quarta-feira, maio 17, 2006

Não é bem um Hotel mas também não é bem uma pensão.

Da profissão que tinha guardava algumas vantagens para os momentos em que se sentia um pouco mais abatido. Escrevia essas vantagens nuns papeluchos amarelos que se colavam todos uns aos outros e metia-os dentro do bolso interior do casaco. Relia-os nas noites de verão em que estava sozinho na cidade, enquanto todas as outras pessoas se tinham metido num apartamento de aluguer em Albufeira, Figueira da Foz, Esposende ou Sanxenxo.

Um desses papéis dizia: conhecer bem todo o país. [este homem alegrava-se com coisas simples]
Outro dizia: podes manter-te actualizado com as últimas novidades do mercado de collants de senhora. [este homem tinha interesses bizarros]
E finalmente havia um que rezava assim: dormir em Hotéis que têm televisão por cabo. [este homem vivia numa zona sem televisão por cabo]

Releu por diversas vezes este último papelucho. Isto porque ele não conseguia dormir bem de cada vez que tinha que dormir num hotel. Sim, os hotéis eram bons. Sim, estavam limpos. Sim, tinham ar condicionado. Mas não, não conseguia dormir bem em nenhum deles.
Três anos depois escrevinhava num papelucho amarelo, com a letra tremida pelo balançar do comboio: os hotéis mais rascas têm menos canais, mas o sono é mais profundo.



| Aparição de S. JoaoLuc às pastorinhas | Coimbra | Maio de 2006 |

domingo, maio 14, 2006

Coisas a levar para uma ilha deserta.

Bronzeador.
Desodorizante.
Sombrinha para os olhos.
Pensos higiénicos.
Décadas de Moda, Harriet Worsley, Könemann.
Mão Morta, Mutantes S21.


| The XY Project | Porto | Abril 2006 |

quarta-feira, maio 10, 2006

Chanatos molhados, espuma no cabelo e areia entre os dedos.

Era muito raro encontrarem-se naquelas circunstâncias típicas de um filme. De mãos dadas num pôr do sol em frente ao mar... A praia, quando eles tinham doze anos, estava cheia de sargaço que se podia percorrer com as mãos à procura dos beijinhos que se comeriam ao fim da tarde - depois de passarem pela panela. Mudou muito o mar. Mudou muito a praia. Nada que se possa explicar de forma metódica. É um sentimento, um formigueiro que leva rapidamente alguém a banalizar-se pensando: «no meu tempo é que era...»

São frágeis as praias em frente ao mar. Mas ainda assim - disse-lhe ela - penso com os meus botões, que em todas as gerações têm mérito aqueles que arriscam molhar os pés e se dispõem a enfrentar o mar. Claro que haverá sempre quem se ponha na posição confortável de alguém que no final de tudo poderá exclamar triunfante: «vejam como são patéticos: estão todos molhados».

A questão não é o mar. É a praia.
A questão não é o pôr-do-sol. É todo o dia e toda a noite.
A questão não é triunfar. É molhar os pés.
A questão não é enfrentar uma maré. É acabar com o aquecimento global.


| Cravos de Abril em Maio | Porto | Maio de 2006 |

quinta-feira, maio 04, 2006

Princípios Simples XI

Para que um país seja rico, não precisa de ter ricos, basta que não tenha pobres.


| Sofá | The XY Project | Abril de 2006 |

quarta-feira, maio 03, 2006

Procura-se vendedor ou vendedora

Em termos de vantagem académica apresentou a sua licenciatura em psicologia do consumo, com uma pós-graduação em marketing pós-colonial. Em termos gerais isso não faria grande diferença. Apenas procuravam mais uma vendedora, de preferência barata e que sobretudo não pusesse em causa o trabalho do Sr. Fonseca - gerente da loja vai para 7 anos em Junho. O Sr. Fonseca penteava a careca com uma melena cheia de brilhantina. Isso não afastava a clientela tradicional da loja de roupa infantil. O leve cheiro a mofo da velha alcatifa completava o quadro.

Ora logo nas primeiras semanas de trabalho "experimental" percebeu-se que alguma coisa podia mudar. A loja começou a ser frequentada por mães solteiras, famílias emigrantes que conversavam em línguas imperceptíveis enquanto remexem as prateleiras. Mas o que mais irritava o Sr. Fonseca era aquele terrível hábito que ela mantinha de não separar nas estantes a roupa de menino da de menina.

É para menino ou para menina? - perguntava há anos o Sr. Fonseca. Ultimamente os clientes respondiam, mas apreciavam vestir os rapazes com roupas às riscas rosa e as meninas de calças de ganga. Os emigrantes - sobretudo os emigrantes - tinham hábitos incompreensíveis para o Sr. Fonseca. Então os vestidos rosa cueca? Então os carapins azul desmaio? Então as babetes para bordar? Então os lacinhos côr de peido? Então a ordem do nosso mundo? Onde andavam as avózinhas? Onde é que se meteram as avózinhas tão amigas do Sr. Fonseca?

Foi despedida no final de contrato de seis meses. Mas isso, ao contrário do que possam pensar, estava determinado à partida pelo Sr. Fonseca.


| Sabes? Houve ali um auto de fé... | Lisboa | Maio de 2001 |

segunda-feira, maio 01, 2006

Emigra reloaded.

O quarto do gajo, inicialmente vazio, começou a ganhar forma. Um mapa geral dos transportes públicos da île de France. Bizarro... O gajo tinha a mania de não sair de casa sem tomar o pequeno-almoço. Guardava os cereais no quarto e malga também.

Electromagnetismo, programação, radiação e propagação e muita papelada política da mais variada. Um passeio em qualquer manifestação em Paris revela facilmente uma biodiversidade maior que qualquer reserva da biosfera. O gajo andava sempre com uma agenda - a agenda do elefante- que nunca largava. Normalmente atirava-a para cima da cama assim que entrava no quarto. Qual palm qual carapuça.

Também se fala português nas ruas. Nas caixas de supermercado tratam-te por "tuga". Estás longe da capital mas tens uma vantagem. Há uma mercearia árabe que vende pão a sério e não aquelas baguetes secas e duras.

Estou certo que noutro sítio qualquer será parecido.

Não há nada que este país te possa dar. E isto de emigrar é a nossa essência. É das poucas coisas em que tivemos sucesso enquanto povo.

Não te prometo visitar mas já sabes que responderei a todas as tuas cartas.


| Café de Saco | Brasileira | Braga | 1999? |

quarta-feira, abril 26, 2006

O vinho e a cidade.

Repara que não há grande coisa a discutir. Imagina que o teu objectivo é apenas parar o funcionamento da cidade. É muito mais eficaz pegares no Fiat Uno da minha mãe, chegar de manhã à faixa da direita da ponte da Arrábida, provocar uma avaria, ligar os quatro piscas e deixá-lo por ali durante uma boa hora e meia até chegar um reboque qualquer. Entretanto outro manguela estaria simultaneamente a fazer o mesmo, digamos, por baixo do túnel da rotunda dos Produtos Estrela. Não tenho dúvidas que a cidade parava.

Agora pensa numa garrafa de vinho pousada na tua mesa. Encontraste-a na garrafeira do teu tio, poucos dias depois de ele ter sido preso por causa de uma cena qualquer com facturas e cheques pré-datados. É uma garrafa sem rótulo. Ao lado dessa está uma segunda garrafa - essa com rótulo. Diz o rótulo que o líquido no seu interior tem um sabor redondo e cheiro a compota. Repara que não há grande coisa a discutir.

Imaginemos agora que a coisa se coloca neste plano: qual das garrafas escolherias para juntar ao depósito de combustível do Fiat Uno da minha mãe?


| Ti João Taberneiro | algures no concelho de Vinhais | Fevereiro de 1995 |

quarta-feira, abril 19, 2006

Apagando um por um até que não reste nada.

Primeiro é preciso o programa. Saca-se para o disco, instala-se, carrega-se umas tantas vezes no botão "próximo", responde-se que "sim" a uma pergunta qualquer e está pronto.

É então que se pode começar a pegar nalguns blogues. Neste caso não interessa verdadeiramente fazer a agregação daqueles com os quais simpatizamos. Esses ficam para depois. Escolhem-se os blogues em função dos seus defeitos. É fácil descobri-los. Depois agrupam-se em categorias: empertigados, idiotas chapados, miúdas por desmamar, potes de testosterona, famosos com mania, tipos com a mania que são famosos, fedelhos em bicos dos pés, fotógrafos de telemóvel, tudo, tudo, tudo... Algumas destas características cruzam-se, mas isso não é determinante neste processo.

Espera-se um ou dois minutos. O ecran vai-se enchendo com posts, escritos, declarações pomposas, comentários irrelevantes, opiniões bacocas, literatura coxa, política de sala de bilhar, lixo, lixo, lixo...

Com deleite observa-se todo o amontoado. O programa diz-nos que são 1426 posts. Organizados. Classificados.

É então que se começa a carregar no botão de "delete". Fica por baixo do "insert" e ao lado do "end". Em menos de um fósforo não resta nada. E fica a sensação de alívio. Conseguimos limpar a blogosfera.

Para quem não percebe a utilidade do xml, creio que este não é o exemplo adequado. No fundo a blogosfera serve para isto mesmo. Para nada.

Delete. Deleite.


| EuroPride | Paris | 20 de Junho de 1998 |

quinta-feira, abril 06, 2006

Quando saires, fecha a porta.

Enquanto durmo entras em casa. Com o indicador empurras a porta da cozinha que se abre lentamente. Os trapos por trás da banca. O pano da louça caído distraidamente num sítio qualquer do balcão. Enches o peito de ar. Na sala os sapatos esquecidos. Serão relembrados no dia seguinte - por isso os mudas de sítio e sorris. A casa atravessa-se em menos de nada. Todas as portas estão abertas à tua espera.
Quase uma dúzia de livros nas mesinhas de cabeceira e um estore aberto. Sim. Quando sozinho durmo muitas vezes com o estore aberto. Espreitas lá para fora e vês a chuva cair nos carros. Ninguém os roubou esta noite, nem na anterior, nem na próxima. Pensas nas obsessões da vizinhança por uns momentos, encolhes os ombros e olhas para mim de novo. Babo-me durante o sono. Apagas a aparelhagem. Sim quando sozinho durmo muitas vezes com música.

Sais de novo de mansinho. De manhã ainda sinto a tua presença, mas se me perguntarem, terei que responder a verdade. Nunca te vi.


| De nariz empinado | Marvão | Fevereiro de 2003 |