quinta-feira, fevereiro 14, 2008

Insofismável.

Juntava o tempo das suas fezes ao tempo da sua reflexão. Nem sequer se apercebia da verdade triste que isso acarretava. As suas reflexões pessoais tinham a dignidade dos detritos do seu aparelho digestivo. E a mesma importância, já que era semelhante o tempo do dia que lhes dedicava.

Há dois anos e meio que tinha chegado à administração da empresa. O que significava em geral almoços tardios, demorados e agendados com muita antecedência. À noite, ao chegar a casa, encontrava a família cansada e prestes a adormecer.

Enquanto contraia o abdómen, ia mastigando algumas caralhadas. Estava farto dos estados de alma do PSI20 e começava a pensar seriamente o que fazer ao milhão e meio de euros que tinha distribuído por dúzia e meia de fundos e aplicações financeiras. Com 46 anos não lhe restava muita imaginação para o gastar.

A verdade insofismável tinha surgido uns dias antes. Ao fim da tarde, passeando a pé por uma das ruas das redondezas, achou bonita uma puta que certamente tinha acabado de acordar. Tremeu com a revelação: estava morto - a vida acabara naquele momento.

Lavou as mãos e apagou a luz.



| nenhum ser humano foi magoado na realização desta fotografia | graça | porto | dezembro 2008 |

segunda-feira, fevereiro 11, 2008

gone baby gone

O cinema tem para mim esta coisa de me fazer pensar no que não é óbvio. De poder viver coisas que estão felizmente muito longe da realidade em que vivo. De, em certo sentido, ganhar experiência de vida, sem ter experiências na vida (que perigoso que isto é, hã?). O bom cinema é muitas vezes mais "isso" do que um bom livro. Vendo bem as coisas, não são coisas exactamente comparáveis.

Foi um pouco o que senti ontem ao ver o «vista pela última vez...». Lembrei-me por duas ou três vezes do Mystic River. Hoje venho a descobrir que há uma razão para isso.

Não sendo genial, é um filme bem catita e apeteceu-me dizer isto ao mundo. Ouviste mundo?



prédios no porto

| não, não fui a nova iorque | porto | 2008 |

quinta-feira, fevereiro 07, 2008

Menina e moça.

De acordar de manhã e estar sempre sol e calor.
Das mercearias indianas no intendente.
Das natas quentes comidas em Belém, mas tratadas por outro nome.
Dos passeios a pé pelas calçadas.
Dos aviões a passarem tangentes aos prédios.
Do Tejo visto de longe.
Das muitas línguas faladas por todo o lado.
Das manifestações com muita gente.
Das salas de cinema onde se pode ir sem ter carro.
Das escadas rolantes até ao bairro alto.
Dos comboios e do metro.
Do cheiro a sardinhas no verão.
Da sensação de estar sempre num bairro pequenino, assim que se sai de uma grande avenida.
Do cartaz cultural sempre cheio.
De grande parte dos lisboetas que conheço.
E claro, dos eléctricos para cima e para baixo.


[este texto esteve para começar com a frase «de que gosto eu em Lisboa». Mas depois mudei de ideias.]


| eléctricos | sé | lisboa | dez 2007 |

segunda-feira, janeiro 28, 2008

Solidão

Todos os blogues são espaços de solidão. Por isso este anda tão sozinho.



| festas do espírito santo | ponta delgada | julho de 2007 |

sexta-feira, janeiro 04, 2008

Tenho 17 anos e sou feliz.

O adolescente que comigo vive lá em casa não é muito falador. Coisa de adolescentes. Ontem à noite, tocam à campainha por volta das nove. O adolescente era o único suficientemente relaxado e indiferente ao incómodo de nos assaltarem a intimidade. Lá foi ele abrir a porta à vizinha do 12º.

Voltou divertido com a situação. A gata da mulher tinha-lhe "avariado a internet". Como era evidente, tratava-se apenas de um cabo desligado, coisa que se resolveu num ápice. Mas mais importante que isso: voltou falador.

Até às duas da manhã pudemos conversar sobre cinema e música britânica. Sobre como o 24 hour party people é o melhor exemplo de como as melhores coisas da vida se fazem com descontracção e com um sorriso nos lábios. Sobre como o Nine Songs, apesar de tão bem filmado é o melhor exemplo sobre a forma como a música britânica dos últimos anos está num ciclo ascendente de aborrecimento. E claro, de como o Control é um filme belíssimo sobre uma história demasiado triste para ter sido tão mal contada tantas vezes.

Esta manhã ao acordar só pude sorrir ao ouvir ao longe o Bela Lugosi's Dead. Era a versão dos Nouvelle Vague, claro.


| jogadores de xadrez | plovdiv | junho de 2007 |

quinta-feira, janeiro 03, 2008

Isto não é o que parece. :)

A semana passada, com algum do tempo livre que pude ter, tropecei numa lista daqueles que foram eleitos os melhores blogues de fotografia portugueses.

Tenho um amigo que diz que a realidade é algo com o qual, a muito breves espaços, as nossas vidas se cruzam. Começo a achar que ele tem razão. Eu desconheço completamente isso da "realidade". Em certo sentido, acho que me dá alguma sanidade.

Estou velho e rezingão. Ressabiado, diz outro amigo.


Não percebo como entraram na lista o artephotographica e o Foto Café. Num daqueles testes de "descubra o que não faz parte deste grupo", estes dois saltam-me à vista.


| lisboa | setembro de 2007 |