segunda-feira, agosto 21, 2006

O homem que se baniu a si próprio.

Primeiro começou como uma coisa virtual. No tempo em que os sites de fotografia rareavam, o gajo foi banido do único que existia. Não por nada de especial, apenas por não praticar o lambebotismo do meio. Depois foi banido de meia dúzia de outros sites de fotografia. Depois começou a ser banido de sites tailandeses, onde se discutia a qualidade dos bordeis de Bangcoque. Por nada de especial, apenas por inserir versos de Álvaro de Campos em língua original, no meio de acesas discussões sobre massagens, cocktails tropicais e aquários de prostitutas.
A diversão é quase infinita. Por todo o lado havia sítios para ser banido. Sites de BTT onde inseria comentários insinuantes sobre selins e práticas sexuais, clubes de botânica onde comentava chás medicinais como se de bandas rock inglesas se tratasse, fóruns de discussão sobre novas tecnologias onde, em mensagens privadas, se fazia passar por uma ninfomaníaca de 28 anos natural de Fernão Ferro. De todos eles foi banido.
Um dia acordou particularmente bem disposto. Apagou o seu blogue, enquanto ria às gargalhadas. A internet é uma fonte de diversão inesgotável.


| as catraias L&L | foto quase falhada | mindelo | junho 2006 |

quinta-feira, agosto 17, 2006

recebe-se; envia-se.

«Estou num hotel de província nos confins da Inglaterra rural. Ao jantar, peço uma salada de entrada. Ao olhar para o prato agora pousado vejo pepino, pimento, tomate e alface. Do meio da salada, em cada recanto, vejo espreitar-me um magrebino que arranhou os costados ao sol de Almeria.»

«Estou sentado na telepizza de Aveiro. São onze e meia da noite. Peço pizza (óbvio), olho para a sala vazia, a televisão aos berros e os olhares mortiços por trás do balcão. Triste fado o de uma juventude que aspira a ser figurante na Floribella mas limita-se a trabalhar até à meia-noite em part-times que não dão sequer 300€.»

Como nas histórias infantis, antes do final, há sempre uma moral da história. A moral da história é que as saladas de Almeria são mais saudáveis que as pizzas de Aveiro. Estava para escrever qualquer coisa sobre quadros superiores, horas extraordinárias e viaturas de uso pessoal, mas parece-me que não é nem o dia nem o local adequado.


| cão de fila e outro nem tanto | foto quase falhada | S. Miguel | Açores | Junho de 2006 |

quinta-feira, agosto 10, 2006

Um jetlag intercontinental

Saí de casa quarta-feira às oito da manhã para ir trabalhar, como é comum em todas as quarta-feiras. Não imaginava que o meu dia de trabalho acabaria apenas no dia seguinte, já depois da uma e meia da tarde.

Trabalhar toda a noite de surpresa, faz com que se vão respondendo aos telefonemas de formas muito variadas.
-Por volta das sete da tarde imaginamos estar em casa às onze apenas para comer uma sopa antes de ir dormir.
-Às dez e meia da noite respondemos que só vamos jantar qualquer coisa ali perto àquela hora.
-Antes da uma da manhã já contamos chegar a casa apenas às seis ou sete para o pequeno-almoço.
-Às dez e meia da manhã já só se atende o telefone se fôr da administração. Ainda assim recordo-me vagamente de ter recebido um oportuno sms a perguntar-me se estaria muito atarefado.

Trabalhar toda a noite de surpresa encerra outras surpresas. A surpresa de ver o dia nascer enquanto se passa de uma sala técnica para outra. A surpresa de descobrir às nove e meia da manhã que a cada endereço MAC corresponde um ser humano [não digam a ninguém, mas esta manhã cheguei a falar com vários endereços MAC]. E a surpresa de descobrir o jetlag numa viagem de apenas uma hora.

De regresso à cidade, as pessoas comem lombo assado, arroz de polvo, bacalhau cozido ou feijoada à transmontana quando o corpo pede apenas um iogurte e uma bolacha maria. Na estrada as pessoas comportam-se como se estivessem a começar um dia quando o corpo pede para cair num sítio qualquer e dormir uma meia dúzia de horas. À noite, sentado numa cadeira de plástico ao relento, pensamos em telefonar a meia dúzia de pessoas. Todas dormem. O corpo não engana. As viagens intercontinentais são coisas profissionalmente lamentáveis.


| baptizado | foto quase falhada | Portugal | Junho 2006 |

terça-feira, agosto 08, 2006

PDI

No capot de um automóvel coberto de cinzas, tenho vontade de escrever, com uma letra muito bem desenhada: «Souvenir da Serra dos Castiçais» Assim, sem ponto final nem nada.
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No exército de Israel não é preciso fazer objecção de consciência. Basta declarar uma religião diferente da Judaica.
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No vidro do metro, colado de forma negligé, vejo um post-it que diz: «Quando te sentires só, liga-me. 968072218.». Parecia-me letra de homem.
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Num pinhal qualquer pode fazer-se um festival de verão. É uma boa desculpa para os adolescentes poderem dormir uns com os outros. Para isso têm que pagar um bilhete.
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Eu ainda sou do tempo em que tudo isto pareciam coisas particularmente estranhas.
:)


| sofá vermelho | foto quase falhada | praia do pópulo | açores | Junho 2006 |

terça-feira, agosto 01, 2006

A primeira noite depois do casamento.

Dia quinze de Agosto, depois de abandonar a festa do seu próprio casamento, depois de dançar todas as músicas idiotas que havia para dançar, depois de beijar todas as tias velhas que havia para beijar, depois de abraçar todos os balofos alcoolizados que havia para abraçar, atirou o fato para o canto do quarto, olhou para a mulher suada que roncava em cima da cama. Não tinha sono, mas sobretudo não tinha tesão para o que quer que fosse.

Vestiu de novo as calças do fato, roubou uma mola da roupa no estendal da vizinha e sem camisa percorreu numa bicicleta apaneleirada as ruas desertas da aldeia.

Vinte minutos depois o selim já tinha feito estragos para três dias...


| Jardim de Serralves | Porto | Junho de 2006 |

quarta-feira, julho 26, 2006

Do outro lado do espelho, a guerra.

«(...) há o caso do Mensageiro do Rei. Está neste momento na prisão, a cumprir a pena; mas o julgamento não começa senão na próxima quarta-feira. E é claro que o crime só vem no fim de tudo.
-E se ele nunca chegar a cometer o crime? - perguntou Alice.
-Tanto melhor, não é? - disse a Rainha, enquanto prendia adesivo à volta do dedo com uma fita.
Alice achou que não podia de maneira nenhuma negar isso.
-Claro que seria muito melhor - disse ela -, mas o que não seria melhor era ele ser castigado.
-Seja como for, estás enganada nesse ponto - disse a Rainha. - Já alguma vez foste castigada?
-Só quando fiz maldades - disse Alice.
-Pois tanto melhor para ti, estou certa disso - afirmou a Rainha, triunfante.
-Está bem, mas é que eu fiz mesmo as maldades por que fui castigada - disse Alice -, e aí é que está a diferença toda.
-Mas se não as tivesses feito, teria sido ainda melhor; muito melhor, muito melhor, muito melhor!
A voz dela ia subindo mais alta cada vez que dizia "melhor", até se tornar por fim num verdadeiro guincho.
Alice ia explicar: "Há qualquer coisa que não está certa..." quando a Rainha começou a gritar tão alto que teve de interromper o que estava a dizer.»


Alice do outro lado do espelho, Lewis Carroll. Tradução de Vera Azancot; Publicações Europa-América.


Ser rainha implica várias coisas. Entre elas definir regras sobre:
a)quem deve ser castigado e com que pretexto.
b)quem tem razão em qualquer discussão e quem não a tem.
c)de que maneira os vassalos devem gramar calmamente a gritaria do poder.


| Rabo de Peixe | Açores | Junho de 2006 |

terça-feira, julho 25, 2006

E milícias populares armadas de auto-tanques de combate ao lume...?

Um fogo precisa necessariamente de um comburente e de um combustível. O comburente é normalmente o elemento mais complicado de explicar para alguém que esteja a dar os primeiros passos em química. Metaforicamente um comburente pode ser explicado pela descrição de uma sequência de telefonemas realizados ao final da manhã de um dia qualquer da semana passada.

Quem viajar ao longo da A4, que liga Amarante ao Porto, pode facilmente encontrar uma série de instalações industriais, desde as famosas fábricas de móveis da Rebordosa, à Lear que se prepara para ir lucrar para outro lado, passando pelas mais variadas cadeias de hipermercados. Mas quem nos interessa nesta história é a fábrica de fogões Meireles situada ao quilómetro 22.

O quilómetro 22 não é um pormenor negligenciável, não senhor. É importante por exemplo para uma denúncia de um acto, digamos assim, de vandalismo. Imaginemos que alguém, nesse percurso de auto-estrada verifica que, em pleno mês de Julho, outro alguém (dentro das instalações dos tais fogões Meireles) se dedica a queimar resíduos em bidões metálicos, com labaredas de metro...

Como se desenrola o processo? Um cidadão preocupado liga naturalmente para o 117. O que é o 117? É a linha de emergência para incêndios florestais. Ok.

-Sim, ahh, é um terreno particular? Pois. E só estão a queimar coisas em contentores? Pronto. Olhe, a verdade é que não podemos fazer nada.
-Não podem fazer nada?
-Só actuamos em caso de incêndio. Terá que ligar para o 112.

[Desliga o telefone. Marca 112.]

-Sim, muito bem, mas terá que ligar o 117.
-Pois, percebo, mas acabo de ligar o 117 e pediram-me para contactar o 112.
-Vamos fazer uma coisa. Vou passar a chamada para a GNR da zona.

[Chamada transferida.]

-Nós podemos até tomar conta da ocorrência. Podemos mandar lá uma patrulha, mas a verdade é que quando lá chegarem o mais natural é já não encontrarem nada.

[neste momento, ainda que não se tenham apercebido passaram mais de 15 minutos, desde a passagem no famoso quilómetro 22. Os cidadãos zelosos estão já a pensar no almoço que os espera no final da viagem e começam a pensar que isso é infinitamente mais importante do que deixar o país arder de lés-a-lés.]

-Muito bem. Então o que é que se pode fazer?
-Ligue a linha SOS Ambiente. É o mais indicado para lidar com estes problemas.

[a chamada é desligada e a partir daqui o cidadão começa, ainda que pouco, a pagar do seu bolso o bem do seu país. O país merece uma chamada para um número azul.]

-[sinal de chamar] [silêncio] [sinal de chamar] [silêncio] (...)
Ninguém atende. Talvez seja melhor voltar a ligar.
-[sinal de chamar] [silêncio] [sinal de chamar] [silêncio] (...)
Pois é. Ninguém atende.

O comburente é uma metáfora rebuscada sobre a lassidão.
O combustível é bem mais fácil de explicar. É aquilo que faz com que desde o servente, ao director de uma fábrica, todos achem normal queimar resíduos a céu aberto. O burgesso é o combustível, o país é o comburente. Para todos eles deveria haver uma linha SOS.


| Estação de S. Bento | Porto | 2003 |

sábado, julho 15, 2006

Sabes por isso que não as mostro a qualquer um.

O pior das fotos das férias não é sequer aquela sensação que deixam de uma saudade putinha que morde devagarinho naquele sítio das costas onde não se consegue chegar nem com uma mão nem com outra. O pior é pensar que grande parte delas só serve mesmo para nós. No dia em que nos formos, as fotos desaparecerão como as mensagens da missão impossível que se auto-destroem ao fim de dez segundos.


| Gruta das Torres | Ilha do Pico | Açores | Junho de 2006 |