segunda-feira, maio 29, 2006

Mundial de 2006. Os apoios que não se verão.

Serei daqueles que não terá qualquer problema em apoiar o México contra a selecção portuguesa. Sei que encontraria num ápice os companheiros ideais para festejar e para muito mais. Mas no tsunami de condicionamento em que vivemos, afirma-lo seria uma espécie de heresia, punível certamente com a fogueira de um tribunal em que os jurados seriam nomeados pelo BES, pela SIC, pela Galp, pelos industriais de Paços de Ferreira e por outro foçangueiro qualquer que se meta ao barulho para ganhar uns cobres.

Há uma distinção óbvia entre a prática do desporto e o seu uso para fins os fins obscenos a que se dedicam os nossos “jornalistas” (as aspas são mesmo propositadas) condicionando deliberadamente o espectador.

A verdade é que, não teria grandes dificuldades em torcer pela Alemanha, pela Argentina e mesmo por uma eventual selecção madeirense. Mas agora que ninguém está a ouvir, se visse eu a selecção portuguesa chegar à final, arranjaria secretamente parceiros para comemorar em conjunto o campeonato do mundo. E como o que importa mesmo é comemorar, vou começar a arranjar compinchas para comemorar a sua derrota.

O futebol enquanto espectáculo é, regra geral, pouco dignificante da inteligência humana. Ainda assim há coisas interessantes que se podem dizer sobre o assunto, ainda que de repente não me ocorram quais. Falta de interesse meu.


| Aquecimento | Parque da Cidade | Porto | Maio de 2006 |

quarta-feira, maio 17, 2006

Não é bem um Hotel mas também não é bem uma pensão.

Da profissão que tinha guardava algumas vantagens para os momentos em que se sentia um pouco mais abatido. Escrevia essas vantagens nuns papeluchos amarelos que se colavam todos uns aos outros e metia-os dentro do bolso interior do casaco. Relia-os nas noites de verão em que estava sozinho na cidade, enquanto todas as outras pessoas se tinham metido num apartamento de aluguer em Albufeira, Figueira da Foz, Esposende ou Sanxenxo.

Um desses papéis dizia: conhecer bem todo o país. [este homem alegrava-se com coisas simples]
Outro dizia: podes manter-te actualizado com as últimas novidades do mercado de collants de senhora. [este homem tinha interesses bizarros]
E finalmente havia um que rezava assim: dormir em Hotéis que têm televisão por cabo. [este homem vivia numa zona sem televisão por cabo]

Releu por diversas vezes este último papelucho. Isto porque ele não conseguia dormir bem de cada vez que tinha que dormir num hotel. Sim, os hotéis eram bons. Sim, estavam limpos. Sim, tinham ar condicionado. Mas não, não conseguia dormir bem em nenhum deles.
Três anos depois escrevinhava num papelucho amarelo, com a letra tremida pelo balançar do comboio: os hotéis mais rascas têm menos canais, mas o sono é mais profundo.



| Aparição de S. JoaoLuc às pastorinhas | Coimbra | Maio de 2006 |

domingo, maio 14, 2006

Coisas a levar para uma ilha deserta.

Bronzeador.
Desodorizante.
Sombrinha para os olhos.
Pensos higiénicos.
Décadas de Moda, Harriet Worsley, Könemann.
Mão Morta, Mutantes S21.


| The XY Project | Porto | Abril 2006 |

quarta-feira, maio 10, 2006

Chanatos molhados, espuma no cabelo e areia entre os dedos.

Era muito raro encontrarem-se naquelas circunstâncias típicas de um filme. De mãos dadas num pôr do sol em frente ao mar... A praia, quando eles tinham doze anos, estava cheia de sargaço que se podia percorrer com as mãos à procura dos beijinhos que se comeriam ao fim da tarde - depois de passarem pela panela. Mudou muito o mar. Mudou muito a praia. Nada que se possa explicar de forma metódica. É um sentimento, um formigueiro que leva rapidamente alguém a banalizar-se pensando: «no meu tempo é que era...»

São frágeis as praias em frente ao mar. Mas ainda assim - disse-lhe ela - penso com os meus botões, que em todas as gerações têm mérito aqueles que arriscam molhar os pés e se dispõem a enfrentar o mar. Claro que haverá sempre quem se ponha na posição confortável de alguém que no final de tudo poderá exclamar triunfante: «vejam como são patéticos: estão todos molhados».

A questão não é o mar. É a praia.
A questão não é o pôr-do-sol. É todo o dia e toda a noite.
A questão não é triunfar. É molhar os pés.
A questão não é enfrentar uma maré. É acabar com o aquecimento global.


| Cravos de Abril em Maio | Porto | Maio de 2006 |

quinta-feira, maio 04, 2006

quarta-feira, maio 03, 2006

Procura-se vendedor ou vendedora

Em termos de vantagem académica apresentou a sua licenciatura em psicologia do consumo, com uma pós-graduação em marketing pós-colonial. Em termos gerais isso não faria grande diferença. Apenas procuravam mais uma vendedora, de preferência barata e que sobretudo não pusesse em causa o trabalho do Sr. Fonseca - gerente da loja vai para 7 anos em Junho. O Sr. Fonseca penteava a careca com uma melena cheia de brilhantina. Isso não afastava a clientela tradicional da loja de roupa infantil. O leve cheiro a mofo da velha alcatifa completava o quadro.

Ora logo nas primeiras semanas de trabalho "experimental" percebeu-se que alguma coisa podia mudar. A loja começou a ser frequentada por mães solteiras, famílias emigrantes que conversavam em línguas imperceptíveis enquanto remexem as prateleiras. Mas o que mais irritava o Sr. Fonseca era aquele terrível hábito que ela mantinha de não separar nas estantes a roupa de menino da de menina.

É para menino ou para menina? - perguntava há anos o Sr. Fonseca. Ultimamente os clientes respondiam, mas apreciavam vestir os rapazes com roupas às riscas rosa e as meninas de calças de ganga. Os emigrantes - sobretudo os emigrantes - tinham hábitos incompreensíveis para o Sr. Fonseca. Então os vestidos rosa cueca? Então os carapins azul desmaio? Então as babetes para bordar? Então os lacinhos côr de peido? Então a ordem do nosso mundo? Onde andavam as avózinhas? Onde é que se meteram as avózinhas tão amigas do Sr. Fonseca?

Foi despedida no final de contrato de seis meses. Mas isso, ao contrário do que possam pensar, estava determinado à partida pelo Sr. Fonseca.


| Sabes? Houve ali um auto de fé... | Lisboa | Maio de 2001 |

segunda-feira, maio 01, 2006

Emigra reloaded.

O quarto do gajo, inicialmente vazio, começou a ganhar forma. Um mapa geral dos transportes públicos da île de France. Bizarro... O gajo tinha a mania de não sair de casa sem tomar o pequeno-almoço. Guardava os cereais no quarto e malga também.

Electromagnetismo, programação, radiação e propagação e muita papelada política da mais variada. Um passeio em qualquer manifestação em Paris revela facilmente uma biodiversidade maior que qualquer reserva da biosfera. O gajo andava sempre com uma agenda - a agenda do elefante- que nunca largava. Normalmente atirava-a para cima da cama assim que entrava no quarto. Qual palm qual carapuça.

Também se fala português nas ruas. Nas caixas de supermercado tratam-te por "tuga". Estás longe da capital mas tens uma vantagem. Há uma mercearia árabe que vende pão a sério e não aquelas baguetes secas e duras.

Estou certo que noutro sítio qualquer será parecido.

Não há nada que este país te possa dar. E isto de emigrar é a nossa essência. É das poucas coisas em que tivemos sucesso enquanto povo.

Não te prometo visitar mas já sabes que responderei a todas as tuas cartas.


| Café de Saco | Brasileira | Braga | 1999? |