quinta-feira, julho 29, 2004

Interior

De 1 de Julho a 29 de Agosto, em Podence (Concelho de Macedo de Cavaleiros) na Casa do Careto pode ser visitada a minha exposição e do António Paulo Duarte. É uma variação da mesma exposição que esteve no JUP, no Porto. Não vale a pena ir lá de propósito, a menos que queiram encher o bandulho com uma boa posta à Mirandesa.
;)


| Carnaval | Podence | Fevereiro 2004 |

segunda-feira, julho 26, 2004

Copyleft

Fazer uma fotografia, publicar um texto ou escrever um programa de computador implica sempre (pelo menos) um autor que em nome deste seu acto maternal de criar algo, deseje ver consagrados alguns direitos. Como é natural diferentes pessoas guardam sobre os seus direitos diferentes visões e diferentes entendimentos.

A forma como estes direitos ganham corpo de lei faz com que sejam entendidos de forma absoluta, ou seja, é o estado quem determina os "direitos" existentes sobre as obras, ainda que os autores discordem desses mesmos "direitos". Um exemplo acabado do que referi é a norma imposta pela comissão europeia às Bibliotecas Públicas, exigindo a cobrança de taxas pelo empréstimo domiciliário das obras.

O que casos como este tornam evidente é que os direitos de autor são em geral os direitos das editoras que controlam os circuitos de distribuição e a cadeia de valor do chamado mercado cultural. Em circunstância alguma os "autores" são chamados no que diz respeito a estas regras impostas por uma lógica de propriedade intelectual que nega o saber colectivo, a circulação livre de ideias (e portanto de forma não taxada) dentro de uma sociedade e em que os próprios autores tenham o direito de abdicar de determinados "direitos", abdicando por exemplo da crença neoliberal em que o conhecimento (e sobretudo o acesso a ele) é uma mercadoria.

São grandes grupos editoriais, que agrupam televisões, jornais, editoras discográficas e livreiras (os produtores de "conteúdos"), empresas de telecomunicações e de dados (os distribuidores de "conteúdos") que consideram esta mercadoria como uma das mais valiosas e entre aquelas que mais deve ser protegida, de todas as formas possíveis. Seja criando legislação mais e mais restritiva (vide as patentes de software na europa), seja criando mecanismos que bloqueiem as redes de partilha existentes entre utilizadores - onde o caso mais famoso é o do napster. A tudo isto não será certamente alheia a concentração voraz que se verifica nestes meios nem o apetite dos mercados financeiros em tornar estes grupos os centros da especulação do sec. XXI.

Não vale sequer a pena pensar em gigantes como a Time-Warner. À dimensão portuguesa meia dúzia de grupos concentram nas suas mãos praticamente todos os meios de comunicação social e as infraestruturas de comunicação:
A Impresa (de Pinto Balsemão do PSD), detêm o Expresso, a Sic, Visão, Blitz, etc...
A Media Capital (do actual Ministro do Ambiente, Nobre Guedes, do CDS-PP) que detem a TVI, a rádio Comercial, Radio Cidade, Radio Clube Português, o IOL e (lembram-se?) comprou a rádio VOXX para acabar com ela...
O Grupo PT (controlado maioritariamente pelo Governo, pelo BES e pela Telefónica) que detem o JN, o DN, a TSF, o 24 Horas, o Sapo, a Telepac...
A Sonae.com (de Belmiro de Azevedo): Público, Novis, Miau, Clix, Optimus...


| Extintor Branco | Serralves | Março 2004 |

quarta-feira, julho 21, 2004

Disse há pouco a um amigo.

É uma puta de sensação de impotência a de não se ter tempo sequer para reflectir sobre aquilo que se faz. Longe de mim considerar estas fotos muito importantes, mas pelo menos chegar a essa conclusão depois de olhar para elas com olhos de ver.


| A Lena tem, desde a infância, pavor aos caretos | Podence | Fevereiro 2004 |

sábado, julho 17, 2004

Creio que nunca visitarei Lhasa.

«Aquele que viaja sem encontrar o outro não viaja, desloca-se. »
Alexandra David-Neel


| Carolina comendo maçã | rolo estragado por água quente | Trás-os-Montes | Fev 2004 |

quarta-feira, julho 14, 2004

Desconforto

É natural pensar na fotografia como uma forma de comunicação como qualquer outra, onde está envolvido um emissor e um receptor. Entre quem fotografa e quem observa uma imagem há uma distância que é física e temporal. Mas é também uma distância de interpretação e de entendimento, que é também uma distância de vivências. Nesse sentido o fotógrafo é um receptor especial da sua própria mensagem e em grande medida alguém que faz uma leitura das suas imagens diferente dos restantes.
Entendo isto como uma dificuldade quando procuramos prever qual a reacção que tal ou tal imagem provocará em quem as observa. É difícil tentar adivinhar a reacção, as interpretações e as emoções que alguém experimentará. Mas mais difícil é ao fotógrafo alhear-se da sua própria experiência pessoal e abstrair-se do momento que viveu, daquilo que sentiu e das recordações que a própria imagem lhe proporciona.
E é isso que me causa esta imagem. Um enorme desconforto. Outros verão nela outras coisas.

| Filho de Vendedores Ambulantes | Trás-os-Montes | 2004 |

quarta-feira, julho 07, 2004

Wu Ming

Direitos

O narrador que cumpra com o dever de refutar os estereotipos citados tem direito a ser deixado em paz por aqueles que enchem os seus bolsos propagando-os (cronistas da sociedade, papparazzis culturais, etc...). Qualquer estratégia de defesa das intrusões deve basear-se em não secundar a lógica. Em resumo, quem queira fazer-se divo, posando em insulsas sessões fotográficas ou respondendo a perguntas sobre qualquer tema, não tem nenhum direito a lamentar-se pelas intrusões.

O narrador tem direito a não aparecer nos meios de comunicação. Se um picheleiro decide fazê-lo, ninguém o atira à cara nem o acusa de snobismo.

O narrador tem o o direito de não converter-se num animal amestrado de salão ou num gossip literário.

O narrador tem o direito de não responder a questões que não considere pertinentes (vida privada, preferências sexuais e gastronómicas, costumes, etc...)

O narrador tem o direito de não se fingir especialista em qualquer assunto.

O narrador tem o direito de opôr-se com a desobediência civil às pretensões de quem (editores incluídos) queira privá-lo dos seus direitos.

Wu Ming
Verão de 2000.


| Carnaval | Podence | Fevereiro 2004 |

terça-feira, julho 06, 2004

Wu Ming

[continuação]

Deveres

O narrador tem o dever de não se crer superior aos seus semelhantes. Qualquer concessão à obsoleta imagem idealista e romântica do narrador como uma criatura mais sensível, em contacto com dimensões mais elevadas do ser, inclusivé quando escreve sobre absolutas banalidades quotidianas, é ilegítima.

No fundo, também os aspectos mais ridículos e circenses do ofício de escrever, baseam-se numa versão degradada do mito do artista, que se converte em divo porque se crê de algum modo superior ao "comum dos mortais", menos mesquinho, mais interessante e sincero, com um certo sentido heróico, pois carrega os tormentos da criação.

Que o estereótipo do artista "mortificado" e "atormentado" desperte maior interesse nos media e tenha maior peso de opinião que o esforço de quem limpa fossas faz-nos compreender em que medida a actual escala de valores está distorcida.

O narrador tem o dever de não confundir a fabulação, a sua principal missão, com um excesso de autobigrafismo obcessivo e de ostentação narcisista. A renúncia a estas atitudes permite salvar a autenticidade do momento, permite ao narrador ter uma vida para viver em vez de um personagem que interpreta por coacção.



| Marcha Mundial das Mulheres | 22 de Maio 2004 | Vigo |

Wu Ming

Notas para uma declaração de direitos (e deveres) do narrador.
[Traduzido do Castelhano]

Preâmbulo
Quem é o narrador e quais são os seus deveres e direitos?

O narrador (ou narradora) é aquele que conta histórias e recria mitos, conjuntos de referências simbólicas partilhadas - ou pelo menos conhecidas e, se fôr o caso, postas em discussão - por uma comunidade.

Contar histórias é uma actividade fundamental para qualquer comunidade. Todos contamos histórias, sem histórias não teríamos consciência do nosso passado nem das nossas relações com o próximo. Não haveria qualidade de vida. Mas o narrador faz do contar histórias a sua actividade principal, a sua "especialidade"; é como a diferença entre o hobby da bricolage e o trabalho de carpinteiro.

O narrador recupera - ou deveria recuperar - uma função social comparável à do griot nas aldeias africanas, a de bardo na cultura celta ou a do aedo no mundo clássico grego.

Contar histórias é um trabalho peculiar, que pode trazer vantagens para quem a desenvolve, mas é sempre um trabalho, tão integrado na vida da comunidade como apagar incêndios, arar os campos, apoiar deficientes, etc...

Noutras palavras, o narrador não é um artista, mas um artífice da narração.

[continua]


| Alcazar | Sevilha | 2003 |

sábado, julho 03, 2004

O ser humano.

Capaz de se adaptar a qualquer ambiente. Sobrevive nas condições mais adversas. Misteriosamente.

| Lisboa | Junho 2004 |