segunda-feira, setembro 04, 2006

Princípios Simples XVII

As hierarquias são uma mera convenção.

| Ploeisti | Roménia | 2005 |

sexta-feira, setembro 01, 2006

2001

No que diz respeito à cidade do Porto, Kubrick falhou descaradamente a sua proto-profecia sobre 2001. A culpa não se deve sequer a ele mas ao super-computador Hal-9000 que as direcções do PS e do PSD partilham entre si de cada vez que ocupam a câmara da cidade do Porto.

Depois da rodagem do filme, o bicho foi considerado ultrapassado sobretudo para as necessidades ficcionais de Hollywood. Foi guardado num armazém qualquer de LA até ao final dos anos 70 e, como acontece sempre nestas coisas, lá foi despachado a preços de saldo para o terceiro-mundo. A história deve ser muito obscura e quase de certeza que envolve o acordo de utilização da base das Lajes. Agora que o Independente fechou, terminaram as nossas hipóteses de ver a verdade revelada sobre a forma como o computador chegou até à cidade do Porto.

Mas os sintomas são óbvios. Num país macrocéfalo, onde qualquer aprendiz de pedreiro que queira chegar a capataz tem que necessariamente migrar para Lisboa, também os Srs. do PSD e do PS - tanta ambição que têm de chegarem a capatazes - se vêem forçados a correr para a capital.

No seu lugar, para ir dando conta de uns recados, deixaram o Hal-9000 que vai saltando da Rua Guerra Junqueiro para a Rua Stª Isabel de cada vez que os dois partidos alternam na presidência da Câmara. Para quem viu o clássico do Kubrick já adivinha a continuação da história. O Hal9000 é um ser caprichoso, dotado de muita esperteza e incapaz de assumir quando se engana.

O Hal é só um computador. Os computadores tradicionais interagem através de periféricos como o teclado, o rato, o monitor... O Hal interage através de interfaces como Fernando Gomes, Nuno Cardoso, Orlando Gaspar, Rui Rio, Valentim Loureiro. Os computadores como Hal, devido à idade do seu sistema operativo, estão mais sujeitos a vírus por isso é natural que se consigam vislumbrar sintomas do Hal até em periféricos como Álvaro Castelo Branco, Rui Sá ou João Teixeira Lopes.

A verdade é que chegados a 2006 o Hal consegue ainda enganar toda a gente. Apesar da forma como foram desqualificados os espaços públicos da Cordoaria à Batalha (passando pois claro pelos Aliados), pelos abusos generalizados do Metro do Porto, pelo encerramento do Rivoli, pelo tratamento abaixo de cão a que é reduzida habitualmente a inteligência dos habitantes da cidade, ainda há quem pense que a culpa de tudo isto é dos políticos.

Parece que já ouço na sombra o José Mário Branco a rosnar cínicamente «a culpa é dos políticos» mas não, não é disso que se trata... Um taxista (aqui, quando se fala do "povo", convém referir um personagem que todos possam identificar facilmente - é uma questão de estilo, note-se) dizia-me há dias:
-A culpa disto é dos políticos!
-Não é não - respondi naturalmente.
-Não é? - aqui a indignação do tom de voz começou a subir como se se estivesse a discutir a própria honra do sr. Jorge Nuno Pinto da Costa (coisa imaculada, como se sabe).
-Não, não é. - sorri (sorrio sempre)
-Intão de quénhéquié?
Hesitei muito em falar-lhe do Hal9000 por isso respondi evasivamente:
-A culpa é de quem neles vota.


| Casa da Música | Porto | Junho de 2006 |

segunda-feira, agosto 28, 2006

Princípios Simples XVI

O importante não é o que se fotografa mas aquilo que (e porque) se escolhe mostrar.


| duas mulheres e um homem | sibiu | roménia | maio de 2005 |

sábado, agosto 26, 2006

Rolos fotográficos, raios-x e aeroportos.

Das coisas mais irritantes para quem quer que faça uma viagem de avião hoje em dia são os controlos de segurança elevados ao nível da paranóia colectiva. Para a minoria marginal que gosta de fotografar com filmes estes procedimentos são desagradáveis ao ponto de poderem estragar uma viagem.

Claro que se encontrar algum segurança educado e não particularmente zeloso das normas burocráticas - como já encontrei em Pedras Rubras ou Schiphol - até pode ser que observem os rolos fotográficos um a um. Se se apanhar um segurança como o que comigo se cruzou no aeroporto Leonardo da Vinci passam-se as máquinas de raio-x com a sensação que eles são recrutados nas tascas mais obtusas de Roma.

Não há grandes dúvidas que um rolo fotográfico sacudido duas ou três vezes não deixa dúvidas sobre o seu conteúdo. Se dúvidas houvesse, seria fácil arranjar formas simples de não os expôr aos raios-x - p. ex. sabendo o peso exacto de um rolo de 24 ou 36 exposições. Nos dias que correm não tenho grandes dúvidas que nos farão passar os rolos fotográficos em cada vez mais máquinas de raio-x. Museus, edifícios públicos e até os comboios estão cada vez mais sujeitos a este tipo de controlo.

[Lembro-me a este propósito da história do P. que se meteu a caminho da Grã-Bretanha de comboio para não passar os rolos nos raio-x e apanha com ele no Eurotunnel onde é obrigado a fazer uma cena "daquelas"...]

Evidentemente vos repetirão à exaustão que as máquinas são seguras... Se puxarem conversa com alguém que perceba um pouco mais do assunto, explicarão então que são seguras para os rolos típicos de 100asa... Os problemas surgem só a 3200 asa.

É aqui que o dono dos rolos se arrepia todo.

Vejamos então. Imagino uma viagem simples em que se transporta um rolo de 400 asa que será "puxado" a 1600 asa - algo bastante comum para quem fotografa com filme. Basta que o filme seja passado por duas máquinas de raio-x para que tenha o mesmo nível de "contaminação" que um filme de 3200 asa passado por uma só máquina. Um filme de 800 asa só precisa de passar por 4 máquinas de raio-x para que lhe aconteça o mesmo - o que acontece facilmente numa viagem de ida e volta com escala num grande aeroporto.

Se por acaso sobram rolos de uma viagem, o melhor é mesmo marcar aqueles que já passaram no controlo anti-terrorista (coisa que nunca faço) para que depois não fiquem com as imagens nubladas.

A melhor supresa está guardada para o fim. Pensar que despachar os rolos na bagagem de porão (como é agora obrigatório nos voos entre Londres e os EUA) resolve o problema é um terrível engano. Essa bagagem é também passada por máquinas de raio-x muito mais potentes que as da bagagem de mão e capaz de velar de uma só vez um rolo de 100 asa. Simpático. Quase tão simpático como os anormais que fazem segurança no aeroporto de Fiumicino.


| em preparativos para a semana santa | blaj | roménia | maio 2005 |

terça-feira, agosto 22, 2006

Limpeza higiénica da agenda de contactos.

Não sei se apago o teu número telefone da minha agenda pelas tuas convicções ou pela falta delas.

| cdm | foto quase falhada | porto | junho de 2006 |

segunda-feira, agosto 21, 2006

O homem que se baniu a si próprio.

Primeiro começou como uma coisa virtual. No tempo em que os sites de fotografia rareavam, o gajo foi banido do único que existia. Não por nada de especial, apenas por não praticar o lambebotismo do meio. Depois foi banido de meia dúzia de outros sites de fotografia. Depois começou a ser banido de sites tailandeses, onde se discutia a qualidade dos bordeis de Bangcoque. Por nada de especial, apenas por inserir versos de Álvaro de Campos em língua original, no meio de acesas discussões sobre massagens, cocktails tropicais e aquários de prostitutas.
A diversão é quase infinita. Por todo o lado havia sítios para ser banido. Sites de BTT onde inseria comentários insinuantes sobre selins e práticas sexuais, clubes de botânica onde comentava chás medicinais como se de bandas rock inglesas se tratasse, fóruns de discussão sobre novas tecnologias onde, em mensagens privadas, se fazia passar por uma ninfomaníaca de 28 anos natural de Fernão Ferro. De todos eles foi banido.
Um dia acordou particularmente bem disposto. Apagou o seu blogue, enquanto ria às gargalhadas. A internet é uma fonte de diversão inesgotável.


| as catraias L&L | foto quase falhada | mindelo | junho 2006 |

quinta-feira, agosto 17, 2006

recebe-se; envia-se.

«Estou num hotel de província nos confins da Inglaterra rural. Ao jantar, peço uma salada de entrada. Ao olhar para o prato agora pousado vejo pepino, pimento, tomate e alface. Do meio da salada, em cada recanto, vejo espreitar-me um magrebino que arranhou os costados ao sol de Almeria.»

«Estou sentado na telepizza de Aveiro. São onze e meia da noite. Peço pizza (óbvio), olho para a sala vazia, a televisão aos berros e os olhares mortiços por trás do balcão. Triste fado o de uma juventude que aspira a ser figurante na Floribella mas limita-se a trabalhar até à meia-noite em part-times que não dão sequer 300€.»

Como nas histórias infantis, antes do final, há sempre uma moral da história. A moral da história é que as saladas de Almeria são mais saudáveis que as pizzas de Aveiro. Estava para escrever qualquer coisa sobre quadros superiores, horas extraordinárias e viaturas de uso pessoal, mas parece-me que não é nem o dia nem o local adequado.


| cão de fila e outro nem tanto | foto quase falhada | S. Miguel | Açores | Junho de 2006 |

segunda-feira, agosto 14, 2006

quinta-feira, agosto 10, 2006

Um jetlag intercontinental

Saí de casa quarta-feira às oito da manhã para ir trabalhar, como é comum em todas as quarta-feiras. Não imaginava que o meu dia de trabalho acabaria apenas no dia seguinte, já depois da uma e meia da tarde.

Trabalhar toda a noite de surpresa, faz com que se vão respondendo aos telefonemas de formas muito variadas.
-Por volta das sete da tarde imaginamos estar em casa às onze apenas para comer uma sopa antes de ir dormir.
-Às dez e meia da noite respondemos que só vamos jantar qualquer coisa ali perto àquela hora.
-Antes da uma da manhã já contamos chegar a casa apenas às seis ou sete para o pequeno-almoço.
-Às dez e meia da manhã já só se atende o telefone se fôr da administração. Ainda assim recordo-me vagamente de ter recebido um oportuno sms a perguntar-me se estaria muito atarefado.

Trabalhar toda a noite de surpresa encerra outras surpresas. A surpresa de ver o dia nascer enquanto se passa de uma sala técnica para outra. A surpresa de descobrir às nove e meia da manhã que a cada endereço MAC corresponde um ser humano [não digam a ninguém, mas esta manhã cheguei a falar com vários endereços MAC]. E a surpresa de descobrir o jetlag numa viagem de apenas uma hora.

De regresso à cidade, as pessoas comem lombo assado, arroz de polvo, bacalhau cozido ou feijoada à transmontana quando o corpo pede apenas um iogurte e uma bolacha maria. Na estrada as pessoas comportam-se como se estivessem a começar um dia quando o corpo pede para cair num sítio qualquer e dormir uma meia dúzia de horas. À noite, sentado numa cadeira de plástico ao relento, pensamos em telefonar a meia dúzia de pessoas. Todas dormem. O corpo não engana. As viagens intercontinentais são coisas profissionalmente lamentáveis.


| baptizado | foto quase falhada | Portugal | Junho 2006 |

terça-feira, agosto 08, 2006

PDI

No capot de um automóvel coberto de cinzas, tenho vontade de escrever, com uma letra muito bem desenhada: «Souvenir da Serra dos Castiçais» Assim, sem ponto final nem nada.
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No exército de Israel não é preciso fazer objecção de consciência. Basta declarar uma religião diferente da Judaica.
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No vidro do metro, colado de forma negligé, vejo um post-it que diz: «Quando te sentires só, liga-me. 968072218.». Parecia-me letra de homem.
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Num pinhal qualquer pode fazer-se um festival de verão. É uma boa desculpa para os adolescentes poderem dormir uns com os outros. Para isso têm que pagar um bilhete.
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Eu ainda sou do tempo em que tudo isto pareciam coisas particularmente estranhas.
:)


| sofá vermelho | foto quase falhada | praia do pópulo | açores | Junho 2006 |