Hã?
| entroido | xinzo das teixugueiras | março 2014 |
Até que o blogue morreu. É que o blogue não era meu. E eu não era eu.
Havia outro muito mais fraquinho. Sem brilhantismo nenhum. Como eu. Mas esse não morreu. Digamos que está em êxtase. Como eu.
(Por causa da Lígia)
| entroido | laza | março 2013 |
Portugal é um país de gente à espera. À espera primeiro que tudo que acabe a crise. Como se a crise fosse acabar amanhã ou depois. Em Portugal espera-se que esse milagre do fim da crise surja um dia como uma tempestade de verão; que os impostos desçam; que os salários subam; que as reformas deixem de ser confiscadas; que a segurança social deixe de servir para pagar juros da dívida.
Em Portugal espera-se que o governo caia. Que o Paulo Portas faça uma fita das dele. Que os militantes do PSD se encham das aldrabices que lhes contam. Que no parlamento surjam à direita meia-dúzia de deputados com espinha dorsal (na realidade seriam necessários 18). Que o Miguel Relvas perca o sorriso amarelo. Que o Vitor Gaspar arrume o livro de merceeiro. Que o Álvaro volte a escrever em blogues e deixe de vender o país ao desbarato.
Depois, secretamente, espera-se que António José Seguro nunca chegue onde chegou Passos Coelho. Espera-se que ele diga qualquer coisa que não seja uma banalidade. Espera-se que os militantes do PS escolham alguém que não seja um carreirista, que tenha algum relevo intelectual, profissional ou social. Espera-se que no PS floresça uma ideia de esquerda. Ou uma ideia diferente das que têm proposto nas últimas décadas.
Os portugueses esperam que o presidente seja mais do que a figura patética que é. Espera-se que tenha mais utilidade que um naperon decorativo pousado numa mesinha velha num corredor onde passam leis, documentos e papelada para serem assinados de cruz.
Espera-se que lá fora (no estrangeiro) ninguém ache que somos mal comportados. Ou preguiçosos. Ou que apesar de enterrados até ao pescoço iríamos algum dia de deixar de sorrir e receber de braços abertos quem nos enterra. Ou que pensem que há quem sofra porque não vai ao médico ou porque os filhos não podem estudar ou porque não pode ligar o aquecimento ou porque tem que emigrar. Ou que pensem que há gente a quem lhe salta a tampa e decide matar-se do cimo de uma ponte ou numa linha de comboio. Espera-se que ninguém desconfie do que é óbvio.
Espera-se que juízes, procuradores e muitas toneladas de leis tenham mais utilidade do que fazer pagar multas fiscais, fazer evaporar os subsídios de férias e de natal ou prender manifestantes. Espera-se que um dia, o conselho de administração do BPN seja preso. Que a elite política do país seja acusada de cumplicidade com a marosca. Que quem faça as leis não seja quem primeiro as desrespeita. Que o governo cumpra a Constituição com mais zelo do que qualquer ministro cumpre o código da estrada.
A alguém que não perceba o que aqui se passa teríamos que dizer que ainda estamos à espera de perceber se a troika se enganou sem querer ou de propósito. Que ainda estamos à espera que tudo se resolva amanhã, apesar de nos terem dito que seria ontem. Que estamos à espera que o país vá para melhor, apesar de andar para pior ano após ano. Que estamos à espera que quem criou o problema o resolva.
Esperam que chova? Não isso não. Aqui faz sempre sol. Olhando para o estado do tempo é o que se espera para sábado. E eu espero-te lá. Lá onde? Se não sabes, descobre. Não fiques à espera.
| à espera | oeiras | 2012 |
Mas é mais forte que nós. Quando nos perguntam uma coisa qualquer, temos que nos mostrar inteligentes. Temos que mostrar uma resposta que dê sentido ao mundo. Eu respondi: Brasil. Claro. Os americanos andam preocupados em colonizar Marte; os portugueses com a colonização do Brasil. Funcionou para todos antes de nós. Há-de funcionar para nós também. Espero.
Depois recebo na minha caixa do correio uma mensagem que diz: "Somos Menezes". Eu não sou Menezes. Na minha família ninguém é Menezes. Eu acho até que nunca dei o meu endereço de correio electrónico a nenhum Menezes. Aquilo deve ser spam (que é como o google se refere ao lixo que nos chega ao correio). Eu não sei. Mas, como sou débil, vou ler o que se trata.
Na Rússia, o presidente não pode ser presidente mais do que duas vezes consecutivas. Putin resolveu isso de forma elegante: foi acolá dar uma perninha como primeiro-ministro - o que pode ser visto como uma despromoção temporária - e depois voltou para ser presidente. As democracias não precisam destas manobras, aliás dispensam-nas bem.
Em Gaia, o presidente não pode ser presidente mais do que três vezes consecutivas. O Menezes resolveu isso de forma elegante. Vai ali ao Porto dar uma perninha como presidente. Neste caso deve ser visto como uma promoção. Gaia é maior, tem mais gente, melhores vistas, teleférico e até tem o El Corte Inglês. Mas o Porto é o símbolo; a medalha que melhor fica na lapela. Por cá a manobra vai passar como um exemplo. Estou certo que outros cidadãos o seguirão.
O email deve ter razão: Em Portugal somos todos Menezes. Vamos-nos safando com esquemas, saltando pocinhas e tornando a democracia criativa. Todos? Excepto essa minha amiga que anda a pensar exilar-se. Ou eu que tenho que trabalhar todos os dias, sem tempo para ser criativo na interpretação de leis.
Penso no Haiti. O Haiti não é aqui.
| tervuren | 2011 |
Apenas me resta acrescentar que uma greve geral deve ser também uma greve ao consumo. Que não seja facturado 1 cêntimo de IVA amanhã. Que não seja consumido um único café. Que não se compre um só bilhete de metro. Que não haja um único pão fresco em casa alguma.
Amanhã é dia de usar o congelador. E a cabeça. Não esquecer.
| 15 set | porto | setembro | 2012 |
Um grupo de indignados tinha ido a pé desde a porta do Sol até ao parque do cinquentenário. Ao contrário do que diria o cliché, esperou-os nesse dia um belo sol outonal em vez dos míticos dias cinzentos que, segundo alguns, são típicos nos restantes 364 dias.
Não há outra cidade como Bruxelas. Ouço muitas vezes dizer que a culpa é de Bruxelas. A culpa não é dela.
E porque me apetece, com uma dedicatória especial ao grande jornalista e escritor Jorge Marmelo.
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Uma senhora vem ter connosco enquanto arrumo as compras. Pede umas indicações. Enquanto me viro, com os seu sotaque sul-americano, pergunta-me: "Fala português?". Eu nem sei se acredite no que ouço. Limito-me a sorrir e a dizer que sim. Que mais se pode dizer?
E depois ponho-me a pensar de onde vem semelhante pergunta. Quem nos observa lá de longe não fala português. Quem nos questiona do cimo dos pedestais não fala. Quem nos apascenta por aqui e por ali, não fala. Quem decide o que se passa não fala. Às vezes nem nós falámos. Ninguém parece saber do que fala, não é?
Esta short story é o melhor insight que se pode ter sobre os accomplishments recentes dos portugueses e das casualties que se anunciam em virtude do downsizing dos próximos anos. Poor us.
Estamos quilhados amigos. Os centros comerciais ficarão vazios. O país também. Quilhadinhos, amiguinhos, quilhadinhos... Valha-nos a América do Sul.
| restauradores | lisboa | setembro de 2012 |
Não estamos em Fevereiro de 1979, nem me apetece escrever um texto de um jorro só. Não me faltam dentes. Tenho 37 anos.
Há quem atire culpas para os de trás, há quem atire culpas para os da frente. Há quem ouça música. Há quem ache que se pode marcar uma linha arbitrária num calendário a partir da qual (apenas a partir da qual) vale a pena manifestar-se.
Os funcionários públicos e os reformados foram os bombos da festa. Mas como o dinheiro deles não chegou, a rave estendeu-se noite fora até aos cínicos que a observavam de longe. E estes, coitadinhos acordaram agora, cheios de vernáculo.
Mas no meio desta história custa ver que ainda não se percebeu nada. A única saída está numa redefinição política do panorama político português e numa recomposição institucional europeia, longe da lógica monetarista vigente e dos tratados que nos trouxeram até aqui.
A expedição punitiva que se dirigiu a Portugal ainda só se está a instalar. Mas se a querem receber convenientemente, isso implica deixar o vernáculo e começar a usar o cérebro.
Pode ir-se à praia em dia de eleições? Pode. Pode fazer-se de sonso quando há uma greve geral? Pode. Pode chamar-se preguiçosos aos professores? Pode. Pode discutir-se os direitos sociais dos outros como se de privilégios se tratassem? Pode. Pode passar-se a vida a votar no PS e no PSD? Pode. Pode achar-se que quem se indigna são uns radicais perigosos ou uns achados arqueológicos? Pode. Pode passar-se a vida sem ler um livro ou sequer um jornal? Pode. Pode andar-se a vida toda a fugir aos impostos e exigir que os outros os paguem? Pode. Pode seguir-se sempre a mais cretina lógica individualista? Pode. Pode nunca se sindicalizar e depois recorrer aos sindicatos quando as questões laborais roçam a escravatura? Pode. Pode o dinheiro definir tudo nas nossas vidas? Talvez não possa.
Mas depois não me fodam com o vosso vernáculo, bando de palonços.
Amanhã vamos todos à manifestação. Mas saibam que aquilo que fazem tem consequências. Tal como aquilo que não fazem. E se outra consequência não haja que pelo menos tenha a consequência de vos fazer consequentes.
Ou dito de maneira que se perceba: se querem que o país mude amanhã, são vocês que têm que mudar. É que visto daqui, o país são vocês.
Até me fazem falar mal.

| a puta da florzinha | gerês | março 2012 |
É um ano excepcional. Há carros que flutuam nas ruas. Ou melhor dito, por cima delas. No código da estrada foi introduzida a prioridade aos veículos que se apresentem em descendente, tal como há prioridade aos veículos que se apresentem pela direita. Excepto os comboios que têm prioridade também quando vêm pela esquerda. E os caças bombardeiros que têm prioridade mesmo quando se apresentem em ascendente.
O rio Douro foi finalmente despoluído, a praia de Matosinhos deixou de ser conhecida como a praia do cagalhão. As pessoas podem ver a cara uma das outras enquanto falam ao telemóvel.
O acesso à informação está de tal forma disseminado que é o ano em que, pela primeira vez e em virtude do desenvolvimento tecnológico, os cursos universitários podem ser feitos em apenas um ano. E as pessoas misteriosamente sussurram nas ruas: "Vai estudar Relvas". E já ninguém sabe quem é o Dantas e se ele morreu ou não.
A sardinha é agostinha o ano todo. A nortada só aparece quando não está gente na praia e até a emissão da televisão pode ser parada para se ir aliviar águas num saltinho.
Ah quem me dera poder viver em 2012. Ou noutro ano qualquer no futuro. Cabrões de vindouros.
| aos saltos bem altos | ribeira | porto | junho 2012 |