segunda-feira, novembro 08, 2004

O arrepio de enfrentar a noite de frente.


| Pousada de Juventude | La Tuque | 2004 |

sábado, novembro 06, 2004

Peidos e Artistas.

Não me agrada a forma habitual com que se procura parecer aquilo que se não é. Um padrão global de hipocrisia generalizada que promove seres que a todo o custo se tentam libertar da sua humanidade para atingir o patamar dos deuses.

Gosto de ir jantar com os amigos até ao Bairro Alto e fazer o percurso a pé até ao Largo do Carmo aos peidos. Mais aprecio verificar que o corrector ortográfico desconhece o plural da palavra. Como se o peido não tivesse direito à sua pluralidade.

...a propósito do Land of Plenty, do Wim Wenders; não é preciso presunção para se fazer cinema com inteligência. Há coisas que fazem mais sentido separadas.


| A Cidade Subterrânea | Montreal | Setembro 2004 |

terça-feira, novembro 02, 2004

Recordações da América

A guerra global em que vivemos tem uma característica muito curiosa. É até certo ponto encarada com uma macabra naturalidade por uma grande parte da população do planeta. Por outro lado foi capaz de gerar a maior oposição alguma vez verificada a nível mundial. As maiores manifestações foram curiosamente as de Londres e Nova York.

Os mortos dos ataques às torres nova-iorkinas são usados diariamente para justificar a violência sobre onde quer que os mísseis estejam apontados. As questões que a população de Nova York procura responder desde 11 de Setembro de 2002 são outras.

Se a guerra tocou pela primeira vez solo norte-americano, então quando começou essa guerra? Porque começou ela? Mas mais importante que isso...
Como poderá acabar-se com ela?


A resposta não será no entanto encontrada esta semana.


| O Moreira à espreita | Manifestação Mundial contra a Guerra | Porto | 15 de Fevereiro de 2003 |

sábado, outubro 23, 2004

Gente sem lugar

Há evidentemente muitos invisíveis nas nossas vidas. «Evidentemente» não será talvez o termo mais correcto. Se assim fosse, invisíveis não seriam. Esta história passa-se em Canary Wharf, Londres, grande centro financeiro mundial, onde os parques de estacionamento estão cheios de carros que valem mais do que aquilo que muitos amealharão ao longo de uma vida. Os grandes arranha-céus – imponentes e muito apreciados – são limpos por mulheres imigrantes que deles se ocupam invisivelmente (pois claro) no momento em que todas as gravatas abandonam o edifício. O seu salário é inferior ao salário mínimo. O horário de trabalho é próprio dos tempos da revolução industrial. A sua vida estará muito distante do conforto proporcionado por um BMW série 7. Tudo isto é repugnante e, bem vistas as coisas, até mesmo ilegal. No entanto nada disto preocupa grandemente quem de direito, atrevo-me até a dizer que tudo isto lhes serve muito bem...
O que faz então a lei nestas circunstâncias? Proíbe a visibilidade destas mulheres e repreende a sua capacidade organizativa. Ao permanecerem invisíveis é como se nem sequer existissem e os números da bolsa podem continuar no seu sobe e desce nos grandes prédios de vidros espelhados.

Há quem procure justificar a sua existência. Há gente que procura apenas o direito a existir. Os primeiros fazem parte dos filmes do Woody Allen. Os segundos fazem parte dos filmes do Ken Loach.


| Canary Wharf | Londres | 15 Outubro 2004 |

sábado, outubro 09, 2004

Maria do Patrocínio Ranção

Mais conhecida na terra como a Rançona.
Reza a um fanático integrista.
Procura convencer os restantes da sua benevolência.
Abarbata-se a meia dúzia de fotos com uma desculpa filial.
O seu sucesso nesse domínio não resulta da minha simpatia pelo referido fanático.
Rais partam as religiões.

A Arménia é muito longe, apesar de na América me considerarem caucasiano.


| A Rançona e o seu santinho | Julho 2004 |

quinta-feira, setembro 30, 2004

Portugal hoje

No final do séc. XV, ainda no início do processo de dominação colonial do hemisfério sul, os arquipélagos ibéricos do atlântico mantinham uma importância estratégica para as rotas marítimas que passariam a assegurar a ligação com os recém-colonizados territórios africanos e americanos. As pequenas ilhas garantiam abrigo e mantimentos aos navios que faziam o triângulo escravos – ouro, prata e açúcar – metrópole. Evidentemente nada disto garantia o desenvolvimento dessas ilhas - tão pouco dos reinos católicos como se confirmaria tempos mais tarde.

Numa curiosa coincidência, no início do séc. XXI, naquilo que é o início de uma nova dominação colonial do planeta, o pequeno arquipélago dos Açores foi bafejado pelo acaso de acolher os mais poderosos líderes mundiais. Um par de idiotas anglófonos. Da península (das antigas potências mundiais) vinha um terceiro convidado e um sorridente anfitrião. Um par de palonsos esforçando-se por aparecer na fotografia. De novo as longínquas ilhas davam segurança e poder. Não como protecção dos elementos ou das enormes distâncias atlânticas. Os quatro engravatados apenas se escondiam dos seus concidadãos.

Evidentemente nada disto garante o desenvolvimento dessas ilhas. Ali ao lado, na freguesia de Rabo de Peixe, a mais pobre freguesia portuguesa e certamente uma das mais pobres da Europa “civilizada” a vida continua normalmente. Sem grandes diferenças daquela que seria a vida no final do séc. XV. Relembrar o velho provérbio marxista - «um povo que oprime outro, não é um povo livre» - pouco conforto dará a iraquianos ou a açoreanos. Aliás porquê falar em tudo isto? Saberão os pescadores açoreanos onde é a Babilónia? Saberão os famintos de Bagdade onde é a ilha Terceira?

As ilhas são apesar de tudo um bom sítio para se viver. Há sol, bom peixe e bandeiras à janela.

De longe a longe lá aparecem câmaras de televisão com ligações satélite.


| Os putos de Rabo de Peixe | S. Miguel | Açores | Junho de 2003 |

terça-feira, setembro 28, 2004

Aos saltos para trás.

Há poucas coisas capazes de mobilizar massivamente um país. Historicamente esses momentos representam grandes saltos. Pontos de ruptura numa continuidade inerte. Será talvez necessário reformular a teoria. Empiricamente 2004 assim obriga.

Este ano que vivemos tem por isso muito interesse. Perdeu-se poder de compra, temos o IVA mais alto das redondezas, os hospitais estão a meio caminho da privatização, as universidades a tinir, escolas sem professores. As matas já não ardem porque já arderam. No entanto este foi um ano de grandes festejos. Unânimes, massivos, apaixonados e ubíquos. Os portugueses encontraram-se nas ruas a festejar tudo aquilo que não tinham.

Três meses depois o ministro das finanças explica em tom solene num directo televisivo aquilo que já todos perceberam: o orçamento de estado é como os orçamentos domésticos; gasta-se mais do que o que se tem e por isso há que cortar nas despesas supérfluas. P.ex. em casa cortar na mesada das crianças para se poder continuar a ter televisão por cabo. O que conta são as aparências. Bons carros, belos estádios, grandes centros comerciais e os desempregados fora dos bairros sociais. Desempregados? Que desempregados?

Há sol, boa comida e bandeiras à janela. Isso sim.
:)


| Covas | V.N. de Cerveira | Agosto 2004 |

segunda-feira, setembro 13, 2004

Empurre, sff.

A propósito de um monólogo paralelo

Tudo corre bem, sim. Há sol e boa comida. As pessoas cruzam-se sorridentes num país solarengo. Trocam-se palavras afáveis, conversa-se agradavelmente sobre a rotina de cada um. O emprego, as férias, os filhos, o tempo. As gentes são simpáticas, bem dispostas e animadas. Tudo corre bem, sim. Há sol e boa comida. Dois em cada 10 portugueses encontram-se em "risco de pobreza" segundo o relatório da agência Habitat das Nações Unidas, o segundo valor mais alto da União Europeia.

Tudo corre bem, sim. Há sol, boa comida e bandeiras à janela.


| Guarany | Porto | Março de 2004 |

quinta-feira, agosto 12, 2004