quinta-feira, maio 04, 2006

Princípios Simples XI

Para que um país seja rico, não precisa de ter ricos, basta que não tenha pobres.


| Sofá | The XY Project | Abril de 2006 |

quarta-feira, maio 03, 2006

Procura-se vendedor ou vendedora

Em termos de vantagem académica apresentou a sua licenciatura em psicologia do consumo, com uma pós-graduação em marketing pós-colonial. Em termos gerais isso não faria grande diferença. Apenas procuravam mais uma vendedora, de preferência barata e que sobretudo não pusesse em causa o trabalho do Sr. Fonseca - gerente da loja vai para 7 anos em Junho. O Sr. Fonseca penteava a careca com uma melena cheia de brilhantina. Isso não afastava a clientela tradicional da loja de roupa infantil. O leve cheiro a mofo da velha alcatifa completava o quadro.

Ora logo nas primeiras semanas de trabalho "experimental" percebeu-se que alguma coisa podia mudar. A loja começou a ser frequentada por mães solteiras, famílias emigrantes que conversavam em línguas imperceptíveis enquanto remexem as prateleiras. Mas o que mais irritava o Sr. Fonseca era aquele terrível hábito que ela mantinha de não separar nas estantes a roupa de menino da de menina.

É para menino ou para menina? - perguntava há anos o Sr. Fonseca. Ultimamente os clientes respondiam, mas apreciavam vestir os rapazes com roupas às riscas rosa e as meninas de calças de ganga. Os emigrantes - sobretudo os emigrantes - tinham hábitos incompreensíveis para o Sr. Fonseca. Então os vestidos rosa cueca? Então os carapins azul desmaio? Então as babetes para bordar? Então os lacinhos côr de peido? Então a ordem do nosso mundo? Onde andavam as avózinhas? Onde é que se meteram as avózinhas tão amigas do Sr. Fonseca?

Foi despedida no final de contrato de seis meses. Mas isso, ao contrário do que possam pensar, estava determinado à partida pelo Sr. Fonseca.


| Sabes? Houve ali um auto de fé... | Lisboa | Maio de 2001 |

segunda-feira, maio 01, 2006

Emigra reloaded.

O quarto do gajo, inicialmente vazio, começou a ganhar forma. Um mapa geral dos transportes públicos da île de France. Bizarro... O gajo tinha a mania de não sair de casa sem tomar o pequeno-almoço. Guardava os cereais no quarto e malga também.

Electromagnetismo, programação, radiação e propagação e muita papelada política da mais variada. Um passeio em qualquer manifestação em Paris revela facilmente uma biodiversidade maior que qualquer reserva da biosfera. O gajo andava sempre com uma agenda - a agenda do elefante- que nunca largava. Normalmente atirava-a para cima da cama assim que entrava no quarto. Qual palm qual carapuça.

Também se fala português nas ruas. Nas caixas de supermercado tratam-te por "tuga". Estás longe da capital mas tens uma vantagem. Há uma mercearia árabe que vende pão a sério e não aquelas baguetes secas e duras.

Estou certo que noutro sítio qualquer será parecido.

Não há nada que este país te possa dar. E isto de emigrar é a nossa essência. É das poucas coisas em que tivemos sucesso enquanto povo.

Não te prometo visitar mas já sabes que responderei a todas as tuas cartas.


| Café de Saco | Brasileira | Braga | 1999? |

quarta-feira, abril 26, 2006

O vinho e a cidade.

Repara que não há grande coisa a discutir. Imagina que o teu objectivo é apenas parar o funcionamento da cidade. É muito mais eficaz pegares no Fiat Uno da minha mãe, chegar de manhã à faixa da direita da ponte da Arrábida, provocar uma avaria, ligar os quatro piscas e deixá-lo por ali durante uma boa hora e meia até chegar um reboque qualquer. Entretanto outro manguela estaria simultaneamente a fazer o mesmo, digamos, por baixo do túnel da rotunda dos Produtos Estrela. Não tenho dúvidas que a cidade parava.

Agora pensa numa garrafa de vinho pousada na tua mesa. Encontraste-a na garrafeira do teu tio, poucos dias depois de ele ter sido preso por causa de uma cena qualquer com facturas e cheques pré-datados. É uma garrafa sem rótulo. Ao lado dessa está uma segunda garrafa - essa com rótulo. Diz o rótulo que o líquido no seu interior tem um sabor redondo e cheiro a compota. Repara que não há grande coisa a discutir.

Imaginemos agora que a coisa se coloca neste plano: qual das garrafas escolherias para juntar ao depósito de combustível do Fiat Uno da minha mãe?


| Ti João Taberneiro | algures no concelho de Vinhais | Fevereiro de 1995 |

quarta-feira, abril 19, 2006

Apagando um por um até que não reste nada.

Primeiro é preciso o programa. Saca-se para o disco, instala-se, carrega-se umas tantas vezes no botão "próximo", responde-se que "sim" a uma pergunta qualquer e está pronto.

É então que se pode começar a pegar nalguns blogues. Neste caso não interessa verdadeiramente fazer a agregação daqueles com os quais simpatizamos. Esses ficam para depois. Escolhem-se os blogues em função dos seus defeitos. É fácil descobri-los. Depois agrupam-se em categorias: empertigados, idiotas chapados, miúdas por desmamar, potes de testosterona, famosos com mania, tipos com a mania que são famosos, fedelhos em bicos dos pés, fotógrafos de telemóvel, tudo, tudo, tudo... Algumas destas características cruzam-se, mas isso não é determinante neste processo.

Espera-se um ou dois minutos. O ecran vai-se enchendo com posts, escritos, declarações pomposas, comentários irrelevantes, opiniões bacocas, literatura coxa, política de sala de bilhar, lixo, lixo, lixo...

Com deleite observa-se todo o amontoado. O programa diz-nos que são 1426 posts. Organizados. Classificados.

É então que se começa a carregar no botão de "delete". Fica por baixo do "insert" e ao lado do "end". Em menos de um fósforo não resta nada. E fica a sensação de alívio. Conseguimos limpar a blogosfera.

Para quem não percebe a utilidade do xml, creio que este não é o exemplo adequado. No fundo a blogosfera serve para isto mesmo. Para nada.

Delete. Deleite.


| EuroPride | Paris | 20 de Junho de 1998 |

quinta-feira, abril 06, 2006

Quando saires, fecha a porta.

Enquanto durmo entras em casa. Com o indicador empurras a porta da cozinha que se abre lentamente. Os trapos por trás da banca. O pano da louça caído distraidamente num sítio qualquer do balcão. Enches o peito de ar. Na sala os sapatos esquecidos. Serão relembrados no dia seguinte - por isso os mudas de sítio e sorris. A casa atravessa-se em menos de nada. Todas as portas estão abertas à tua espera.
Quase uma dúzia de livros nas mesinhas de cabeceira e um estore aberto. Sim. Quando sozinho durmo muitas vezes com o estore aberto. Espreitas lá para fora e vês a chuva cair nos carros. Ninguém os roubou esta noite, nem na anterior, nem na próxima. Pensas nas obsessões da vizinhança por uns momentos, encolhes os ombros e olhas para mim de novo. Babo-me durante o sono. Apagas a aparelhagem. Sim quando sozinho durmo muitas vezes com música.

Sais de novo de mansinho. De manhã ainda sinto a tua presença, mas se me perguntarem, terei que responder a verdade. Nunca te vi.


| De nariz empinado | Marvão | Fevereiro de 2003 |

quarta-feira, abril 05, 2006

Tomaremos de assalto as salas de todas as casas.

Não há pressupostos. Partimos de certezas absolutas. Na nossa organização devem as bases ser demitidas. Todas as estruturas devem ser ocupadas, demitidas, expurgadas, repovoadas e finalmente recriadas. Devemos promover organizativamente a cultura do golpe de estado. Ninguém assinará este manifesto pois ele foi escrito para não ser posto em prática.

Ponto octagésimo sétimo:
-Não haverá pontos um. As simplificações da realidade são uma degenerescência.
Ponto centésimo segundo:
-Tomaremos a direcção como um fenómeno temporal transitório. Com ela não nos preocuparemos.
Ponto duocentésimo vigésimo terceiro:
-Nas listas de moradas alteraremos os números das portas de todos os aderentes. Desta forma garantiremos que pelo menos novas pessoas lerão as convocatórias. Isso não alterará nada uma vez que já actualmente ninguém responde às mesmas.
Ponto vigésimo oitavo:
-Não respeitaremos a ordem. Nem nos pontos do manifesto.
Ponto décimo sexto:
-Nas listas de contactos por telemóvel somaremos três a todos os penúltimos dígitos. As mensagens passarão a ter insinuações levemente namoriscadeiras. Isso não alterará nada uma vez que já actualmente ninguém responde às mesmas. Mas aumentará o nível de auto-confiança do país.
Ponto sexagésimo nono:
-As reuniões terão qualquer ordem de trabalhos. Isso é irrelevante. Em todas elas o poder será tomado com música. Nos golpes de estado em que eu participe ela será preponderantemente francófona.
Ponto heptacentésimo trigésimo quinto:
-Todas as decisões devem ser tomadas. Todas as resoluções devem ser escritas. Todas as ocupações devem ser convocadas. Todas as greves devem ser festivas. Todas as ruas devem ser pintadas. Todos os militantes devem ser despidos. Todas as salas devem ser ocupadas. Nas televisões apenas uma mira técnica com o custo da factura mensal da TV Cabo.
Ponto penúltimo:
-Neste ecran onde lês isto deverás assinar na linha respectiva.
Ponto último.
-Usa caneta de feltro.

Assina:

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| Aos saltos baixos | Montreal | Setembro de 2004 |

segunda-feira, abril 03, 2006

Não sei se te beije, não sei se te bata.

É um anúncio urbanístico premonitório. Vindo de automóvel do norte, entra-se em Nápoles pelo Sul. A cidade explica-se por si só desta forma. As cidades têm a sua personalidade própria e aquelas que são difíceis de explicar são-o porque são também difíceis de compreender. Assim que se entra na Piazza Giuseppe Garibaldi em plena hora de ponta, a cidade anuncia-se e explica-se. Não há carros em Nápoles que estejam impecáveis. Todos estão riscados, batidos, amolgados, amassados. Em paralelo percebe-se que um semáforo verde é uma indicação para avançar, mas o vermelho é apenas uma indicação para abrandar. As passadeiras são objectos decorativos e os passeios são a melhor forma das motorizadas escaparam ao trânsito do fim do dia. Provavelmente tudo isto são factos não correlacionados.

Meter num mesmo centro histórico, lado-a-lado, as ruas requintadas de Paris e as ruelas da Sé do Porto é uma coisa desconcertante. Mas mais desconcertante é entrar numa qualquer igreja e ver rapazes e raparigas com 16, 18 anos à espera para se confessarem. Desconcertante apenas porque com essa idade é natural que não tenham carta de condução. Pensando melhor, talvez por isso o façam...


| Portugal não tem nada a esconder | Linhares | Janeiro de 2004 |

sexta-feira, março 31, 2006

Não acordei no passado porque não adormeci.

No mundo do telégrafo o tráfego internacional era facturado ao caracter a partir dos primeiros 35 caracteres. Perguntava-se frequentemente se os stops também eram pagos. Não senhor, os stops não eram pagos. Um dia os telemóveis acabaram. Não porque os operários chineses se tenham decidido a recusar a fabrica-los ou porque algum poder tutelar o tenha vaticinado. Enfim, há coisas que não têm grande explicação, mesmo quando são bastante bem explicadas. Numa sociedade de informação isso é mesmo muito frequente.

No dia em que eu voltei a usar o telégrafo, percebi espantado que ninguém me percebia quando respondia dois pontos fechar parêntesis. Aguardo que para a semana me seja instalada uma máquina de telex em casa, mas percebo que um curso de Building Cisco Multilayer Switched não me será de grande utilidade no futuro. A carreira técnica nunca foi muito bem compreendida - é verdade descobri-lo da forma mais dura. stop.

Uma coisa é certa, isto de fazer links é muito chato. Ponto e vírgula fechar parêntisis.


| Annabelle | Nancy | 1999 |

quinta-feira, março 23, 2006

Princípios Simples X

Respeitar regras com sentido. Desrespeitar regras sem sentido.


| Semana Santa | Sevilha | Abril de 2001 |