quarta-feira, novembro 30, 2005

Princípios Simples VIII

Ter ideias próprias. Bater-se por elas.


| PJV | Porto | Novembro de 2005 |

segunda-feira, novembro 28, 2005

Próxima estação.

Vivia numa pequena ilha do Arquipélago dos Açores. Tinha 43 anos e gostava de política apesar de nunca ter sido militante partidária. Na sua ilha todos a reconheciam como uma mulher honesta, cheia de capacidades e, ao contrário das dozes gerações anteriores, até sabia escrever. Tinha artigos publicados em revistas científicas francesas e alemãs, fundou um museu etnográfico em parceria com a escola local, desenvolveu projectos de alfabetização de adultos e chegou a publicar um jornal informação local. Doze números por ano.

Decidiu candidatar-se numa tarde de Setembro à Presidência da República. Dos 3850 eleitores da ilha, 2942 assinaram a sua proposta de candidatura. Pareceu-lhe abusivo ter que andar de avião para exercer um direito de cidadania.

Em 2006 vai de férias para a Guatemala. Enviará 2941 postais para a ilha. O duomilésimo nonocentésimo quadragésimo segundo seria para ela própria. À última da hora decidirá endereça-lo ao Palácio de Belém mandando foder com todas as letras o seu inquilino. Apenas por saudades de casa.



| C | na Sede | Gaia | Novembro de 2005 |

domingo, novembro 27, 2005

All my dreams fulfilled

Nem sempre saímos de casa dos amigos com a pressa de sair de casa dos amigos. Nem sempre quando saímos à pressa de casa dos amigos temos pressa de sair de casa dos amigos. Nem sempre quando saímos de casa dos amigos queremos sair à pressa de casa dos amigos. Nem sempre todos os amigos sabem porque temos pressa de sair de casa dos amigos. Nem sempre. Mas sempre que regressamos, estamos de novo em casa dos amigos. E há sempre uma certa pressa nisso.


| J & P | na Sede | Gaia | Novembro de 2005 |

sexta-feira, novembro 25, 2005

Princípios Simples VII

Liberdade, Igualdade, Fraternidade.


| C | Porto | Maio 2004 |

Nando das orelhas.

De forma indignada exclama perante o presidente da comissão recenseadora a sua repulsa pela ausência dos partidos da direita. Os partidos no poder na junta de freguesia têm uma responsabilidade acrescida, explicou.

Indignado com a gaffe da funcionária, explicou de forma grave como as coligações se dissolvem logo a seguir às eleições pelo que "não, não estava ali a representar a coligação, mas o seu partido". É exímio gladiador de regulamentos, capaz de explicar as subtilezas, as nuances das formas estatutárias e a beleza do articulado da lei - à qual o seu partido sempre se opôs, mas sobre o qual a coligação nunca se pronunciou, evidentemente.

Cheguei a pensar que seria insultuoso sugerir que o velho era um chato de um burocrata. Não senhor. Ele próprio tratou de me explicar como era funcionário partidário desde 1973 e como todos os dias se dirigia a um gabinete qualquer numa zona deprimente e húmida da cidade. Um problema grave, que explica muito do mal estar dos ossos de um senhor que sempre trabalhou numa casa comercial lá da rua. Um problema este tempo nesta cidade. Sim. Um problema esta humidade, o nevoeiro, o granito. Sim. Uma chatice.

O Sr. desculpe, mas essas orelhas não lhe criaram problemas na escola?


| À xávega | ao sul da Caparica | Abril de 2004 |

quinta-feira, novembro 24, 2005

Abre a boca.

Fala. Diz o que pensas. Para que se saiba. As memórias persistem. Não precisarás de ser particularmente grotesco. Basta ser quem és. Um toco. Sairás de cena. Mais dez anos. Óptimo. A amnésia não pode explicar um país.


| visitantes anónimas | Exposição "Interior" | Jup | Abril 2004 |

terça-feira, novembro 22, 2005

O umbigo do umbigo

A ideia de fotografar pessoas que escrevem em blogues, é como brilhantemente o caracterizou uma amiga minha, o umbigo do umbigo. Por aqui poderá aparecer um pouco de tudo. Umbigos, orelhas, cotovelos, lábios, cabelos, unhas, joanetes e com sorte corpos inteiramente nus. Para começar, e para aguçar o apetite, haverá alguns retratos.

Este projecto, sendo feito por quem é, será reflexo deste prazer que todos temos em fotografar. E fotografar sempre foi uma excelente desculpa para encontrar pessoas e passar bons momentos. Anda tudo de mão dada.

Calhou-me a mim a "sorte" de iniciar este projecto, neste dia zero. Escolhi um escritor que aprecio bastante e a quem atribuo parte da culpa por me ter feito aprender a gostar da minha cidade.

Leidis énde gêntleménes, Manuel Jorge Marmelo, os seus livros, ele próprio e a máquina onde os escreve colocada por cima daqueles que já escreveu... Tudo em sua casa.


| Manuel Jorge Marmelo | Porto | Novembro de 2005 |

quarta-feira, novembro 16, 2005

Água quente, doenças de pele, rolos estragados.

Há rolos inteiros onde não se aproveita uma foto digna desse nome. Há rolos inteiros onde não se encontram histórias dignas desse nome. Há rolos inteiros que por inexperiência, descuido ou um acaso qualquer podem ficar todos lixados. Há rolos que ficando todos lixados tornam-se numa história para contar. Há fotos que quando estragadas parecem ganhar o nome de que não são dignas. Há textos que se escrevem só para encher chouriços.


| I & C | Exposição «Interior» | JUP | Porto | Abril 2004 |

segunda-feira, novembro 14, 2005

Princípios Simples VI

Morrer é um direito.

Querida prima, morrer por asfixia com um saco de plástico na cabeça é uma violência desnecessária pudessem as pessoas exercer direitos elementares. Mas, mas, mas... sim há muitos "mas" e eu saberia juntar razões a todos esses "mas", mas, acrescento agora eu, repugna-me solenemente saber todo sofrimento que tiveste na morte - não consigo imaginar como seria em vida. Mas...


| Marília | Gesto | Agosto de 2004 |

quinta-feira, novembro 10, 2005