sexta-feira, junho 30, 2006

As taras de Malaquias.

Ao atravessar o corredor, no meio da gente molhada pela chuva matinal, olho-o na face. A caminho do emprego, a mesma expressão atenta e opaca, o mesmo caminhar pausado e determinado. Um chapeu ridículo na cabeça.

Preparei-me para estender o braço e pará-lo. Levantar-me do banco e conversar durante a curta viagem. Afinal de contas conhecemo-nos desde o ensino secundário. Partilhamos amigos, conversas, discos de vinil, ensaios de bandas em garagens, concertos entre gente conhecida.

Não senhor. Não abri o bico. Deixa-o ir. Que se foda. O gajo de manhã é um chato. Fala alto que se farta. Só despeja banalidades e quando fala sério não dá uma para a caixa. Ainda por cima estou bem sentado.

O dia começa assim. Entre desconhecidos arrepiantes e um conhecido banal, preferi os primeiros, a quem não nego uma palavra simpática de cada vez que a mim se dirigem.

Ultimamente até por mail o faço. Não consigo dizer: que se foda. E os desconhecidos continuam a imaginar-me como um elfo: uma criatura simpática, mágica e maravilhosa. Mais uma lenda, portanto.


| Casa da Música | Porto | Junho de 2006 |

quarta-feira, junho 28, 2006

Bela Lugosi's Dead

Aos 16 anos compra-se uma t-shirt dos Bauhaus. Daquelas t-shirts que só se compram aos 16 anos. Quando aos 21 nos oferecem uma t-shirt dos Fields of the Nephilim apreciamos, agradecemos mas só a usamos quando o rei faz anos. Como vivemos numa república a t-shirt vai ficando esquecida por baixo daquela outra da Siouxsie comprada num memorável concerto na Figueira da Foz.

Muitos anos depois começamos a apreciar, mais do que os originais, as versões languidas que se vão fazendo. Até os Dead Kennedys descobrem um charme quase pueril.

Há muitos anos, um dia à noite, enquanto ouvia pela primeira vez a guitarra do Ry Cooder do Paris Texas, num velho programa da Antena 1, estava longe de imaginar que tudo se repetiria. Versões dos Gotan Project, versões dos Nouvelle Vague, versões variadas do Gainsbourg feitas por desconhecidas, mas aparentemente muito famosas vedetas do pop-rock britânico. Visitas guiadas à adolescência.

Nada me tira da cabeça que o primeiro sintoma de tudo isto foi a versão do Head On feita pelos Pixies. Lá diz o Fernando Alves, há que estar atento aos sinais...

Aqui podes encontrar a letra da música dos Bauhaus e para quem ler inglês, um artigo sobre a mesma.


| Retrato [quase] Falhado | Porto | Junho de 2006 |

terça-feira, junho 27, 2006

Princípios Simples XIV

Manter sempre dois rolos de papel higiénico no quarto de banho, à distância de um braço.


| Aldeia da Cuada | Casa da Esméria | Ilha das Flores | Açores | 20 de Junho de 2006 |

quarta-feira, junho 14, 2006

Bordado com cores vivas no elástico da cueca.

Desde há uns anos, quando os problemas orçamentais afectaram pela primeira vez a congregação do Sagrado e Espirituoso Coração Venerável da Virgem Santíssima da Trindade de Nossa Senhora, que as irmãzinhas se habituarem aos patrocínios comerciais no seu hábito. Na verdade as freiras em muito pouco se distinguiam agora de um ciclista em final de etapa.

Apesar de tudo isto foi com alguma surpresa que o Sr. Presidente do Conselho de Administração recebeu na sua secretária um pedido para que o BCP patrocinasse a costura da roupa interior das irmãzinhas. Depois da surpresa inicial, olhou para o seu assistente, também ele membro da Opus Dei, que lhe sorriu de forma cúmplice. Nem sequer os rituais iniciáticos são agora como eram no seu tempo.

Inspirando fundo, lembrando-se da irmã Rosa há 26 anos atrás, rabiscou o papel e foi tomar café. Os novos membros certamente não esquecerão o banco...


| Retrato [quase] Falhado | Porto | Junho de 2006 |

sexta-feira, junho 09, 2006

Plataformas petrolíferas ao pôr do sol.

Já a mais de três horas e meia de caminho a partir de cidade, quando encontrou por acaso um vizinho velhote sentado ao fim da tarde à volta de uma fogueira mortiça, sentou-se. Com os olhos perdidos nas crianças que apareciam e desapareciam no meio do arvoredo, deu consigo a pensar nas velhas histórias do Enki Bilal que o seu pai lhe tinha dado a ler pela primeira vez em 2024, quando, com 18 anos, se meteu pela primeira vez a caminho de Timor.

Afinal o apocalipse aparece de mansinho. Primeiro todos vêem pequenas notícias na televisão que não se percebem muito bem. Depois surgem notícias e notícias menos vistosas que a maioria vai considerando alarmistas. Finalmente a colónia muda pela terceira vez de mãos.

Tira o passaporte do bolso de trás das calças e vai desfolhando-o como se estivesse de novo em casa com as BDs do seu pai na mão. Primeiro as do Jodorowsky, depois as do Bilal e finalmente as do Júlio Pinto. Com essa ideia na cabeça sorriu para o vizinho velhote, guardou o passaporte e foi fotografar as crianças.


| Não respire. Pode respirar. | Porto | Outubro de 2005 |

segunda-feira, junho 05, 2006

Uma questão de design de interiores.

Ao entrar na tabacaria do costume toca o telefone. Um número qualquer aparece no visor. O elfo que vive dentro do telemóvel não soube indicar quem era. Bom, atende-se e já se vê.

Era o Sr. Teixeira. Quem era o Sr. Teixeira? Quem era o Sr. Teixeira?
(apontando para uma revista à srª da tabacaria)

Ahhh! Da imobiliária não sei o quê. Perfeitamente Sr. Teixeira!
(tentando com uma só mão pagar a dita revista, enquanto que a outra segura o telemóvel)

Claro que me recordo. Sim. Sim. Ahhhh. Não. Não estou interessado. Já tenho o problema resolvido. Pois. Sei. Pois. Obrigado.

Desliga o telefone. Olha duas vezes para a tabacaria lá atrás. Olha duas vezes para a revista. Porra! Como é que comprei uma revista de decoração?


| Re-aparição de S. JoaoLuc às pastorinhas | Coimbra | Maio de 2006 |

domingo, junho 04, 2006

Cometi uma gralha*

...eu acho que essa "lógica" de reduzir o modo de pensar ao método da coerência [e não da contradição] é uma conquista da humanidade. Sem fazer grandes considerações sobre ciência e pensamento, pensando em coisas mais "simples", penso que é essa a lógica da palavra, da língua e da escrita. É a lógica da coerência dos signos entre um grupo de seres humanos. O pensamento humano é para mim materialmente (e portanto de forma não sujeita a subjectividades) necessariamente coerente. A língua impõe as fronteiras do pensamento. Não podes sonhar com conceitos que não conheces e por isso mesmo os sonhos são coerentes! Por essa razão te digo que coerência e pensamento são uma e a mesma coisa. Não creio que seja uma coisa europeia ou seja lá o que for. É algo humano.

*Imagino que não te tenhas apercebido de imediato.


| The XY Project | Porto | Maio 2006 |

segunda-feira, maio 29, 2006

Mundial de 2006. Os apoios que não se verão.

Serei daqueles que não terá qualquer problema em apoiar o México contra a selecção portuguesa. Sei que encontraria num ápice os companheiros ideais para festejar e para muito mais. Mas no tsunami de condicionamento em que vivemos, afirma-lo seria uma espécie de heresia, punível certamente com a fogueira de um tribunal em que os jurados seriam nomeados pelo BES, pela SIC, pela Galp, pelos industriais de Paços de Ferreira e por outro foçangueiro qualquer que se meta ao barulho para ganhar uns cobres.

Há uma distinção óbvia entre a prática do desporto e o seu uso para fins os fins obscenos a que se dedicam os nossos “jornalistas” (as aspas são mesmo propositadas) condicionando deliberadamente o espectador.

A verdade é que, não teria grandes dificuldades em torcer pela Alemanha, pela Argentina e mesmo por uma eventual selecção madeirense. Mas agora que ninguém está a ouvir, se visse eu a selecção portuguesa chegar à final, arranjaria secretamente parceiros para comemorar em conjunto o campeonato do mundo. E como o que importa mesmo é comemorar, vou começar a arranjar compinchas para comemorar a sua derrota.

O futebol enquanto espectáculo é, regra geral, pouco dignificante da inteligência humana. Ainda assim há coisas interessantes que se podem dizer sobre o assunto, ainda que de repente não me ocorram quais. Falta de interesse meu.


| Aquecimento | Parque da Cidade | Porto | Maio de 2006 |

quarta-feira, maio 17, 2006

Não é bem um Hotel mas também não é bem uma pensão.

Da profissão que tinha guardava algumas vantagens para os momentos em que se sentia um pouco mais abatido. Escrevia essas vantagens nuns papeluchos amarelos que se colavam todos uns aos outros e metia-os dentro do bolso interior do casaco. Relia-os nas noites de verão em que estava sozinho na cidade, enquanto todas as outras pessoas se tinham metido num apartamento de aluguer em Albufeira, Figueira da Foz, Esposende ou Sanxenxo.

Um desses papéis dizia: conhecer bem todo o país. [este homem alegrava-se com coisas simples]
Outro dizia: podes manter-te actualizado com as últimas novidades do mercado de collants de senhora. [este homem tinha interesses bizarros]
E finalmente havia um que rezava assim: dormir em Hotéis que têm televisão por cabo. [este homem vivia numa zona sem televisão por cabo]

Releu por diversas vezes este último papelucho. Isto porque ele não conseguia dormir bem de cada vez que tinha que dormir num hotel. Sim, os hotéis eram bons. Sim, estavam limpos. Sim, tinham ar condicionado. Mas não, não conseguia dormir bem em nenhum deles.
Três anos depois escrevinhava num papelucho amarelo, com a letra tremida pelo balançar do comboio: os hotéis mais rascas têm menos canais, mas o sono é mais profundo.



| Aparição de S. JoaoLuc às pastorinhas | Coimbra | Maio de 2006 |