quarta-feira, agosto 08, 2007

Dia 0.1

Aterrei de noite no aeroporto de Sófia. Onze e tal da noite. O estômago enganado pela comida rasca que é distribuída no avião. Desejava duas coisas: conversar com o doido do S. um bom bocado e comer qualquer coisa digna do nome de refeição.

Entretanto pensava nas minhas outras viagens para leste. Pensei várias vezes nos subúrbios de Praga e nos seus eléctricos, nos edifícios das grandes avenidas de Bucareste, nas planícies da Hungria, na costa Croata... às vezes é melhor viajar sem quaisquer referências e deixar que a surpresa tome conta de nós.

Primeira surpresa: a Bulgária não faz parte do espaço Schengen. Oito cabines com polícia de fronteira a aviarem um avião inteiro. Mais uma fila. Como sempre, a minha fotografia barbuda do passaporte, faz com que olhem para mim meia dúzia de vezes antes de me agradecerem qualquer coisa que eu não sei bem o que é. Thank you para ti também e não me chateies mais - pensei.

Ainda tenho tempo de ver que os tapetes de bagagem são fabricados pela Efacec. Até que finalmente saio porta fora. Ahhhhhh!!!!

Um calor tremendo. Onze da noite e a temperatura a rondar os 30ºC. Um aperto forte nos ossos do S. que se ri de mim por viajar de calças e casaco.

Alugar o carro e ala para o centro de Sófia. Vamos comer e conversar. O S. não mudou nada. Ainda bem. Só por isso a viagem já teria valido a pena.

Fico com a sensação agradável que as placas em cirílico não são o chinês que imaginei que pudessem ser. Consigo soletrar as palavras. O mesmo não pode dizer o polícia que me faz parar numa operação stop no regresso ao hotel às duas da matina. Olha para o meu bilhete de identidade e percebo que não faz puto ideia daquilo que está a ver. Chama os outros dois bófias. Ao fim de alguns olhares em silêncio, mandam-nos seguir. Concluiram que não represento perigo para a segurança do estado. Esqueceram-se de ver as toneladas de explosivos de fabrico doméstico dentro dos rolos fotográficos.


| S. | restaurante 24h | sófia | bulgária | junho 2007 |

Dia 0.0

Durante muito tempo, para mim viajar sempre foi coisa de me deixar nervoso. Isto não implicava nada de especial: uma noite mais mal dormida, um pequeno almoço tomado ainda antes do nascer do sol... Não vejo grandes razões para isso. Mas lembro-me dos tempos em que viajava com os meus pais e em que me fui habituando a pensar que qualquer esquecimento na preparação de uma viagem era de uma grande gravidade. Longe de casa estaríamos sempre perdidos como se viajássemos para os himalaias.

As vésperas de viagens de automóvel já não me deixam qualquer nervosismo, mas quando há um avião pelo caminho, é verdade que fico com uma impressão na barriga. Não tenho qualquer fobia de aviões, nem medo. A verdade, é que depois do check-in feito, sentado num desconfortável banco de aeroporto, fico imediatamente tranquilo.

Mas pior que os aviões em si, são as horas de espera por uma ligação, num sítio de onde não se pode sair e onde tudo o que se pode fazer é gastar dinheiro. Não consigo concentrar-me o suficiente para ler, não consigo inspiração para fotografar seja o que for e começo a pensar nos filhos da puta dos terroristas sauditas e nos filhos da puta dos militares americanos e nas filhas da puta das bombas de ambos, que me obrigam a tirar o cinto, a descalçar e a mostrar como sou efectivamente um rapaz inofensivo e que os meus rolos fotográficos não transportam duas toneladas de explosivos de fabrico caseiro.

Acho que podia explicar que só quero mesmo ir visitar um amigo com quem possa insulta-los a todos, em frente a um bom prato de comida. O meu alemão anda pelas ruas da amargura - penso de mim para mim, para me desculpar.


| cabines | aeroporto de frankfurt | junho de 2007 |

quarta-feira, julho 18, 2007

A alternativa sustentável.

Em termos de entretenimento, estes gajos do PSD, com as suas crises sazonais, são uma excelente alternativa* à chamada "época de incêndios".

*Conquanto não sejam governo.

dois homens e uma carrinha

| carrinha de transportar os bois | Gondar | Amarante | Junho de 2007 |

terça-feira, julho 17, 2007

Os lacticínios dos Açores.

Este ano fiquei boquiaberto ao ver o estado em que estava a lagoa das furnas. Verde, cheia de algas, com um aspecto quase pantanoso.

Nas sete cidades, as lagoas estavam ainda piores que o ano passado. A lagoa verde está amarela e a lagoa azul está quase tão verde como a lagoa das furnas. Nem sequer as consegui fotografar.

Para os turistas que as viam pela primeira vez, percebi que sentiam que estavam perante um cenário paradisíaco. Mas basta passar os olhos pela lagoa do fogo (a única protegida da exploração pecuária) para ver a diferença e perceber o que está a acontecer.

Os postais antigos onde as diferenças de cor eram visíveis, parecem apenas manipulações das imagens.

A causa de semelhante catástrofe está na exploração intensiva das pastagens da ilha e no excesso de nutrientes (estrume e adubos, na verdade) que são arrastados. Se nada for feito, nunca mais as lagoas serão o que eram.

Já não falo sequer no fim da laurissilva endémica que resiste ainda nalgumas zonas entre a tronqueira e o pico da vara.

Cá em casa, o boicote aos lacticínios dos Açores começa hoje. Meus amigos de Vila do Conde, gramem vocês com as vacas. Lamento.

lagoa das furnas

| lagoa das furnas | s. miguel | açores | julho de 2007 |

sábado, julho 14, 2007

Dois agradecimentos.

Ao movimento operário europeu por garantir um mês de férias pagas.

Às bestas que nas diferentes instituições permitem que se construa em cima das praias.

Sandálias em frente à praia formosa
| Praia Formosa | Santa Maria | Açores | Julho de 2007 |

sábado, junho 30, 2007

Em trânsito.

O mais curioso nas viagens de avião é ver como os executivos de topo têm uma natural facilidade em se transformarem em vulgares bagageiros.

avião no aeroporto de Sófia
| Летище София | Sófia | Junho de 2007 |

sexta-feira, junho 22, 2007

A vida não tem uma interrupções. Sou uma moderna sala de cinema, sem intervalos de mim próprio.

chega de bois
| chega de bois | gondar | Amarante | Junho de 2007 |

segunda-feira, junho 18, 2007

A rapariga que falava todas as línguas.

Não era já motivo de surpresa. Conheceu búlgaros, polacos, ingleses, galegos da galiza, espanhois de outros sítios, portugueses dos açores, de lisboa e de outros sítios igualmente improváveis. Não a assustavam os encontros furtuitos na rua com chineses, indianos, paquistaneses, vietnamitas, congoleses, senegaleses, marroquinos, argentinos bebendo mate e índígenas equatorianos.

Com todos eles se entendia, como se ao mergulhar pela primeira vez nas águas limpas da caloura, um peixe babel se tivesse instalado no interior do seu canal auditivo.

Era muito mais simples que isso. Mas o mistério permaneceria por desvendar anos a fio.

o povo e o touro
| os guarda-sois, os cornos do touro, a sua língua e a fraga inerte | gondar | amarante | Junho 2007 |

domingo, junho 17, 2007

A televisão de alta definição

Quase sem rebuliço, foi lançado esta semana o primeiro serviço de televisão de alta definição em Portugal.

Durante muito tempo este serviço vai ser apresentado como um serviço de telefone, internet e televisão. Essa é a única maneira das pesssoas perceberem do que se trata e portanto é a única forma de o vender. Mas tecnologicamente não é nada disso. Ou melhor, é muito mais que isso.

A televisão foi a mais importante forma de comunicação. Quando o telejornal mudava de horário, a hora da refeição tinha que ser obrigatoriamente alterada lá em casa. Assim seria provavelmente em todas as casas.

Hoje, as televisões são pouco mais que supérfluas. Fazem algum sentido em conjunto, mas sem qualquer significado quando vistas isoladamente. Só assim poder-se-ia vender televisão por cabo. O que se vende é o zapping e a sua sensação de liberdade, mas o que se compra é uma enjoativa repetição de programas temáticos e a sua sensação de déjà vu.

Aliás, é um dos rudimentos da teoria da informação: quanto mais frequente é uma determinada "palavra", menos informação transporta.

A televisão está neste momento tecnologicamente ultrapassada. Não será mais do que uma curiosidade do século XX. Desde a semana passada que podemos ver canais de alta definição em casa, escolher os programas que queremos ver e à hora que o quisermos fazer, construir uma grelha de canais ao gosto de cada um, ter acesso a bibliotecas de filmes acessíveis a qualquer hora e a qualquer momento.

E evidentemente que tudo isto será ainda melhor quando o acesso for feito não por pares de cobre, mas directamente em fibra óptica (FITL - fiber in the loop). Vamos rapidamente deixar de falar em "Megas" para começar a falar na hierarquia SDH - todos com STM-1 em casa... Que maravilha. :)

O electrodoméstico "televisão" será apenas mais um dos terminais ligados a redes de dados - as mesmas de que é feita a internet. E são essas redes que mudarão a forma daquilo que são as nossas vidas. Ou melhor ainda, nós é que as mudaremos.

 quatro homens de cajado
| o mistério do cajado anão | amarante | junho de 2007 |