terça-feira, novembro 02, 2004

Recordações da América

A guerra global em que vivemos tem uma característica muito curiosa. É até certo ponto encarada com uma macabra naturalidade por uma grande parte da população do planeta. Por outro lado foi capaz de gerar a maior oposição alguma vez verificada a nível mundial. As maiores manifestações foram curiosamente as de Londres e Nova York.

Os mortos dos ataques às torres nova-iorkinas são usados diariamente para justificar a violência sobre onde quer que os mísseis estejam apontados. As questões que a população de Nova York procura responder desde 11 de Setembro de 2002 são outras.

Se a guerra tocou pela primeira vez solo norte-americano, então quando começou essa guerra? Porque começou ela? Mas mais importante que isso...
Como poderá acabar-se com ela?


A resposta não será no entanto encontrada esta semana.


| O Moreira à espreita | Manifestação Mundial contra a Guerra | Porto | 15 de Fevereiro de 2003 |

sábado, outubro 23, 2004

Gente sem lugar

Há evidentemente muitos invisíveis nas nossas vidas. «Evidentemente» não será talvez o termo mais correcto. Se assim fosse, invisíveis não seriam. Esta história passa-se em Canary Wharf, Londres, grande centro financeiro mundial, onde os parques de estacionamento estão cheios de carros que valem mais do que aquilo que muitos amealharão ao longo de uma vida. Os grandes arranha-céus – imponentes e muito apreciados – são limpos por mulheres imigrantes que deles se ocupam invisivelmente (pois claro) no momento em que todas as gravatas abandonam o edifício. O seu salário é inferior ao salário mínimo. O horário de trabalho é próprio dos tempos da revolução industrial. A sua vida estará muito distante do conforto proporcionado por um BMW série 7. Tudo isto é repugnante e, bem vistas as coisas, até mesmo ilegal. No entanto nada disto preocupa grandemente quem de direito, atrevo-me até a dizer que tudo isto lhes serve muito bem...
O que faz então a lei nestas circunstâncias? Proíbe a visibilidade destas mulheres e repreende a sua capacidade organizativa. Ao permanecerem invisíveis é como se nem sequer existissem e os números da bolsa podem continuar no seu sobe e desce nos grandes prédios de vidros espelhados.

Há quem procure justificar a sua existência. Há gente que procura apenas o direito a existir. Os primeiros fazem parte dos filmes do Woody Allen. Os segundos fazem parte dos filmes do Ken Loach.


| Canary Wharf | Londres | 15 Outubro 2004 |

sábado, outubro 09, 2004

Maria do Patrocínio Ranção

Mais conhecida na terra como a Rançona.
Reza a um fanático integrista.
Procura convencer os restantes da sua benevolência.
Abarbata-se a meia dúzia de fotos com uma desculpa filial.
O seu sucesso nesse domínio não resulta da minha simpatia pelo referido fanático.
Rais partam as religiões.

A Arménia é muito longe, apesar de na América me considerarem caucasiano.


| A Rançona e o seu santinho | Julho 2004 |

quinta-feira, setembro 30, 2004

Portugal hoje

No final do séc. XV, ainda no início do processo de dominação colonial do hemisfério sul, os arquipélagos ibéricos do atlântico mantinham uma importância estratégica para as rotas marítimas que passariam a assegurar a ligação com os recém-colonizados territórios africanos e americanos. As pequenas ilhas garantiam abrigo e mantimentos aos navios que faziam o triângulo escravos – ouro, prata e açúcar – metrópole. Evidentemente nada disto garantia o desenvolvimento dessas ilhas - tão pouco dos reinos católicos como se confirmaria tempos mais tarde.

Numa curiosa coincidência, no início do séc. XXI, naquilo que é o início de uma nova dominação colonial do planeta, o pequeno arquipélago dos Açores foi bafejado pelo acaso de acolher os mais poderosos líderes mundiais. Um par de idiotas anglófonos. Da península (das antigas potências mundiais) vinha um terceiro convidado e um sorridente anfitrião. Um par de palonsos esforçando-se por aparecer na fotografia. De novo as longínquas ilhas davam segurança e poder. Não como protecção dos elementos ou das enormes distâncias atlânticas. Os quatro engravatados apenas se escondiam dos seus concidadãos.

Evidentemente nada disto garante o desenvolvimento dessas ilhas. Ali ao lado, na freguesia de Rabo de Peixe, a mais pobre freguesia portuguesa e certamente uma das mais pobres da Europa “civilizada” a vida continua normalmente. Sem grandes diferenças daquela que seria a vida no final do séc. XV. Relembrar o velho provérbio marxista - «um povo que oprime outro, não é um povo livre» - pouco conforto dará a iraquianos ou a açoreanos. Aliás porquê falar em tudo isto? Saberão os pescadores açoreanos onde é a Babilónia? Saberão os famintos de Bagdade onde é a ilha Terceira?

As ilhas são apesar de tudo um bom sítio para se viver. Há sol, bom peixe e bandeiras à janela.

De longe a longe lá aparecem câmaras de televisão com ligações satélite.


| Os putos de Rabo de Peixe | S. Miguel | Açores | Junho de 2003 |

terça-feira, setembro 28, 2004

Aos saltos para trás.

Há poucas coisas capazes de mobilizar massivamente um país. Historicamente esses momentos representam grandes saltos. Pontos de ruptura numa continuidade inerte. Será talvez necessário reformular a teoria. Empiricamente 2004 assim obriga.

Este ano que vivemos tem por isso muito interesse. Perdeu-se poder de compra, temos o IVA mais alto das redondezas, os hospitais estão a meio caminho da privatização, as universidades a tinir, escolas sem professores. As matas já não ardem porque já arderam. No entanto este foi um ano de grandes festejos. Unânimes, massivos, apaixonados e ubíquos. Os portugueses encontraram-se nas ruas a festejar tudo aquilo que não tinham.

Três meses depois o ministro das finanças explica em tom solene num directo televisivo aquilo que já todos perceberam: o orçamento de estado é como os orçamentos domésticos; gasta-se mais do que o que se tem e por isso há que cortar nas despesas supérfluas. P.ex. em casa cortar na mesada das crianças para se poder continuar a ter televisão por cabo. O que conta são as aparências. Bons carros, belos estádios, grandes centros comerciais e os desempregados fora dos bairros sociais. Desempregados? Que desempregados?

Há sol, boa comida e bandeiras à janela. Isso sim.
:)


| Covas | V.N. de Cerveira | Agosto 2004 |

segunda-feira, setembro 13, 2004

Empurre, sff.

A propósito de um monólogo paralelo

Tudo corre bem, sim. Há sol e boa comida. As pessoas cruzam-se sorridentes num país solarengo. Trocam-se palavras afáveis, conversa-se agradavelmente sobre a rotina de cada um. O emprego, as férias, os filhos, o tempo. As gentes são simpáticas, bem dispostas e animadas. Tudo corre bem, sim. Há sol e boa comida. Dois em cada 10 portugueses encontram-se em "risco de pobreza" segundo o relatório da agência Habitat das Nações Unidas, o segundo valor mais alto da União Europeia.

Tudo corre bem, sim. Há sol, boa comida e bandeiras à janela.


| Guarany | Porto | Março de 2004 |

quinta-feira, agosto 12, 2004

terça-feira, agosto 10, 2004

Qué?

Em 1980 os Clash publicam no seu album Sandinista a música Washington Bullets. Ouço-a 24 anos depois e pergunto-me se daqui a 24 anos poderei estar a referir-me ao Fahrenheit 9/11, como se se tratasse de uma peça arqueológica, para reflectir sobre as evidências da actualidade política internacional.

Oh! Mama, Mama look there!
Your children are playing in that street again
Don't you know what happened down there?
A youth of fourteen got shot down there
The Kokane guns of Jamdown Town
The killing clowns, the blood money men
Are shooting those Washington bullets again

As every cell in Chile will tell
The cries of the tortured men
Remember Allende, and the days before,
Before the army came
Please remember Victor Jara,
In the Santiago Stadium,
Es verdad - those Washington Bullets again

And in the Bay of Pigs in 1961,
Havana fought the playboy in the Cuban sun,
For Castro is a colour,
Is a redder than red,
Those Washington bullets want Castro dead
For Castro is the colour...
...That will earn you a spray of lead

For the very first time ever,
When they had a revolution in Nicaragua,
There was no interference from America
Human rights in America

Well the people fought the leader,
And up he flew...
With no Washington bullets what else could he do?

'N' if you can find a Afghan rebel
That the Moscow bullets missed
Ask him what he thinks of voting Communist...
...Ask the Dalai Lama in the hills of Tibet,
How many monks did the Chinese get?
In a war-torn swamp stop any mercenary,
'N' check the British bullets in his armoury
Qué?
Sandinista!



| Chapéu de Palha | Fisgas do Ermelo | Julho 2004 |

terça-feira, agosto 03, 2004

Copyleft

A divulgação da fotografia amadora é em Portugal algo de inexistente. Quando comparada com a poesia, a escrita, a banda desenhada ou outras formas expressivas, verifica-se que nem sequer um circuito de distribuição de publicações alternativas existe. Observando aquilo que se passa na web o panorama é um pouco diferente.

Várias linhas podem ser encontradas, desde os sites pessoais onde diversos fotógrafos amadores e profissionais expõem os seus trabalhos, passando por portais interactivos (fotoalternativa, escrita com luz, fotojornalismo) que funcionam como mecanismos de colaboração, de exploração, experimentação e exposição de trabalhos. Para muita gente, tal como para mim, estes contactos e estas experiências são determinantes na procura de uma linha, de uma abordagem, de aperfeiçoamento técnico mas também como forma de cooperação e de conhecimento com gente que partilha a mesma paixão.

A inexistência de publicações de divulgação de fotografia ou até de mecanismos cooperativos entre fotógrafos é sintomático da lógica de funcionamento vigente. Uma lógica empresarial e comercial. Se excluirmos os nomes sonantes da fotografia (eles próprios já um sub-produto comercial) os próprios profissionais estão de alguma forma limitados na divulgação dos seus trabalhos a meia dúzia de concursos e/ou espaços. O facto de qualquer publicação que envolva fotografia exigir uma qualidade de impressão satisfatória faz crescer os custos e limita as possibilidades de criação de circuitos não comerciais. Quem quer que queira fazer algo mais coerente ou tem massa ou tem muito que foçar, lamber cús e pedir esmola...

A divulgação da fotografia amadora pode subverter esta lógica. Fazer com que criemos um mecanismo de divulgação que apoie e/ou seja apoiada numa rede de publicações alternativas, amadoras, jornais universitários, fanzines, publicações virtuais ou o que fôr.

Criando um movimento de fotógrafos que coloque as suas imagens no domínio do copyleft (por oposição ao copyright) é algo de fundamental. A discussão é complexa, tem muitos nuances mas significaria basicamente que as fotos não podem ser usadas com fins comerciais e podem ser usadas desde que seja sempre mencionado o autor e desde que o resultado desse uso caia também no domínio do copyleft. É um efeito de espiral e de apoio mútuo, onde os direitos são sempre guardados pelos autores, proibindo-se no entanto a rapina.

Uma explicação simples destas regras pode ser consultada no site da creative commons.


| sei de quem são as mãos | sei o local | não sei a data |