terça-feira, agosto 14, 2007

Dia 1.1

Eu sabia que ele não fotografava há anos. Desde que a mãe tinha morrido, não parecia haver ninguém capaz de olhar para aquilo que os olhos dele viam pelo mundo fora. Nem sequer ele próprio.

Eu trouxe-lhe uma máquina fotográfica nova - digital. O dia não é o melhor. O sol está demasiado forte. Ainda assim deve até haver quem goste. Vejo-o a apontar a máquina. É como se o mundo fosse um corpo de um cão caído ao lado da estrada, de quem ele se aproxima, e a quem dá, a medo, pequenos toques com o pé. Primeiro uma estátua, depois um monumento, finalmente vejo-o a fotografar de longe alguém.

Ele diz que não gosta de incomodar. Eu digo-lhe que não pode fotografar pessoas sem que elas saibam que estão a ser fotografadas. Pondero pegar na grande angular e fotografar quem ele fotografou. Olho duas ou três vezes... não me inspira.

Passeamos pelo jardim até ao monumento aos partisans. Todo vandalizado. Alguém desarmou os soldados de metal. Ninguém tolera por aqui qualquer vestígio do poder estalinista. Bem vistas as coisas, fazem bem.



| monte dos irmãos | sófia | bulgária |junho 2007

segunda-feira, agosto 13, 2007

Dia 1.0

Ao acordar olho para cima da montanha: Vitosha. É uma imagem a que não estou habituado. Posso jurar que aquilo não estava ali ontem à noite. Que paisagem tutelar...

Vamos embora: banho e pequeno almoço.

Misturo as primeiras impressões da cidade com as impressões do clube diplomático que me alberga. Tenho o prato do pequeno almoço cheio de coisas sem nexo. Demasiado queijo, demasiado fiambre, imenso tomate. Servem-me quase por favor uma chávena de leite. O pão é duro e está queimado, supostamente torrado... Estou albergado num sítio para novos ricos.

Enfrento sozinho o trânsito de entrada na cidade. Admiro o belíssimo parque automóvel e a omnipresente montanha de Vitosha. Agora sim, começam as férias.

Visito um dos pólos da universidade. As salas são minúsculas, pouco maiores do que arrecadações. O mobiliário é velho; o edifício também. As salas são minúsculas - estou a repetir-me, mas não concebo uma aula num sítio semelhante.

A primeira água do dia é tomada no meio do bairro ali perto. Sinto que quase podia estar no bairro do Outeiro. Não, não... estou demasiado longe de casa. Ao meu lado passa a primeira carroça com ciganos. Design romeno. As coisas idiotas que se pensam e se escrevem...


| унгарска филология | ungarska filologuia | sófia | junho 2007 |

quinta-feira, agosto 09, 2007

Dia 0.2

Olho para o relógio. É tarde. Então meu, bazamos? Saímos do restaurante. De novo o calor cá fora. Esta noite vou dormir só, num hotel que não sei onde é, numa cidade que não conheço.

Primeiro: passar em casa do S. Fazer o percurso de casa dele até ao hotel que fica nos arredores da cidade.
Depois: voltar a casa para o trazer.
Finalmente: regressar ao hotel sozinho.

Talvez por desvio profissional, sinto bastante confiança a orientar-me em sítios desconhecidos.

Encontrámos os senhores polícias. Eles não falam português. Eu nem boa noite sei dizer em búlgaro. Mentira. Se bem me recordo é Лека нощ. Adiante.

As avenidas, os prédios, as velhas linhas de eléctrico, as placas rodoviárias que indicam Atenas ou Belgrado, os prédios sinistros do tempo da outra senhora... o cheirinho do socialismo irreal. Estou demasiado cansado.

No hotel decorre ainda um casamento. O quarto é grande. Na verdade é um apartamento. Tem cozinha e tudo. A cama é péssima, o quarto de banho não tem luz, os lençois são mais pequenos que o colchão, está tudo demasiado quente. Só quero dormir.

Volto a casa do S. O percurso faz-se em menos de 15 min.

Olho para o relógio: são três e dez. Amanhã devo levantar-me a tempo do pequeno almoço. Faço meia dúzia de fotografias idiotas sem saber porquê e atravesso-me em cuecas no meio da cama. Лека нощ.


| três e oito | quarto de hotel | sófia | junho 2007 |

quarta-feira, agosto 08, 2007

Dia 0.1

Aterrei de noite no aeroporto de Sófia. Onze e tal da noite. O estômago enganado pela comida rasca que é distribuída no avião. Desejava duas coisas: conversar com o doido do S. um bom bocado e comer qualquer coisa digna do nome de refeição.

Entretanto pensava nas minhas outras viagens para leste. Pensei várias vezes nos subúrbios de Praga e nos seus eléctricos, nos edifícios das grandes avenidas de Bucareste, nas planícies da Hungria, na costa Croata... às vezes é melhor viajar sem quaisquer referências e deixar que a surpresa tome conta de nós.

Primeira surpresa: a Bulgária não faz parte do espaço Schengen. Oito cabines com polícia de fronteira a aviarem um avião inteiro. Mais uma fila. Como sempre, a minha fotografia barbuda do passaporte, faz com que olhem para mim meia dúzia de vezes antes de me agradecerem qualquer coisa que eu não sei bem o que é. Thank you para ti também e não me chateies mais - pensei.

Ainda tenho tempo de ver que os tapetes de bagagem são fabricados pela Efacec. Até que finalmente saio porta fora. Ahhhhhh!!!!

Um calor tremendo. Onze da noite e a temperatura a rondar os 30ºC. Um aperto forte nos ossos do S. que se ri de mim por viajar de calças e casaco.

Alugar o carro e ala para o centro de Sófia. Vamos comer e conversar. O S. não mudou nada. Ainda bem. Só por isso a viagem já teria valido a pena.

Fico com a sensação agradável que as placas em cirílico não são o chinês que imaginei que pudessem ser. Consigo soletrar as palavras. O mesmo não pode dizer o polícia que me faz parar numa operação stop no regresso ao hotel às duas da matina. Olha para o meu bilhete de identidade e percebo que não faz puto ideia daquilo que está a ver. Chama os outros dois bófias. Ao fim de alguns olhares em silêncio, mandam-nos seguir. Concluiram que não represento perigo para a segurança do estado. Esqueceram-se de ver as toneladas de explosivos de fabrico doméstico dentro dos rolos fotográficos.


| S. | restaurante 24h | sófia | bulgária | junho 2007 |

Dia 0.0

Durante muito tempo, para mim viajar sempre foi coisa de me deixar nervoso. Isto não implicava nada de especial: uma noite mais mal dormida, um pequeno almoço tomado ainda antes do nascer do sol... Não vejo grandes razões para isso. Mas lembro-me dos tempos em que viajava com os meus pais e em que me fui habituando a pensar que qualquer esquecimento na preparação de uma viagem era de uma grande gravidade. Longe de casa estaríamos sempre perdidos como se viajássemos para os himalaias.

As vésperas de viagens de automóvel já não me deixam qualquer nervosismo, mas quando há um avião pelo caminho, é verdade que fico com uma impressão na barriga. Não tenho qualquer fobia de aviões, nem medo. A verdade, é que depois do check-in feito, sentado num desconfortável banco de aeroporto, fico imediatamente tranquilo.

Mas pior que os aviões em si, são as horas de espera por uma ligação, num sítio de onde não se pode sair e onde tudo o que se pode fazer é gastar dinheiro. Não consigo concentrar-me o suficiente para ler, não consigo inspiração para fotografar seja o que for e começo a pensar nos filhos da puta dos terroristas sauditas e nos filhos da puta dos militares americanos e nas filhas da puta das bombas de ambos, que me obrigam a tirar o cinto, a descalçar e a mostrar como sou efectivamente um rapaz inofensivo e que os meus rolos fotográficos não transportam duas toneladas de explosivos de fabrico caseiro.

Acho que podia explicar que só quero mesmo ir visitar um amigo com quem possa insulta-los a todos, em frente a um bom prato de comida. O meu alemão anda pelas ruas da amargura - penso de mim para mim, para me desculpar.


| cabines | aeroporto de frankfurt | junho de 2007 |

quarta-feira, julho 18, 2007

A alternativa sustentável.

Em termos de entretenimento, estes gajos do PSD, com as suas crises sazonais, são uma excelente alternativa* à chamada "época de incêndios".

*Conquanto não sejam governo.

dois homens e uma carrinha

| carrinha de transportar os bois | Gondar | Amarante | Junho de 2007 |

terça-feira, julho 17, 2007

Os lacticínios dos Açores.

Este ano fiquei boquiaberto ao ver o estado em que estava a lagoa das furnas. Verde, cheia de algas, com um aspecto quase pantanoso.

Nas sete cidades, as lagoas estavam ainda piores que o ano passado. A lagoa verde está amarela e a lagoa azul está quase tão verde como a lagoa das furnas. Nem sequer as consegui fotografar.

Para os turistas que as viam pela primeira vez, percebi que sentiam que estavam perante um cenário paradisíaco. Mas basta passar os olhos pela lagoa do fogo (a única protegida da exploração pecuária) para ver a diferença e perceber o que está a acontecer.

Os postais antigos onde as diferenças de cor eram visíveis, parecem apenas manipulações das imagens.

A causa de semelhante catástrofe está na exploração intensiva das pastagens da ilha e no excesso de nutrientes (estrume e adubos, na verdade) que são arrastados. Se nada for feito, nunca mais as lagoas serão o que eram.

Já não falo sequer no fim da laurissilva endémica que resiste ainda nalgumas zonas entre a tronqueira e o pico da vara.

Cá em casa, o boicote aos lacticínios dos Açores começa hoje. Meus amigos de Vila do Conde, gramem vocês com as vacas. Lamento.

lagoa das furnas

| lagoa das furnas | s. miguel | açores | julho de 2007 |

sábado, julho 14, 2007

Dois agradecimentos.

Ao movimento operário europeu por garantir um mês de férias pagas.

Às bestas que nas diferentes instituições permitem que se construa em cima das praias.

Sandálias em frente à praia formosa
| Praia Formosa | Santa Maria | Açores | Julho de 2007 |

sábado, junho 30, 2007

Em trânsito.

O mais curioso nas viagens de avião é ver como os executivos de topo têm uma natural facilidade em se transformarem em vulgares bagageiros.

avião no aeroporto de Sófia
| Летище София | Sófia | Junho de 2007 |

sexta-feira, junho 22, 2007

A vida não tem uma interrupções. Sou uma moderna sala de cinema, sem intervalos de mim próprio.

chega de bois
| chega de bois | gondar | Amarante | Junho de 2007 |