terça-feira, novembro 11, 2014

História com final infeliz

A senhora acordava todas as manhãs. A senhora acordava mas era sempre um pouco tarde. Porque o despertador das outras senhoras também as acordavam à mesma hora. Ou a outra hora. Mas todas saíam de casa à mesma hora. Mas nenhuma delas usava o autocarro ou o metro. Nos seus automóveis dirigiam-se para onde haviam de se dirigir.

A senhora tinha uma filha. Mas o carro não tinha onde parar. A filha tinha uma escola e havia que sair do carro todas as manhãs. E havia um certo atraso, por causa daquilo do despertador das outras senhoras. Ou do trânsito. Ou da chuva. Ou da própria filha que desrespeitava o tique-taque como se de uma mera convenção se tratasse. Era o mundo todo contra o resto do mundo todas as manhãs.

E ali à porta da escola, não havia grande alternativa. O carro só podia ficar em cima do passeio. As ruas estreitas, os despertadores, as horas, tudo isso a forçava a deixar o carro em cima daquele passeio. Ela preferia não o fazer. O ideal seria que houvesse um lugar livre todas as manhãs à sua espera. Infelizmente não era o caso. Ainda por cima, o espaço em cima do passeio era exíguo, obrigava a manobras. Pisca-pisca, chega à frente, chega atrás, chega outra vez à frente, pisca-pisca.

Num dos "chega-atrás" ela não viu uma criança que estava por trás do carro. E o carro lá a empurrou. O pai da outra criança bateu-lhe três vezes com as mãos no carro. E ela, como nem se apercebeu que havia batido na criança, ficou infeliz. Ou outra coisa qualquer que lhe mexeu com os nervos. Pobrezinha.


| foge foge | novembro 2014 |

quarta-feira, abril 16, 2014

Entroido 2014

Mais um diaporama. Parece-me que isto vai mesmo sem grande palavreado.
Ainda assim, são as fotos de Laza.
No carnaval de 2014.
São melhor apreciadas se ocuparem o ecran todo (canto inferior direito) e se o som estiver bem alto.

quinta-feira, abril 10, 2014

Que a terra lhe seja leve.

Este texto, não exactamente este, mas uma versão com um pouco mais ou menos nexo, foi escrita há uns tempos para o projecto de um amigo. Esta é a versão possível.
 
"«Impalpàbile», além de impalpável, significa em italiano «em pó». No início de Janeiro, cumprindo um ritual repetido durante anos, verifiquei que não tinha acesso ao fotoalternativa. Por diversas razões, esse ritual tinha esmorecido e nesse mesmo dia fiquei a saber que o site havia acabado.
(...)
 
O Alt é uma das coisas importantes da minha vida. Deu-me grandes amigos, viagens do caneco, noites em frente ao ampliador, gargalhadas de me pôr com asma e muita fotografia. E muito boa. E de uma auto-exigência implacável.
 
O Alt é uma parte impalpável da minha vida. Desconhecidos a quem mostro fotografias da minha intimidade sem hesitar um segundo. Pessoas com quem gosto de discutir opiniões opostas, por respeito mútuo. O Alt é como a uma família longínqua, que vejo uma vez cada dois anos, mas com quem converso com gosto como se apenas tivessem passado três dias.
 
Antes era impalpável, agora ficou desfeito em pó. Metaforicamente, parece-me. (...)
"
 
Naquela que é a entrada 500 deste blogue, parece-me adequado dedica-la ao Alt.
 

| laza | entroido | 2014 |

quarta-feira, abril 09, 2014

E isso não se explica

Há coisas na vida que não se explicam a terceiros. O que é a paixão assolapada. O que é querer dormir e não conseguir. O que é uma dor de dentes. O que é o carnaval de Laza.
Mas pode sempre dizer-se que a vida sem isso é um bocadinho menos vida. Isso não explica, mas ilustra.

| não, não é a morena | laza | entroido | 2014 |

quinta-feira, março 06, 2014

Isto já esteve para fechar

Mas a vida prosseguiu. E num dia de sol, decidiu chover. Ou foi num dia de inverno que decidiu ventar. Ou num dia qualquer voltou a fotografar. Mas era com o telemóvel. Depois acabou-se a bateria e foi ver televisão num blogue. Ou era noutra coisa parecida.
Hã?

| entroido | xinzo das teixugueiras | março 2014 |

quarta-feira, novembro 06, 2013

Mas o blogue não era meu

Tive durante muitos anos um blogue brilhante. Já vos disse? Era um blogue que comentava todos os temas da actualidade. Eu sabia de economia e futebol à segunda. Discutia literatura e licenciaturas de políticos xungas à terça. Mostrava brilhantismo a falar de música underground americana e puericultura. Eu era um exemplo de virtudes e o mundo à minha volta ruía em defeitos e decadência.

Até que o blogue morreu. É que o blogue não era meu. E eu não era eu.

Havia outro muito mais fraquinho. Sem brilhantismo nenhum. Como eu. Mas esse não morreu. Digamos que está em êxtase. Como eu.

(Por causa da Lígia)

| entroido | laza | março 2013 |

quinta-feira, fevereiro 28, 2013

Crónica do país à espera

Dou por mim a pensar como é que se pode explicar Portugal a alguém que não o conheça. Em Espanha as manifestações são sempre muito manifestadas. Na Grécia os partidos políticos tradicionais desfizeram-se e desapareceram como areia fina numa peneira. Em Itália descobre-se que o primeiro-ministro vale pouco mais de 10%. Que a um palhaço de brincar os italianos preferem um a sério. Em França as greves param efectivamente o país e toda a gente pára porque só assim se pára o país. Em Portugal não. Em Portugal nada.

Portugal é um país de gente à espera. À espera primeiro que tudo que acabe a crise. Como se a crise fosse acabar amanhã ou depois. Em Portugal espera-se que esse milagre do fim da crise surja um dia como uma tempestade de verão; que os impostos desçam; que os salários subam; que as reformas deixem de ser confiscadas; que a segurança social deixe de servir para pagar juros da dívida.

Em Portugal espera-se que o governo caia. Que o Paulo Portas faça uma fita das dele. Que os militantes do PSD se encham das aldrabices que lhes contam. Que no parlamento surjam à direita meia-dúzia de deputados com espinha dorsal (na realidade seriam necessários 18). Que o Miguel Relvas perca o sorriso amarelo. Que o Vitor Gaspar arrume o livro de merceeiro. Que o Álvaro volte a escrever em blogues e deixe de vender o país ao desbarato.

Depois, secretamente, espera-se que António José Seguro nunca chegue onde chegou Passos Coelho. Espera-se que ele diga qualquer coisa que não seja uma banalidade. Espera-se que os militantes do PS escolham alguém que não seja um carreirista, que tenha algum relevo intelectual, profissional ou social. Espera-se que no PS floresça uma ideia de esquerda. Ou uma ideia diferente das que têm proposto nas últimas décadas.

Os portugueses esperam que o presidente seja mais do que a figura patética que é. Espera-se que tenha mais utilidade que um naperon decorativo pousado numa mesinha velha num corredor onde passam leis, documentos e papelada para serem assinados de cruz.

Espera-se que lá fora (no estrangeiro) ninguém ache que somos mal comportados. Ou preguiçosos. Ou que apesar de enterrados até ao pescoço iríamos algum dia de deixar de sorrir e receber de braços abertos quem nos enterra. Ou que pensem que há quem sofra porque não vai ao médico ou porque os filhos não podem estudar ou porque não pode ligar o aquecimento ou porque tem que emigrar. Ou que pensem que há gente a quem lhe salta a tampa e decide matar-se do cimo de uma ponte ou numa linha de comboio. Espera-se que ninguém desconfie do que é óbvio.

Espera-se que juízes, procuradores e muitas toneladas de leis tenham mais utilidade do que fazer pagar multas fiscais, fazer evaporar os subsídios de férias e de natal ou prender manifestantes. Espera-se que um dia, o conselho de administração do BPN seja preso. Que a elite política do país seja acusada de cumplicidade com a marosca. Que quem faça as leis não seja quem primeiro as desrespeita. Que o governo cumpra a Constituição com mais zelo do que qualquer ministro cumpre o código da estrada.

A alguém que não perceba o que aqui se passa teríamos que dizer que ainda estamos à espera de perceber se a troika se enganou sem querer ou de propósito. Que ainda estamos à espera que tudo se resolva amanhã, apesar de nos terem dito que seria ontem. Que estamos à espera que o país vá para melhor, apesar de andar para pior ano após ano. Que estamos à espera que quem criou o problema o resolva.

Esperam que chova? Não isso não. Aqui faz sempre sol. Olhando para o estado do tempo é o que se espera para sábado. E eu espero-te lá. Lá onde? Se não sabes, descobre. Não fiques à espera.


| à espera | oeiras | 2012 |

quinta-feira, novembro 29, 2012

O Haiti não é aqui

Esta manhã encontro uma amiga pela rua abaixo. A conversa deixa rapidamente de ser de circunstância. Saca rapidamente de uma navalha indagatória para me questionar onde é que no mundo se pode viver. Eu não sei. Eu achava que se podia viver ali mesmo naquela rua. Eu ia apenas pela rua abaixo, ia trabalhar, não ia a pensar no mundo. Nem sequer ia trabalhar para ser feliz. Ia trabalhar para poder viver. Para poder ligar a televisão à noite e poder ser gozado pelo primeiro-ministro. Ia trabalhar, como quem corre para ganhar lanço para saltar o triplo salto, para poder passar por cima de 2013. Eu não sei essas coisas.

Mas é mais forte que nós. Quando nos perguntam uma coisa qualquer, temos que nos mostrar inteligentes. Temos que mostrar uma resposta que dê sentido ao mundo. Eu respondi: Brasil. Claro. Os americanos andam preocupados em colonizar Marte; os portugueses com a colonização do Brasil. Funcionou para todos antes de nós. Há-de funcionar para nós também. Espero.

Depois recebo na minha caixa do correio uma mensagem que diz: "Somos Menezes". Eu não sou Menezes. Na minha família ninguém é Menezes. Eu acho até que nunca dei o meu endereço de correio electrónico a nenhum Menezes. Aquilo deve ser spam (que é como o google se refere ao lixo que nos chega ao correio). Eu não sei. Mas, como sou débil, vou ler o que se trata.

Na Rússia, o presidente não pode ser presidente mais do que duas vezes consecutivas. Putin resolveu isso de forma elegante: foi acolá dar uma perninha como primeiro-ministro - o que pode ser visto como uma despromoção temporária - e depois voltou para ser presidente. As democracias não precisam destas manobras, aliás dispensam-nas bem.

Em Gaia, o presidente não pode ser presidente mais do que três vezes consecutivas. O Menezes resolveu isso de forma elegante. Vai ali ao Porto dar uma perninha como presidente. Neste caso deve ser visto como uma promoção. Gaia é maior, tem mais gente, melhores vistas, teleférico e até tem o El Corte Inglês. Mas o Porto é o símbolo; a medalha que melhor fica na lapela. Por cá a manobra vai passar como um exemplo. Estou certo que outros cidadãos o seguirão.

O email deve ter razão: Em Portugal somos todos Menezes. Vamos-nos safando com esquemas, saltando pocinhas e tornando a democracia criativa. Todos? Excepto essa minha amiga que anda a pensar exilar-se. Ou eu que tenho que trabalhar todos os dias, sem tempo para ser criativo na interpretação de leis.

Penso no Haiti. O Haiti não é aqui.

| tervuren | 2011 |

terça-feira, novembro 13, 2012

É que amanhã não há café.

Relembro-me do que escrevi a 14 de Setembro. Não tenho vontade de dizer mais nada sobre o assunto.

Apenas me resta acrescentar que uma greve geral deve ser também uma greve ao consumo. Que não seja facturado 1 cêntimo de IVA amanhã. Que não seja consumido um único café. Que não se compre um só bilhete de metro. Que não haja um único pão fresco em casa alguma.

Amanhã é dia de usar o congelador. E a cabeça. Não esquecer.


| 15 set | porto | setembro | 2012 |

sábado, outubro 13, 2012

A culpa não é de Bruxelas.

Há praticamente um ano atrás, fotografei a manifestação global de 15 de Outubro.

Um grupo de indignados tinha ido a pé desde a porta do Sol até ao parque do cinquentenário. Ao contrário do que diria o cliché, esperou-os nesse dia um belo sol outonal em vez dos míticos dias cinzentos que, segundo alguns, são típicos nos restantes 364 dias.

Não há outra cidade como Bruxelas. Ouço muitas vezes dizer que a culpa é de Bruxelas. A culpa não é dela.

E porque me apetece, com uma dedicatória especial ao grande jornalista e escritor Jorge Marmelo.

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