domingo, dezembro 26, 2004

Não é costume praguejar.

Caralho lá para os desejos de bom natal.
:)


| hãhã | 24 de Dezembro de 2004 |

sábado, dezembro 25, 2004

Vende-se. Ano 2017.

Não posso deixar de sorrir sobre o quão vou andar entretido daqui até 20 de Fevereiro. Depois entreter-me-ei a inserir fotos nos sites mais obtusos até ao ano 2009. Nessa altura procurarei finalmente baixa psiquiátrica, o que me permitirá ficar em casa a estudar uma forma expedita de factorizar números primos e assim quebrar os códigos RSA.

Em 2017 venderei finalmente todo o material analógico. A Pentax terá já sido comprada pela Nikon e extinta enquanto marca comercial. O valor das relíquias será usado para comprar uma antena capaz de recolher a radiação de fundo do universo. Até à minha morte procurarei aperfeiçoar os algoritmos que permitem analisar esse ruído, gerando imagens. Vocês não terão o previlégio de as observar antes de todos os outros.


| Branda | Braga | Dezembro de 2004 |

terça-feira, dezembro 14, 2004

2009

Penso em 2009. Penso em 1995. Penso na primeira vez que votei. Penso em 2009. Penso no país descrito por Eça e Antero. Tenho 2 meses para ser feliz de imaginar um país diferente. 20 de Fevereiro de 2005. Um dia qualquer de 2009. O mesmo país. As mesmas pessoas. As mesmas mentiras. O mesmo jogo de faz de conta. Falta bastante para 2009. Quantos anos terei?

Tortura é observar pacientemente o desfilar dos dias no balançar tranquilo em que o país adormece todas as noites.

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| Eleições | Adolfo Dias | 2004 |

segunda-feira, novembro 29, 2004

Compro-te a vida.

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Eduardo tinha aprendido com os pais que a privacidade da sua casa era o último reduto da sua intimidade. Para lá da porta de entrada ficava um espaço de certo privilégio, onde apenas determinadas pessoas tinham acesso.
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Pensa bem Eduardo... O número de telefone lá de casa. Pensaste bem nisso, Eduardo?
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Eduardo aprendeu que o exercício da amizade era um momento de expressão do genuíno.
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Eduardo, pega na agenda. Eduardo usa-a em nome de qualquer coisa. Qualquer coisa mascarada de amizade.
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Tudo bem? Sim, há quanto tempo! Sim, temos que combinar qualquer coisa um destes dias. Pois é, temos que marcar. Olha, estou-te a ligar por causa de uma promoção de Natal.
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Eduardo deixou-se comer. O seu amigo não. Cada qual vende o que entende.


| Pá, gosto desta foto | Montreal | 2004 |


quarta-feira, novembro 24, 2004

... have fun in life.

Toronto, fim da tarde de Domingo. Segundo dia de viagem. Atravesso a rua no semáforo. Um autocarro está parado a meio da rua. A C continua. Abro a lente para 19mm centro o bixo e penso: «que se foda a sombra, que se foda o motivo. Como andas joaoluc: agora até fotografas autocarros.» - disparo. O motorista chama-me com uma cara muito séria:

[em inglês agora]

« -eu não faço pose. Sabe que eu não faço pose?
-tudo bem, só apanhei o autocarro.
-mas faço pose se ela pedir.»

Ele aponta a C e abre o sorriso. Silêncio. Todos nos rimos. Gesticula para nos chamar, abre a porta do autocarro e pede para entrarmos. Assim é. Já não atravessamos a rua. Pára o autocarro 20 metros depois, liga os quatro piscas e faz-nos sentar (a mim e à C) ao volante, tendo disparado ele próprio 3 fotos em que nos disse de que maneira queria que estivessemos - uma das quais uma simulação de agressão ao motorista, naturalmente estragada pelas nossas expressões divertidas.

Começamos a sair do autocarro:
«-Não é suposto evidentemente que eu faça nada disto, mas sabem como é, temos que nos divertir na vida.
-Já agora, como se chama?
-Doug.
-Doug?
-Sim. Bem vindos ao Canadá! Divirtam-se.»


| Doug | Toronto | Agosto 2004 |

Sem explicação.


| Manipulação | Toronto | Agosto 2004 |

segunda-feira, novembro 22, 2004

Entre um bife e uma costeleta de porco.

«A culpa é de todos, a culpa não é de ninguém, não é isto verdade? Quer isto dizer, há culpa de todos em geral e não há culpa de ninguém em particular! Somos todos muita bons no fundo, né? Somos todos uma nação de pecadores e de vendidos, né? Somos todos, ou anti-comunistas ou anti-fascistas, estas coisas até já nem querem dizer nada, ismos para aqui, ismos para acolá, as palavras é só bolinhas de sabão, parole parole parole (...)»

Não posso esconder que me incomoda uma atitude simpática e condescendente que tende a mitificar determinado tipo de organizações da esquerda revolucionária. Como se determinados faróis do comunismo não fossem mais sinistros do que a maior parte das democracias burguesas. Como se fosse possível em 2004 defender a sinistra República da Coreia do Norte. Como se fosse possível em 1975 defender a Albânia ou a poesia dos campos de educação pelo trabalho do regime chinês. Fazê-lo é, em qualquer momento, sinistro.

[passa-me aí as batatas fritas.]

Não se trata sequer de uma atitude de sectarismo. É um dever de lucidez que devemos ter connosco próprios e com os valores em que acreditamos.

[pagamos? a conta vem sempre no fim...]

Somos todos gajos muito porreiros. Nunca ninguém fez mal a ninguém. O que lá vai lá vai, não é? Porque é que havemos de falar dessas coisas agora? Porque é que havemos de o fazer? Isso agora não interessa para nada...

[barato, não foi?]


| mão na massa | gajo raro | Novembro 2004 |

quarta-feira, novembro 17, 2004

Vou ali e já venho

Há anos atrás, na selva Lancadona - sudeste mexicano - uma das mais criativas declarações políticas da actualidade descrevia el sub-comandante Marcos como todos os explorados, todos os oprimidos, todos os discriminados. Todos couberam desde então debaixo daquele capucho negro. O coração de muitos tinha, em 1994, como capital Chiapas. Mas isso das capitais não é coisa que na verdade faça muito sentido. E os corações podem por isso multiplicar as suas capitais como outras tantas paixões.
De Chipas para Dili podemos por isso viajar em questão de segundos. Tal como de Porto Alegre para Génova. Ou de Seattle para Mumbai. Em 2004, foi Londres quem recebeu este povo global. O Movimento dos Fóruns - surgido no Brasil em 2001 - procura, desde então, juntar num espaço comum movimentos e cidadãos das mais variadas origens culturais, geográficas, ideológicas e políticas. Um espaço de encontro, de debate, de organização e resistência a uma ordem internacional baseada na subjugação económica do hemisfério sul, na pilhagem ambiental do planeta, no militarismo e na guerra.
Cada um destes momentos é uma afirmação de um princípio óbvio, e que na actualidade é particularmente subversivo. A ideia de que um outro mundo é possível.


| Manifestação | Fórum Social Europeu | Londres | Outubro 2004 |

quinta-feira, novembro 11, 2004

Abre os olhos.

Acordar, acordar, acordar. Abre os olhos diria o gajo do filme. Põe-te em pé, não és tu. Sim é o outro. Anda, mexe-te. Tens 35 minutos para fazer a barba, enfiar um pão mal torrado goela a baixo e arrastares o cú até à paragem do autocarro. Corre. Olha o autocarro ao longe. Voltaste a atrasar-te. Cumprimenta o barbeiro. Sê bem educado. Cuidado ao atravessar a rua. Corre mais um pouco. Ok. Chegarás a horas. A máquina espera por ti. Por ti não, por esse cartão que transportas na carteira. Bom trabalho – dirá ela por entre um apito estridente. Abstrai-te do que és. És servil. Comporta-te como é esperado. Sê natural. Opina conforme manda a norma e serás próactivo, assertivo ou outra merda qualquer. Opina contra a norma e serás conflituoso. Ok? Ok. Vai comer. Fritos? Sim fritos. Há outras coisas. É mais caro... Pois, é mais caro. Que se foda. Morrerás cedo. Que interessa isso? Não sejas conflituoso. Não corras. No regresso a casa os autocarros atrasam-se sempre meia-hora. Para quê correr? Em casa a máquina não te espera. A cidade está cheia de gente sem máquinas à espera. Não é bem assim. Todos sabemos que não é bem assim. Pela nossa casa a dentro entra a mesma máquina que nos esperará amanhã de manhã. De manhã pagam-te para a usares. À noite pagas para a usar.
É a vida minha senhora. Pois é. Vamos andando. Tem que ser. Tem que ser.


| N.A. | algures a sul do douro e a norte do vouga | 2004 |