sábado, agosto 20, 2005

Duas cidades com o mesmo nome.

Viajo até Lisboa com bastante frequência ao longo de todo o ano. Sinto-me permanentemente em trânsito e com uma vontade permanente de partir. Assim sempre senti a cidade desde que a conheci há mais de 10 anos atrás. Na minha infância Lisboa era uma cidade distante e as grandes viagens (5 horas para percorrer 220kms) não viravam nunca para sul, mas sempre para leste.

Descobri Lisboa aos poucos, não com o sentido das viagens frequentes, mas com as deslocações prepositadas para passear. Almoçar na rua da Palma, lanchar em Belém, comer um gelado no Rossio, jantar no Bairro Alto e acabar a noite num miradouro na Graça.
No dia seguinte pegar no carro para visitar Sintra, a Arrábida ou pura e simplesmente ir ver meia dúzia de exposições idiotas.

Uma das coisas que nunca havia feito, até 2004 foi entrar no Parlamento. Tinha-me habituado a vê-lo do lado de fora. Não é "vê-lo"-"vê-lo". É mais no sentido de me sentir sempre do lado de fora. Nunca tive interesse nos seus participantes, nunca me senti no seu interior, nunca participei na sua composição. Nunca elegi ninguém. Desde 2003 as coisas ficaram um pouco diferentes.

Há no entanto uma sensação que surge de cá de dentro como a de um formigueiro nos braços; a sensação de que todos os passos no Parlamento são passos perdidos.


| André | Parlamento | Lisboa | Junho 2004 |

segunda-feira, agosto 15, 2005

Existir

Existir é uma sequência de decisões disconexas. Em geral passamos grande parte do tempo a acreditar que assim não é.

| The Maria Leonor Project | Amarante | Junho 2005 |

Não é preciso mentir.

Ao vivo, esta paisagem não tinha o mínimo interesse.


| Roménia | Abril 2005 |

sábado, agosto 06, 2005

Esta sensação de impotência absoluta.

Começo a ficar um pouco farto de ouvir falar em vítimas de terramotos, maremotos, cheias e vulcões quando ... pá, fogo, que caraças!


| O Sofa do Ricardo | Madeira | Março 2005 |

2 horas e 20 minutos de atraso. Circulamos em marcha à vista.

Ouço há anos um discurso um pouco redondo e vagamente demagógico anunciando entre a vida do país e as questões centrais do debate político nacional. São coisas que se ouvem com a indiferença de qualquer outro cliché. É normal. Em política e sobre política clichés há ao peso.

É óbvio que há sectores marginais que apontam erros aos grandes investimentos públicos feitos pelo país nos últimos anos. Expo 98, Euro 2004 e, em menor escala, os submarinos ao serviço da NATO e o Porto 2001. A verdade é que no diz respeito ao dia-a-dia das pessoas, os incêndios estivais (esqueçamos as mortes nas estradas) são um dos problemas centrais da gestão do país. E sobre estas questões todos assobiam para o lado. A política trata outras coisas.

Veja-se o caso das próximas eleições autárquicas. Os incêndios e sobretudo a sua prevenção passarão ao lado das discussões sobre rotundas, parques de estacionamento e recuperações urbanas de fachada.

Há sítios no país em que no dia 5 de Agosto de 2005 a noite caiu bem antes do sol se pôr. Para isso não é preciso sequer olhar para o céu. Basta olhar para os olhos de quem está ao lado.


| Laurent | Maio de 2005 |

domingo, julho 31, 2005

terça-feira, junho 28, 2005

Pontos 1 e 2.

1. estes problemas não são exclusivos de Lx ou de comunidades negras. (noutros sítios há “gunas” e são meninos branquinhos capazes de arrastões ou coisas mais graves)

2. a televisão tem o poder de transformar pequenos factos banais (coisas que provavelmente tanto eu como tu já vivemos com incómodo mas sem “alarme”) em grandes eventos mais próprios do espectáculo do que do jornalismo.

Fim de citação.



| Alba Iulia | 2005 |

terça-feira, junho 21, 2005

À Maria, à Sofia, à Matilde, ao Rafael e à Leonor.

Chega-se aos trinta anos rapidamente. Basta para isso pensar que trinta anos são trinta voltas que a Terra dá ao redor do sol. E se ela se move a 10800 Kms/hora, é muito natural que tudo se passe muito rapidamente. Não creio que no entanto seja justo desejarmos-lhe uma multa por excesso de velocidade cósmica.

É um pouco estranha a sensação que por vezes temos que nos olham como bichos raros. Pelas mais diversas razões. Assim é há já muitos anos e a verdade é que não me sinto nada mal com isso. Ontem percebi que há uma curiosidade suplementar na minha vida, que talvez explique a minha vontade permanente de andar a caminho de algum lado. O Porto é uma terra de gente de fora, tal como as terras de fora são terras da gente do Porto. E eu sou do Porto mas não me importava de ser de outro sítio qualquer.

Imagino a Sofia a fazer 18 anos e a ponderar estudar Biblioteconomia em Copenhaga, advocacia em Coimbra, Informática em Estugarda ou Design em Barcelona. A Matilde aos 23, depois de estudar no Porto apanha-se com uma bolsa de investigação em antropologia e põe-se a caminho de Timor ou então enfia-se durante meia dúzia de anos na ilha da Boavista onde caminha descalça em casa e nas ruas. Surpreendendo todos, o Rafael, a meio do curso de veterinária decide fazer uma pausa nos estudos e dando um beijo e um aperto forte aos ossos dos pais (ambos mais baixos que ele), arranca como voluntário para a américa latina onde ganhará anti-corpos a meia dúzia de doenças tropicais. Imaginas isso? E sabes quem é a Maria? Tem um ano e já saltita de Cerveira para Aveiro ou Arcos de Valdevez. Para o ano prometeu-me vir à festa de anos para toda a gente a conhecer.

Quem imaginaria aquela miuda que depois de terminar o curso passaria 5 anos a viver em Lisboa? Passou por várias empresas, sempre com cargos de responsabilidade. Tem um companheiro madeirense. E ele vivia em Lisboa? Não. Na Madeira? Não. No Porto. E ela? Conseguiu voltar há pouco para cá. Quem imaginaria a irmã dela a desenvolver tecnologia de ponta, trabalhar depois num grande organismo da administração pública e de seguida andar a fazer regularmente viagens de circum-navegação ao planeta. O Ricardo (este texto tem vários Ricardos) um dos melhores [colegas | compinchas | companheiros | amigos] (não consigo escolher a palavra certa) do curso prepara o doutoramento em Inglaterra ou vai estudar equipamentos estranhos para Bruxelas ou põe a funcionar os telefones e as redes nas caves mais reconditas dos mais reconditos edifícios do país.

Quem imagina um guedelhudo a fotografar um mês na Palestina depois de se ter soltado da sua masmorra intimista? Ou outros a passearem-se em Luanda a fazer contas à vida e a pensar no regresso às esplanadas do Mindelo, sentado ao lado de quem gosta de denunciar as contradições do poder em relação à nossa terra. Ou os madeirenses (este texto tem vários madeirenses) que se exilam de uma ilha tão bonita governada por gente tão feia. Vêm para o Porto? Não necessariamente… Podem encontrar minhotas e ir para Famalicão ou nunca mais largar meninas transmontanas. Os madeirenses devem ser mesmo um espectáculo. E estes são. Se um dia quiserem conhecer a Madeira a sério podem falar com qualquer madeirense mas na foto há quem seja bom e se recomende.

E aqueles dois um dia encheram-se do Porto e piraram-se aqui para o lado. Não deve ter sido bem do Porto que eles se encheram. De qualquer forma, zás, um para a praia o outro para o campo. Quem diria? Alguém sabia onde era Areia ou Parada? Obviamente não fomos feitos para viver encaixotados. Alguém imagina isso? Olhando para aquela barriguita dentro de uma camisa vermelha hesito por uns momentos. Vivemos todos nós 9 meses encaixotados? Claro que não. Deve ser excepcional passar nove meses abraçando alguém com o nosso corpo. Um caixote é outra coisa.

O bom do futuro é que podemos ser nós a imagina-lo. E por isso mesmo pode ser aquilo que nós quisermos. Um dia, eventualmente a realidade cruzar-se-á com a imaginação. Ontem aconteceu um pouco isso. Apesar disso imaginava mais uma dúzia de pessoas nesta fotografia. Umas estão agora em Lisboa, outras em Inglaterra, outras em França ou na Galiza. Para isso é que se inventou o email. Esse é o problema desta foto. Aqueles que cá não estão. Mas ela dá uma grande satisfação. A satisfação de olhar para ela. Para toda a gente. E ainda por cima é tudo gente bonita.

Aos sessenta anos - daqui a trinta - não quero ter um grande carro nem relógios cujo preço se escreve com 3 ou 4 dígitos e ser um velho endinheirado, petulante e cínico. Uma pessoa nunca junta os amigos para receber prendas – não eu pelo menos. Aos sessenta anos gostava que todos por cá estivessem para passarmos uma noite tranquilamente a conversar das nossas vidas, ouvindo boa música e sem termos que nos preocupar em acordar cedo na manhã seguinte.

Para isso só preciso de continuar a ter a tua amizade, mesmo a 10800kms/hora. Tenham cuidado com as curvas.

Nessa noite, à uma da manhã enviaremos SMSs para Dili, Tegucigalpa, Barcelona ou Luanda. Todos conseguem dizer o que pensam em 160 caracteres. Só eu é que gosto de escrever cartas longas. E de as receber também. Imaginem só...


| Sibiu | Abril 2005 |