sexta-feira, novembro 25, 2005

Nando das orelhas.

De forma indignada exclama perante o presidente da comissão recenseadora a sua repulsa pela ausência dos partidos da direita. Os partidos no poder na junta de freguesia têm uma responsabilidade acrescida, explicou.

Indignado com a gaffe da funcionária, explicou de forma grave como as coligações se dissolvem logo a seguir às eleições pelo que "não, não estava ali a representar a coligação, mas o seu partido". É exímio gladiador de regulamentos, capaz de explicar as subtilezas, as nuances das formas estatutárias e a beleza do articulado da lei - à qual o seu partido sempre se opôs, mas sobre o qual a coligação nunca se pronunciou, evidentemente.

Cheguei a pensar que seria insultuoso sugerir que o velho era um chato de um burocrata. Não senhor. Ele próprio tratou de me explicar como era funcionário partidário desde 1973 e como todos os dias se dirigia a um gabinete qualquer numa zona deprimente e húmida da cidade. Um problema grave, que explica muito do mal estar dos ossos de um senhor que sempre trabalhou numa casa comercial lá da rua. Um problema este tempo nesta cidade. Sim. Um problema esta humidade, o nevoeiro, o granito. Sim. Uma chatice.

O Sr. desculpe, mas essas orelhas não lhe criaram problemas na escola?


| À xávega | ao sul da Caparica | Abril de 2004 |

quinta-feira, novembro 24, 2005

Abre a boca.

Fala. Diz o que pensas. Para que se saiba. As memórias persistem. Não precisarás de ser particularmente grotesco. Basta ser quem és. Um toco. Sairás de cena. Mais dez anos. Óptimo. A amnésia não pode explicar um país.


| visitantes anónimas | Exposição "Interior" | Jup | Abril 2004 |

terça-feira, novembro 22, 2005

O umbigo do umbigo

A ideia de fotografar pessoas que escrevem em blogues, é como brilhantemente o caracterizou uma amiga minha, o umbigo do umbigo. Por aqui poderá aparecer um pouco de tudo. Umbigos, orelhas, cotovelos, lábios, cabelos, unhas, joanetes e com sorte corpos inteiramente nus. Para começar, e para aguçar o apetite, haverá alguns retratos.

Este projecto, sendo feito por quem é, será reflexo deste prazer que todos temos em fotografar. E fotografar sempre foi uma excelente desculpa para encontrar pessoas e passar bons momentos. Anda tudo de mão dada.

Calhou-me a mim a "sorte" de iniciar este projecto, neste dia zero. Escolhi um escritor que aprecio bastante e a quem atribuo parte da culpa por me ter feito aprender a gostar da minha cidade.

Leidis énde gêntleménes, Manuel Jorge Marmelo, os seus livros, ele próprio e a máquina onde os escreve colocada por cima daqueles que já escreveu... Tudo em sua casa.


| Manuel Jorge Marmelo | Porto | Novembro de 2005 |

quarta-feira, novembro 16, 2005

Água quente, doenças de pele, rolos estragados.

Há rolos inteiros onde não se aproveita uma foto digna desse nome. Há rolos inteiros onde não se encontram histórias dignas desse nome. Há rolos inteiros que por inexperiência, descuido ou um acaso qualquer podem ficar todos lixados. Há rolos que ficando todos lixados tornam-se numa história para contar. Há fotos que quando estragadas parecem ganhar o nome de que não são dignas. Há textos que se escrevem só para encher chouriços.


| I & C | Exposição «Interior» | JUP | Porto | Abril 2004 |

segunda-feira, novembro 14, 2005

Princípios Simples VI

Morrer é um direito.

Querida prima, morrer por asfixia com um saco de plástico na cabeça é uma violência desnecessária pudessem as pessoas exercer direitos elementares. Mas, mas, mas... sim há muitos "mas" e eu saberia juntar razões a todos esses "mas", mas, acrescento agora eu, repugna-me solenemente saber todo sofrimento que tiveste na morte - não consigo imaginar como seria em vida. Mas...


| Marília | Gesto | Agosto de 2004 |

quinta-feira, novembro 10, 2005

quinta-feira, outubro 27, 2005

O fedor.

Subtítulos possíveis
Bipolarização | Joana Amaral Dias e Kátia Guerreiro | Blindagem ao centro | ò patego, olha o balão | PS e PSD | Somos todos uns gajos muito fixes |


Compreendo agora onde queres chegar e diria apenas que todo o teu argumento se baseia numa ideia singularmente simples. Essa ideia -a do mal menor - aplica-se a muito da nossa vida quotidiana e é até um princípio de consenso social bastante difundido.


«Mais vale um empreguinho [precário, fodido e mal pago] do que o desemprego»
ou numa versão mais eloquente:
«Não te chega para o bife? Antes no talho do que na farmácia; não te chega para a farmácia? Antes na farmácia do que no tribunal; não te chega para o tribunal? Antes a multa do que a morte; não te chega para o cangalheiro? Antes para a cova do que para não sei quem que há-de vir (...)»


Ora essa história do mais vale estrume que merda tem feito do nosso país uma coisa bastante mal-cheirosa.


| The Maria Leonor Project | 18 de Outubro de 2005 |

sexta-feira, outubro 21, 2005

Principios Simples IV

São pequenos principios que determinam grandes coisas em sociedade. Eu por exemplo nunca votaria num candidato a presidente da república que faça uso da gravata. Falo de machos apenas, como é óbvio - o que infelizmente é o que nos resta.


| The Maria Leonor Project | 18 de Outubro de 2005 |

quinta-feira, outubro 20, 2005

Principios simples III

O preço de mercado é irrelevante em muitos aspectos da vida.

Um exemplo simples.
Em termos de importância o negativo (melhor dizendo, a fotografia) é o mais importante no acto de fotografar. A lente, a máquina e outras paneleirices são meros instrumentos, ainda que o seu valor de mercado seja superior aos milhões de reles negativos (ou fotografias) criadas permanentemente.


| O Eclipse | Rua Passos Manuel | Porto | Outubro de 2005 |

segunda-feira, outubro 03, 2005

Joana é uma gaja moderna.

Joana é uma gaja moderna. Filha de boas famílias, decidiu parir cedo. Gosto de imaginar que sim. Que isso foi resultado de uma decisão. Joana é além de moderna, uma gaja bonita.

Serafim Saudade explica: «As pessoas dividem-se em dois tipos: as do tipo A e as do tipo B. Por sua vez as pessoas do tipo B dividem-se em dois tipos.»

Joana é uma gaja do tipo B. Dentro desse grupo é das que não tem que se preocupar grandemente com a chegada do fim do mês e com os centavos sossobrantes ou como é comum noutras pessoas do tipo B, com os centavos em falta.

Joana tinha outro tipo de preocupações mais generosas do que estas questões mesquinhas de materialidade quotidiana.

Joana gostava de estudar, ampliar horizontes, perceber o mundo em que vivia e as pessoas que o povoavam. Estudar é bom. Eu sei que sim porque já estudei. Estudar no estrangeiro também é bom. Eu sei que sim porque também já estudei no estrangeiro.

Joana gostava de falar e discutir. Falar e discutir é bom. Eu sei que sim porque também gosto de falar e discutir.

Joana começou um dia a fazer política institucional. Nunca tinha feito aquelas coisas chatas de colar cartazes ou escrever panfletos para os distribuir. Eu sei que essas coisas são chatas porque também já as fiz. Mas para fazer política moderna é melhor que não seja uma coisa chata. Obviamente.

Miguel era um kota moderno. Mas a história dele não cabe aqui. Talvez por um pouco de pudor.

Mário não é bem um kota, é mais um velho elefante. A história dele será contada e recontada. Por isso também não cabe aqui.

Modernidade também se escreve com «M». Ele há coisas do caraças.


| Sura Mica | Roménia | 2005 |