quarta-feira, setembro 03, 2008

Os papéis de Luc.

Ao longo da minha vida, vou guardando pequenos papeis que nunca sei como organizar ou sistematizar. Em geral vou deixando-os pela casa, em diferentes gavetas. Por vezes tropeço com um sorriso nas minhas próprias memórias e constato a sua inutilidade.

Esta tarde deito fora vários papeluchos, onde guardo várias coisas.
O endereço de correio electrónico do Nelson, que com grande simpatia tratou de me ir buscar e levar ao aeroporto.
O endereço electrónico do Félix que me impressionou pela sua cultura, boa disposição e espírito mordaz. E que me recebeu de forma inesquecível em sua casa.
E finalmente um cartão de visita kitsch mas belíssimo. Por cima de uma paisagem de praia tropical, com palmeiras e águas cristalinas, Aidita anuncia: «Se rentam habitaciones con todo o tipo de confort, con aire acondicionado, agua frie y caliente. Telf (53-7) 832 1392». Sigam o meu conselho: é um bom sítio para se ficar em Havana e não é por nada do que é anunciado.

E agora, com algum pesar, tudo isto vai para o ecoponto azul.

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| malecon | havana | cuba | abril 2008 |

terça-feira, setembro 02, 2008

Não, não ando doido.

Começo aqui a escrever a partir de:
-uma pequena provocação de um amigo (daí o título) e
-uma constatação: tenho fotografado cada vez menos.

Primeiro que tudo, sinto-me a mudar. Acho que isso é comum em qualquer idade. No entanto associamos isso a mudanças visíveis e que podem servir facilmente de explicação. Por exemplo: a mudança de escola, a entrada na faculdade, a saída da faculdade, uma nova namorada, a passagem por um país estrangeiro, um novo trabalho, etc... No meu caso, ao contrário do que possa parecer à primeira visto, nada disso. Eppur si muove.

Pela primeira vez embarquei num avião com apenas um rolo de slides na máquina e pilhas numa pequena digital. Nem um único filme a preto e branco. Ainda assim, ao fim de duas semanas, grande parte dos slides foram disparados para acabar o rolo antes do voo de regresso.

E assim se confirma: fotografo pouco. Gostaria de ter fotografado mais. Ou melhor, não fotografei porque fiz outras escolhas e não me arrependo delas, mas gostaria que essas escolhas não condicionassem o facto de não ter fotografado.

E finalmente depois de no fim-de-semana ter passado fugazmente pela zona do S. João no Porto (quem não sabe de que falo, soubesse) senti uma grande distância de parte da minha própria história de vida. E alguma tristeza por verificar que algumas das escolhas recentes que fiz são correctas. É um pouco esquizofrénico, mas é assim mesmo. Não, não ando doido.

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| graciosa, s. jorge e pico | açores | agosto 2008 |

quarta-feira, agosto 06, 2008

Então tá. :|

1. Dou por mim a pensar nos meus gostos fotográficos. Perante a possibilidade de comprar um livro, de demorar um pouco mais os olhos numa fotografia, invariavelmente caio sobre o foto-jornalismo. É um sentido do clássico que não sei explicar bem. Noutros aspectos da minha vida acho que o comportamento não é comparável. Na escolha de livros, músicas, filmes, ou mesmo quando se trata da escolha de uma refeição, os clássicos agradam-me mas não são necessariamente os meus preferidos.

2. Com chapéu na cabeça, uma mochila pequena às costas, cuecas q.b., três camisas, dois pares de calções, protector solar, uma garrafa de água e dinheiro no bolso, sairei de casa. Um pouco mais de mil euros. Terei sempre tempo suficiente para dormir depois de almoço. Jogarei às cartas com os velhotes pelo caminho. Comerei o pó dos jipes e das moto-quatro. Com o telemóvel enviarei fotografias ao fim do dia aos amigos e à família.

3. Com as notas dessa viagem não farei nada. Nem um blogue, nem um livro, nem uma sequência de crónicas de viagem. Mas não serão deitadas fora. Ao pé de uma lareira, em Trás-os-Montes, falarei disso numa noite de chuva sem televisão nem luz eléctrica. De manhã apreciarei os meus livros de foto-jornalismo. Serei mais velho.

4. Ando mais de avião do que o que gostaria. Leio menos do que o gostaria. Conduzo mais do que o que gostaria. Converso menos do que o que gostaria. Escrevo menos do que o gostaria. Fodo menos do que o gostaria. Uso palavrões mais do que o gostaria. Peso menos do que o gostaria. Já viajei tanto quanto gostaria. Durmo bem. Raramente bebo álcool. Apenas o que gostaria. Trabalho e cozinho às vezes.

5. E li o editorial da Máxima do mês de Agosto. Eu sei, é um comentário infantil. :D


|procissão do corpo de deus | porto | junho de 2007 |

sexta-feira, junho 27, 2008

Viro o disco.

Hoje, dia 27 de Junho de 2008. Uma data que apenas para mim fará sentido. Felizmente dentro de pouco tempo já a terei esquecido.


| procissão do corpo de deus | porto | junho 2007 |

quinta-feira, junho 19, 2008

Vuelvo al sur

Texto e foto: Daniel Navarro.
Tradução minha.
Música: Mercedes Sosa
Soy Pan, Soy Paz, ...


«Querido A.
Esta viagem foi muito forte para mim. Foram 20 dias muito intensos.
A minha mãe não sabia que chegava. Quando chegamos ela dormia. Mandei a "mucama" (argentinismo - antes dizia-se "muchaca con cama"="criada", por isso os argentinos misturaram as duas palavras abreviadas e ficou "mucama") dizer-lhe que o pequeno-almoço estava pronto. A minha mãe disse-lhe que queria continuar a dormir.
A Maria saiu do quarto e disse-me: "Agora não sei que fazer! Ela quer continuar a dormir!"
Entrei no quarto dela e disse-lhe: "vamos velha hinchapelotas, levanta-te que estou morto de fome!!!!" Recebi um dos abraços com mais gana da minha vida.
A mucama ficou séria já que nunca tinha ouvido que alguém falasse à senhora M. com tanta falta de respeito.

Buenos Aires estava linda, quase majestosa, como quando a deixei.
Os amigos continuam sendo de ferro e os amores incondicionais.
Os amores!!! Coisa muito forte que contrasta com este norte tímido.

Uma das coisas que mais me custou deixar ali, são os papéis que cá não posso ter. Aqui não posso ser nem filho, nem irmão mais velho, nem tio, nem local.
Comi com montões de amigos, falei com a minha irmã quase todas as noites até às cinco da manhã, desfrutei dos meus sobrinhos.

Vi o meu pai que há muitos anos não via. Discuti com ele sobre tango. Ele gosta de Gardel e para mim é uma cagada. Comecei eu a discussão para ver se mantinha intacto o seu poder para argumentar e gostei que fosse ainda hábil a discutir.

Dormi com um par de amigas do passado. Desfruto um pouco mais da infidelidade quando estou em Buenos Aires, porque são esses os amores que duraram toda a vida. Têm sempre a mesma intensidade e a mesma gana, apesar dos anos.

Nesta viagem não pude fotografar. A máquina foi o meu corpo.
Ab+
Daniel »


| Fotografia de Daniel Navarro |