segunda-feira, dezembro 17, 2007

Um dia serei despedido.

Sairemos de casa um dia muito cedo. Como se tivéssemos apenas seis dias de vida e uma lista de centenas de coisas fundamentais por fazer. Serão talvez quatro da manhã e não haverá ainda luz do dia. Ao nascer do dia já estaremos sobre a planície castelhana, o pôr do sol será sobre a planície monótona do centro de França. Pelo caminho vamos passando as placas de estrada, como quem cospe caroços de cereja.

Será a última vez que nos levantaremos tão cedo. Não serão seis dias que nos restam, mas um mês ou dois ou três de férias. Só madrugaremos nesse dia para esquecer rapidamente a vontade de fugir. Não vamos precisar de despertador durante uns tempos, mas mesmo que precisássemos, em caso de dúvida seria sempre posto a despertar mais tarde e não mais cedo. Nas bifurcações e no planeamento dos percursos, em caso de dúvida, escolheremos sempre o caminho mais longo. Sentados perante um menu de um restaurante, em caso de dúvida, escolheremos sempre a opção mais cara. Em todas as cidades o carro será estacionado num sítio qualquer e elas serão demoradamente percorridas a pé. Em caso de dúvida não tiraremos fotografias. Compramos postais. Tiramos fotografias tipo passe. Recortamos as últimas e colamo-las sobre os primeiros. Tudo já foi fotografado. Em momentos de tédio tomaremos um duche rápido para nos beijarmos longamente numa tenda ao frio ou num quarto alcatifado de um hotel.

Numa só cidade passaremos um mês inteiro.

Ao voltarmos a casa, tu com pêlos nas pernas e eu com uma barba de semanas, podia dar-se o caso de termos dois processos disciplinares sumários à nossa espera. Nesse caso só nos restaria uma saída: vender a merda do carro (que teria quilómetros a mais) e ir para o Canadá.



| :) | 2007 |

sexta-feira, dezembro 07, 2007

É mesmo verdade.

Ele há coisas que só se percebem com a idade.
Não falo evidentemente daquela consulta de urologia que marquei ontem.


| festas do espírito santo | ponta delgada | açores | julho 2007 |

quarta-feira, dezembro 05, 2007

Desalfandegar uma encomenda.

[continuação do episódio anterior]

Sequência cronológica de acontecimentos.

*Descubro o balcão da Alfândega. Vazio [penso: estou com sorte.]. Lá atrás um homem levanta-se para me atender. Explica-me que antes devo dirigir-me aos serviços do aeroporto.

*Logo em frente estão os serviços da portway. Entrego a papelada que me deram na DHL, assino uns papéis e avanço confiante para a Alfândega.

*Não trouxe o cartão de contribuinte nem sei o número. Não tenho o comprovativo de pagamento do Paypal. O homem da Alfândega não é propriamente muito risonho, mas é bastante solícito. Pergunto-lhe se outra pessoa pode levantar a mercadoria por mim.
-Sim, mas diga então quanto pagou.
-Está aí na nota de encomenda o custo da mercadoria e dos portes, veja lá.
-Muito bem, vamos lá tratar disto. Como isto vem dos EUA ainda vá, se fosse chinês nada feito.
[ufff...]
-O que é que é?
-Uma camisa, roupa de bébé...
[interrompe-me ele antes que eu diga que comprei dois pares de cuecas de mulher. É uma pena. Era a minha oportunidade de lhe sacar um sorriso.]
-Vestuário, não é? Paga 12%.

*Sou chamado a um hangar onde me aparece o caixote que me é dirigido. Fico bastante surpreendido. O caixote é enorme. Estava à espera de um envelope. Lá se abre aquilo e confirma-se que dentro da enorme embalagem estavam meia dúzia de reles peças de roupa.

*Volto para a Alfândega. Entra um guarda fiscal que fala como se estivesse com uma carraspana tremenda. Fala entre dentes e com uma voz abafada. Não percebo patavina do que diz mas percebo que trata quem me atende por Sr. Dr. :|

*Recebo de volta mais uns papeis. Devo agora dirigir-me à tesouraria. Lá vou para o piso de cima. Descubro a tesouraria. Pago 25 euros e pouco. O troco que recebo é tirado de um mealheiro de lata. A fazenda pública tem o seu charme.

*Volto para o piso inferior. Entrego a prova de pagamento, recebo mais uns papeis. Devo agora dirigir-me de novo aos serviços aeroportuários.

*Penso que finalmente me será entregue a encomenda. Puro engano. Devo agora pagar mais 22 euros porque o caixote esteve "estacionado" no armazém 5 dias. Pago. Ainda não é desta que recebo o caixote.

*Devo agora dirigir-me a outro balcão. Entrego a papelada toda, assino mais um papel de não sei quê e zás: tenho nas mãos um caixote enorme (praticamente vazio!) que me custou 100€. :)

Estou chateado? Nem por isso. O que me custa mais é ter que me meter no carro e seguir em direcção ao centro. Detesto ir trabalhar de carro.

Curiosamente, estacionar o carro três horas no centro da cidade é tão barato como deixar um reles caixote pernoitar no armazém do aeroporto de pedras rubras...


| dos balcãs guardo boas recordações de portugal | sófia | junho de 2007 |

terça-feira, dezembro 04, 2007

As compras pela internet.

Sento-me em frente ao monitor, como já não o fazia há algum tempo. Não só com algum tempo livre, mas sobretudo com disponibilidade mental para escrever qualquer coisa. Ora mas ter disponibilidade não significa que se escreva. E melhor ainda que isso. É que qualquer coisa é mesmo qualquer coisa e como facilmente se depreende deste parágrafo, é fácil dar voltas e voltas sem se dizer nada. Um pouco à José Luis Peixoto. Não diria um estilo, antes uma prática. Detesto-a. :)

Aqui há uns tempos atrás, nem sei bem de que forma, tropecei numa paródia de site nos Estados Unidos (este pormenor revelar-se-á importante para o desenrolar da acção). Click puxa click, gargalhada puxa gargalhada e vai daí em menos de nada estava a pensar que com a desvalorização do dólar, as coisas não ficavam assim muito caras. Comprei pouco menos de dez contos de palermices. E saibam que me custa dar dinheiro aos americanos. É assim uma espécie de princípio simples...

Um dia, estou eu longe de casa (longe de casa é, p.ex., em Lisboa, que não é sequer muito longe bem vistas as coisas) quando me apita o telefone. Sinto um certo frisson. Quem não sente um frisson ao receber um sms, hã?

(DHL) Envio da Thinkgeek dos EUA, carta de porte ****** retido na Alfândega. Pf contactar DHL, ######, Cumprimentos, Daniela

Decido ligar (demonstro alguma inteligência nos meus comportamentos, não é verdade?).

-Boa tarde, estou a ligar para saber o que é necessário para desalfandegar a carta de porte *****. 30€ mais os impostos devidos? Mas a encomenda não chega aos 50€...! E posso ser eu próprio a tratar disso? Muito bem... Faça o que tem a fazer que eu próprio vou à Alfândega. Qual é o horário, sabe-me dizer? Das 09:00h às 12:30h e das 14:00h às 17:00h... Muito bem, que rico horário! [rais parta. c@r@g0 lá para os serviços de alfândega (isto dentro de parênteses rectos sou eu a pensar, não foi o que eu disse à senhora que estava a ser muito educada comigo)]. Sim senhora, fico à espera do vosso contacto.

Assim se passaram três dias úteis até que ontem recebo um telefonema da DHL a dizer-me que toda a papelada estava pronta.

Aviso o chefe de que excepcionalmente chegarei atrasado. Não há crise. Tenho bom ambiente de trabalho e quando me toca a mim também facilito a vida à empresa.

Entro no carro às 08:30h. Detesto pegar no carro à semana. Só para sair do meu quarteirão demoro quase 5 minutos. Detesto conduzir à semana. Vejo o trânsito todo em sentido contrário. Detesto o trânsito matinal dos dias de semana.

Estou sentado em frente à recepção da DHL às 08:50h. Só abre às 09:15h. Juro que me disseram ao telefone que abria às 09:00h. Que interessa isso agora?

A senhora entrega-me a papelada e vou para o aeroporto. Agora começa a aventura. :)

To be continued... [como dizem os americanos]



| porto | setembro de 2007 |

domingo, outubro 21, 2007

A produtividade, ora aí está, quer dizer...

Um dia sentirei inspiração para descrever como reparar uma máquina cujo disco RAID não funciona, ao mesmo tempo que se pensa em mudar radicalmente o template do blogue, ao mesmo tempo que se aprende em simultâneo duas novas linguagens de programação, ao mesmo tempo que se descobr parte do ovo de colombo. Hoje não me apetece.




| porto | setembro de 2007 |

quinta-feira, outubro 18, 2007

Caro deus, um pouco de fé...

Encontrei-o poucas vezes ao longo da vida. Imagino que como pessoa ocupada que é, tenha mais que fazer do que prolongar a sua eterna existência com minudências como é a minha vida quotidiana. No entanto, dos poucos encontros que tivemos, saliento o facto de serem sempre sexta-feira à noite. Percebe-se bem. A sexta à noite é para ele um momento de descontracção, em que ele dá algum espaço para que o seu eterno compincha de profissão, Belzebu, possa por um momento divertir-se sozinho com a sorte dos mortais.

Ele não é muito falador. Compreende-se. A eternidade é muito tempo. Já leu todos os livros, já viu todos os filmes, já apreciou todos os poemas, já desvendou todos os mistérios policiais, já verificou todas as contas bancárias, já ouviu todas as histórias de todos os avós, já atravessou a pé países inteiros, já provou todos os pratos de todas as culturas, já navegou todos os oceanos, já chutou todas as bolas, já disparou todas as máquinas fotográficas, já ouviu todas as línguas, já amou de todas as maneiras e já matou das formas mais selvagens.

Isso explica os monólogos que todos são obrigados a ter com ele. Eu acho isso um disparate, pelo que só tenho monólogos comigo próprio.

Mas numa dessas sextas-feiras à noite, em que descubro que num ápice devo meter-me no carro para trabalhar toda a noite, percebo que o gajo me decidiu dar alguma atenção. Os problemas prolongam-se noite fora, o estômago vazio, o ar condicionado ronca infernalmente... nada do que aprendi me serve para fazer funcionar o equipamento que tenho à frente... Repito várias vezes: «não acredito».

E precisamente às 5:38h, enquanto matraqueio o teclado, no meio de telefonemas que me azucrinam o juízo, observo na consola...

Apr 1 05:38:43.072: %LINEPROTO-5-UPDOWN: Line protocol on Interface Serial0/0/0:5, changed state to down
Apr 1 05:38:44.589: %OSPF-5-ADJCHG: Process 1, Nbr 172.20.50.253 on Serial4/1 from LOADING to FULL, Loading Done
Apr 1 05:38:51.479: %SYS-5-CONFIG_I: Configured from console by joaoluc on vty0
Apr 1 05:38:54.883: %MESSAGE-FROM-HIM: Non believers always did my day.
Apr 1 05:38:56.147: %MESSAGE-FROM-HIM: :)

Num ápice o ar condicionado apaga-se, o velhinho 7500 dá o seu último "ai". Circulo pela sala à procura de um disjuntor disparado. Nada. Tudo parece normal. Mas quando chego junto ao PC ele está com o ecran azul do windows. Repito: «não acredito» e fico à janela a apreciar o silêncio e as luzes amarelas na avenida deserta.

Na segunda-feira seguinte confirmo: as mensagens no servidor SYSLOG terminam às 05:37h. Irra, não acredito.


| Lisboa | Setembro de 2007 |

terça-feira, outubro 16, 2007

Chega de Bois

A tarde foi maravilhosamente bem passada. Umas duas mil pessoas no meio de um descampado para verem as bestas pegadas. Ao contrário do que é habitual hoje em dia em qualquer sítio não andava por lá ninguém com máquinas digitais (nem outras).

Converso com os donos dos animais. Vêm de longe para ganhar meia dúzia de trocos. Percebo que se preocupam genuinamente com eles. A vida tem destas contradições.

Vou cruzando olhares e sorrisos com desconhecidos. A dada altura chamam-me. Perguntam-me para que jornal trabalho e se podem ficar com as fotografias. Explico que não há problema nenhum. O único problema é que são a preto e branco e não sei quando ficarão reveladas. Tudo bem.

Passado uns dias respondo a uma mensagem de correio electrónico:
«Quando falámos, não tinha percebido que gostavam de as publicar num artigo de jornal. Confesso que não é coisa que me agrade muito, porque as reportagens deveriam ser feitas por fotojornalistas e não por amadores ou por curiosos que trabalhem gratuitamente. A médio prazo isso prejudica-nos a todos enquanto cidadãos.»

Depois de conversar com alguns amigos, acabei por pedir simbolicamente 25€ por cada fotografia usada. Nunca mais recebi qualquer resposta. :)