantes.
Entendo isto como uma dificuldade quando procuramos prever qual a reacção que tal ou tal imagem provocará em quem as observa. É difícil tentar adivinhar a reacção, as interpretações e as emoções que alguém experimentará. Mas mais difícil é ao fotógrafo alhear-se da sua própria experiência pessoal e abstrair-se do momento que viveu, daquilo que sentiu e das recordações que a própria imagem lhe proporciona.
E é isso que me causa esta imagem. Um enorme desconforto. Outros verão nela outras coisas.

| Filho de Vendedores Ambulantes | Trás-os-Montes | 2004 |

quarta-feira, julho 07, 2004

Wu Ming

Direitos

O narrador que cumpra com o dever de refutar os estereotipos citados tem direito a ser deixado em paz por aqueles que enchem os seus bolsos propagando-os (cronistas da sociedade, papparazzis culturais, etc...). Qualquer estratégia de defesa das intrusões deve basear-se em não secundar a lógica. Em resumo, quem queira fazer-se divo, posando em insulsas sessões fotográficas ou respondendo a perguntas sobre qualquer tema, não tem nenhum direito a lamentar-se pelas intrusões.

O narrador tem direito a não aparecer nos meios de comunicação. Se um picheleiro decide fazê-lo, ninguém o atira à cara nem o acusa de snobismo.

O narrador tem o o direito de não converter-se num animal amestrado de salão ou num gossip literário.

O narrador tem o direito de não responder a questões que não considere pertinentes (vida privada, preferências sexuais e gastronómicas, costumes, etc...)

O narrador tem o direito de não se fingir especialista em qualquer assunto.

O narrador tem o direito de opôr-se com a desobediência civil às pretensões de quem (editores incluídos) queira privá-lo dos seus direitos.

Wu Ming
Verão de 2000.


| Carnaval | Podence | Fevereiro 2004 |

terça-feira, julho 06, 2004

Wu Ming

[continuação]

Deveres

O narrador tem o dever de não se crer superior aos seus semelhantes. Qualquer concessão à obsoleta imagem idealista e romântica do narrador como uma criatura mais sensível, em contacto com dimensões mais elevadas do ser, inclusivé quando escreve sobre absolutas banalidades quotidianas, é ilegítima.

No fundo, também os aspectos mais ridículos e circenses do ofício de escrever, baseam-se numa versão degradada do mito do artista, que se converte em divo porque se crê de algum modo superior ao "comum dos mortais", menos mesquinho, mais interessante e sincero, com um certo sentido heróico, pois carrega os tormentos da criação.

Que o estereótipo do artista "mortificado" e "atormentado" desperte maior interesse nos media e tenha maior peso de opinião que o esforço de quem limpa fossas faz-nos compreender em que medida a actual escala de valores está distorcida.

O narrador tem o dever de não confundir a fabulação, a sua principal missão, com um excesso de autobigrafismo obcessivo e de ostentação narcisista. A renúncia a estas atitudes permite salvar a autenticidade do momento, permite ao narrador ter uma vida para viver em vez de um personagem que interpreta por coacção.



| Marcha Mundial das Mulheres | 22 de Maio 2004 | Vigo |

Wu Ming

Notas para uma declaração de direitos (e deveres) do narrador.
[Traduzido do Castelhano]

Preâmbulo
Quem é o narrador e quais são os seus deveres e direitos?

O narrador (ou narradora) é aquele que conta histórias e recria mitos, conjuntos de referências simbólicas partilhadas - ou pelo menos conhecidas e, se fôr o caso, postas em discussão - por uma comunidade.

Contar histórias é uma actividade fundamental para qualquer comunidade. Todos contamos histórias, sem histórias não teríamos consciência do nosso passado nem das nossas relações com o próximo. Não haveria qualidade de vida. Mas o narrador faz do contar histórias a sua actividade principal, a sua "especialidade"; é como a diferença entre o hobby da bricolage e o trabalho de carpinteiro.

O narrador recupera - ou deveria recuperar - uma função social comparável à do griot nas aldeias africanas, a de bardo na cultura celta ou a do aedo no mundo clássico grego.

Contar histórias é um trabalho peculiar, que pode trazer vantagens para quem a desenvolve, mas é sempre um trabalho, tão integrado na vida da comunidade como apagar incêndios, arar os campos, apoiar deficientes, etc...

Noutras palavras, o narrador não é um artista, mas um artífice da narração.

[continua]


| Alcazar | Sevilha | 2003 |

sábado, julho 03, 2004

O ser humano.

Capaz de se adaptar a qualquer ambiente. Sobrevive nas condições mais adversas. Misteriosamente.

| Lisboa | Junho 2004 |