sexta-feira, julho 14, 2006

São rolos senhor, são rolos.

Guardo, por revelar, mais de meia dúzia de rolos. Não sei sequer o que contêm. Não sei sequer quando os expus à luz. Um dia, organizá-los-ei por sensibilidade e, começando pelos mais sensíveis para os menos sensíveis passarei uma noite de cócoras no quarto de banho. Terá passado mais de um ano sobre a data em que fotografei com o mais antigo de todos eles. Nessa altura, depois de os secar, de os cortar seis a seis e de os arquivar em crepitantes folhas de papel vegetal, escreverei um texto no meu blogue que começará da seguinte forma:
«Guardo, por digitalizar, mais de meia dúzia de rolos.»


| Chinês | Porto | Noite de S. João | 2005 |

quarta-feira, julho 05, 2006

Princípios Simples XV

[Em condições comparáveis] É mais importante escolher as pessoas com quem se trabalha do que propriamente as funções que se desempenham.

O verbo pode ainda ser estudar; brincar; passear; divertir; viver - com as devidas variantes.


| S. Bartolomeu do Mar | 25 de Agosto de 2005 |

Como quem olha para as nuvens no céu.

* Olha pá, sabes que quando mudei de emprego, uma das coisas que mais pesou na decisão foi o facto de sair de casa de manhã com a sensação nítida que me ía enfiar num covil. O ambiente era tão mau, que cheguei a receber solicitações por correio electrónico de pessoas que trabalhavam a dois metros de mim.

# Isso acontece-me muitas vezes. O que eu faço normalmente é pô-los na pasta do spam.

* Enfim. Agora, neste novo emprego, por volta das 8:45h, mal me sento para começar a usar pela primeira vez o neurónio, aparece-me um gajo que insiste em ir tomar café.

# É panasca?

* Não. O tipo até é simpático mas como ouve a TSF enquanto está no quarto de banho, tem sempre uma discussão estéril sobre qualquer assunto da actualidade. Não é bem uma discussão, porque na verdade ele limita-se a falar praticamente sózinho.

# Portanto agora tens bom ambiente de trabalho, mas tens que gramar com uma lapa todas as manhãs...

* É um pouco isso. Um destes dias, enquanto estávamos na câmara escura, aproveitei para lhe deitar revelador nos sapatos. Agora, enquanto ele fala, entretenho-me a imaginar formas para a mancha que de dia para dia vai aparecendo na camurça.


| Cinema Batalha | Porto | Junho de 2006 |

sexta-feira, junho 30, 2006

As taras de Malaquias.

Ao atravessar o corredor, no meio da gente molhada pela chuva matinal, olho-o na face. A caminho do emprego, a mesma expressão atenta e opaca, o mesmo caminhar pausado e determinado. Um chapeu ridículo na cabeça.

Preparei-me para estender o braço e pará-lo. Levantar-me do banco e conversar durante a curta viagem. Afinal de contas conhecemo-nos desde o ensino secundário. Partilhamos amigos, conversas, discos de vinil, ensaios de bandas em garagens, concertos entre gente conhecida.

Não senhor. Não abri o bico. Deixa-o ir. Que se foda. O gajo de manhã é um chato. Fala alto que se farta. Só despeja banalidades e quando fala sério não dá uma para a caixa. Ainda por cima estou bem sentado.

O dia começa assim. Entre desconhecidos arrepiantes e um conhecido banal, preferi os primeiros, a quem não nego uma palavra simpática de cada vez que a mim se dirigem.

Ultimamente até por mail o faço. Não consigo dizer: que se foda. E os desconhecidos continuam a imaginar-me como um elfo: uma criatura simpática, mágica e maravilhosa. Mais uma lenda, portanto.


| Casa da Música | Porto | Junho de 2006 |

quarta-feira, junho 28, 2006

Bela Lugosi's Dead

Aos 16 anos compra-se uma t-shirt dos Bauhaus. Daquelas t-shirts que só se compram aos 16 anos. Quando aos 21 nos oferecem uma t-shirt dos Fields of the Nephilim apreciamos, agradecemos mas só a usamos quando o rei faz anos. Como vivemos numa república a t-shirt vai ficando esquecida por baixo daquela outra da Siouxsie comprada num memorável concerto na Figueira da Foz.

Muitos anos depois começamos a apreciar, mais do que os originais, as versões languidas que se vão fazendo. Até os Dead Kennedys descobrem um charme quase pueril.

Há muitos anos, um dia à noite, enquanto ouvia pela primeira vez a guitarra do Ry Cooder do Paris Texas, num velho programa da Antena 1, estava longe de imaginar que tudo se repetiria. Versões dos Gotan Project, versões dos Nouvelle Vague, versões variadas do Gainsbourg feitas por desconhecidas, mas aparentemente muito famosas vedetas do pop-rock britânico. Visitas guiadas à adolescência.

Nada me tira da cabeça que o primeiro sintoma de tudo isto foi a versão do Head On feita pelos Pixies. Lá diz o Fernando Alves, há que estar atento aos sinais...

Aqui podes encontrar a letra da música dos Bauhaus e para quem ler inglês, um artigo sobre a mesma.


| Retrato [quase] Falhado | Porto | Junho de 2006 |

terça-feira, junho 27, 2006

Princípios Simples XIV

Manter sempre dois rolos de papel higiénico no quarto de banho, à distância de um braço.


| Aldeia da Cuada | Casa da Esméria | Ilha das Flores | Açores | 20 de Junho de 2006 |

quarta-feira, junho 14, 2006

Bordado com cores vivas no elástico da cueca.

Desde há uns anos, quando os problemas orçamentais afectaram pela primeira vez a congregação do Sagrado e Espirituoso Coração Venerável da Virgem Santíssima da Trindade de Nossa Senhora, que as irmãzinhas se habituarem aos patrocínios comerciais no seu hábito. Na verdade as freiras em muito pouco se distinguiam agora de um ciclista em final de etapa.

Apesar de tudo isto foi com alguma surpresa que o Sr. Presidente do Conselho de Administração recebeu na sua secretária um pedido para que o BCP patrocinasse a costura da roupa interior das irmãzinhas. Depois da surpresa inicial, olhou para o seu assistente, também ele membro da Opus Dei, que lhe sorriu de forma cúmplice. Nem sequer os rituais iniciáticos são agora como eram no seu tempo.

Inspirando fundo, lembrando-se da irmã Rosa há 26 anos atrás, rabiscou o papel e foi tomar café. Os novos membros certamente não esquecerão o banco...


| Retrato [quase] Falhado | Porto | Junho de 2006 |

sexta-feira, junho 09, 2006

Plataformas petrolíferas ao pôr do sol.

Já a mais de três horas e meia de caminho a partir de cidade, quando encontrou por acaso um vizinho velhote sentado ao fim da tarde à volta de uma fogueira mortiça, sentou-se. Com os olhos perdidos nas crianças que apareciam e desapareciam no meio do arvoredo, deu consigo a pensar nas velhas histórias do Enki Bilal que o seu pai lhe tinha dado a ler pela primeira vez em 2024, quando, com 18 anos, se meteu pela primeira vez a caminho de Timor.

Afinal o apocalipse aparece de mansinho. Primeiro todos vêem pequenas notícias na televisão que não se percebem muito bem. Depois surgem notícias e notícias menos vistosas que a maioria vai considerando alarmistas. Finalmente a colónia muda pela terceira vez de mãos.

Tira o passaporte do bolso de trás das calças e vai desfolhando-o como se estivesse de novo em casa com as BDs do seu pai na mão. Primeiro as do Jodorowsky, depois as do Bilal e finalmente as do Júlio Pinto. Com essa ideia na cabeça sorriu para o vizinho velhote, guardou o passaporte e foi fotografar as crianças.


| Não respire. Pode respirar. | Porto | Outubro de 2005 |