sábado, janeiro 08, 2005

De onde vem a vontade de fugir...

Pôncio, nascido e criado em Azevedo de Campanhã, guardava dos seus tempos de infância o desejo paterno de que ele um dia fosse alguém na vida. Foi o seu tio, contrabandista de material electrónico vindo de Andorra e vendido na rua do Loureiro que lhe permitiu abrir o seu primeiro escritório de advocacia. Pôncio nunca quis ser advogado. Pôncio guardava o desejo paterno de ser alguém na vida, mas do que ele gostava mesmo era de futebol.

Jorge Nuno apareceu um dia na vida de Pôncio. Jorge Nuno também gostava muito de futebol. O amor foi revelado público dias depois e casaram-se na Holanda com duas catraias de 24 anos. Durante a lua de mel na República Dominicana, zangaram-se. Isto porque num jogo de futebol entre amigos, Jorge Nuno conseguiu que um penalti inexistente fosse claramente visto por toda a gente.

A minha cidade nem sequer precisava de ser mais bonita para parir gente menos decadente.


| Jardim do Retiro | Dez 04 |

quinta-feira, janeiro 06, 2005

Maré Alta.

«Uma foto de uma coisa que gostamos muito, não é necessáriamente uma foto de que gostamos muito.»

Tenho algumas dúvidas, mas como se anda a tornar hábito, não penso muito nisso.


| Women on Waves | Figueira da Foz | Set 2004 |

sábado, dezembro 25, 2004

Vende-se. Ano 2017.

Não posso deixar de sorrir sobre o quão vou andar entretido daqui até 20 de Fevereiro. Depois entreter-me-ei a inserir fotos nos sites mais obtusos até ao ano 2009. Nessa altura procurarei finalmente baixa psiquiátrica, o que me permitirá ficar em casa a estudar uma forma expedita de factorizar números primos e assim quebrar os códigos RSA.

Em 2017 venderei finalmente todo o material analógico. A Pentax terá já sido comprada pela Nikon e extinta enquanto marca comercial. O valor das relíquias será usado para comprar uma antena capaz de recolher a radiação de fundo do universo. Até à minha morte procurarei aperfeiçoar os algoritmos que permitem analisar esse ruído, gerando imagens. Vocês não terão o previlégio de as observar antes de todos os outros.


| Branda | Braga | Dezembro de 2004 |

terça-feira, dezembro 14, 2004

2009

Penso em 2009. Penso em 1995. Penso na primeira vez que votei. Penso em 2009. Penso no país descrito por Eça e Antero. Tenho 2 meses para ser feliz de imaginar um país diferente. 20 de Fevereiro de 2005. Um dia qualquer de 2009. O mesmo país. As mesmas pessoas. As mesmas mentiras. O mesmo jogo de faz de conta. Falta bastante para 2009. Quantos anos terei?

Tortura é observar pacientemente o desfilar dos dias no balançar tranquilo em que o país adormece todas as noites.

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| Eleições | Adolfo Dias | 2004 |

segunda-feira, novembro 29, 2004

Compro-te a vida.

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Eduardo tinha aprendido com os pais que a privacidade da sua casa era o último reduto da sua intimidade. Para lá da porta de entrada ficava um espaço de certo privilégio, onde apenas determinadas pessoas tinham acesso.
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Pensa bem Eduardo... O número de telefone lá de casa. Pensaste bem nisso, Eduardo?
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Eduardo aprendeu que o exercício da amizade era um momento de expressão do genuíno.
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Eduardo, pega na agenda. Eduardo usa-a em nome de qualquer coisa. Qualquer coisa mascarada de amizade.
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Tudo bem? Sim, há quanto tempo! Sim, temos que combinar qualquer coisa um destes dias. Pois é, temos que marcar. Olha, estou-te a ligar por causa de uma promoção de Natal.
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Eduardo deixou-se comer. O seu amigo não. Cada qual vende o que entende.


| Pá, gosto desta foto | Montreal | 2004 |


quarta-feira, novembro 24, 2004

... have fun in life.

Toronto, fim da tarde de Domingo. Segundo dia de viagem. Atravesso a rua no semáforo. Um autocarro está parado a meio da rua. A C continua. Abro a lente para 19mm centro o bixo e penso: «que se foda a sombra, que se foda o motivo. Como andas joaoluc: agora até fotografas autocarros.» - disparo. O motorista chama-me com uma cara muito séria:

[em inglês agora]

« -eu não faço pose. Sabe que eu não faço pose?
-tudo bem, só apanhei o autocarro.
-mas faço pose se ela pedir.»

Ele aponta a C e abre o sorriso. Silêncio. Todos nos rimos. Gesticula para nos chamar, abre a porta do autocarro e pede para entrarmos. Assim é. Já não atravessamos a rua. Pára o autocarro 20 metros depois, liga os quatro piscas e faz-nos sentar (a mim e à C) ao volante, tendo disparado ele próprio 3 fotos em que nos disse de que maneira queria que estivessemos - uma das quais uma simulação de agressão ao motorista, naturalmente estragada pelas nossas expressões divertidas.

Começamos a sair do autocarro:
«-Não é suposto evidentemente que eu faça nada disto, mas sabem como é, temos que nos divertir na vida.
-Já agora, como se chama?
-Doug.
-Doug?
-Sim. Bem vindos ao Canadá! Divirtam-se.»


| Doug | Toronto | Agosto 2004 |

Sem explicação.


| Manipulação | Toronto | Agosto 2004 |

segunda-feira, novembro 22, 2004

Entre um bife e uma costeleta de porco.

«A culpa é de todos, a culpa não é de ninguém, não é isto verdade? Quer isto dizer, há culpa de todos em geral e não há culpa de ninguém em particular! Somos todos muita bons no fundo, né? Somos todos uma nação de pecadores e de vendidos, né? Somos todos, ou anti-comunistas ou anti-fascistas, estas coisas até já nem querem dizer nada, ismos para aqui, ismos para acolá, as palavras é só bolinhas de sabão, parole parole parole (...)»

Não posso esconder que me incomoda uma atitude simpática e condescendente que tende a mitificar determinado tipo de organizações da esquerda revolucionária. Como se determinados faróis do comunismo não fossem mais sinistros do que a maior parte das democracias burguesas. Como se fosse possível em 2004 defender a sinistra República da Coreia do Norte. Como se fosse possível em 1975 defender a Albânia ou a poesia dos campos de educação pelo trabalho do regime chinês. Fazê-lo é, em qualquer momento, sinistro.

[passa-me aí as batatas fritas.]

Não se trata sequer de uma atitude de sectarismo. É um dever de lucidez que devemos ter connosco próprios e com os valores em que acreditamos.

[pagamos? a conta vem sempre no fim...]

Somos todos gajos muito porreiros. Nunca ninguém fez mal a ninguém. O que lá vai lá vai, não é? Porque é que havemos de falar dessas coisas agora? Porque é que havemos de o fazer? Isso agora não interessa para nada...

[barato, não foi?]


| mão na massa | gajo raro | Novembro 2004 |