sexta-feira, março 31, 2017

As asinhas ficaram em casa.

Esta manhã, na habitual tragédia viária em que se transformaram as ruas de Bruxelas, à saída de um cruzamento, um carro aguarda a sua vez para poder entrar na rue de la Loi. Atrás dele outro carro. À frente dele outro carro. Atrás daquele outro carro, um autocarro e lá dentro um motorista poeta. Ou não exactamente, antes poeta-melómano.

Aquele tempo de espera na bicha, aquele compasso lento e doentio é algo que é mais do que expectável. É um fado diário. Sentado no seu posto de trabalho, o motorista sabe o que o espera: semáforos verdes e viaturas com um único ocupante. E tempos de espera.

Ainda assim, perante tudo aquilo o motorista decide tocar a corneta do autocarro. Impávidos os carros não reagem. Mas na sua cabeça o motorista imaginou que aquela corneta soaria para os peões que pedonavam como se fosse o último álbum da Enya e não como aquilo a que soou: o barulho de uma besta atrás de um volante.

Mas imaginou ainda melhor: lentamente e ao som da música, asas ligeiras, leves, claras e felpudas, abrir-se-iam lentamente dos lados de cada um dos automóveis à sua frente, permitindo assim que a rue de la Loi se transformasse no habitat de bandos de pássaros futuristas transportando formiguinhas a caminho das suas 8 horas diárias. A música tocando continuamente enquanto o fluído avícola o libertava da pena de conduzir diariamente, sob uma nunca nomeada tortura, aquela pequena máquina chamada autocarro.

Ninguém lhe enfiou uma bofetada nas ventas. Bastou que o semáforo voltasse a ficar de novo vermelho.

| hora das sandes | bruxelas | bélgica | 2017 |

terça-feira, janeiro 19, 2016

2 anos depois.

Janeiro de 2014. Fecho os olhos. Acabou-se o ALT. Algures nos Estados Unidos um disco duro apaga-se para sempre. Tenho lá escritos, muita parvoíce pegada, alguns amigos. Os discos são feitos para se apagarem. Os servidores serão todos enterrados num dia qualquer ainda por definir com exatidão. Mas no dia em que nos apagarmos nós próprios, nenhum servidor poderá saber aquilo que nos tocou numa noite às escuras. Um bébé que chora, um telefonema a anunciar a morte de um amigo, um relâmpago que dispara os disjuntores do quarteirão, uma mãe que decide cruzar um braço de mar com o seus filhos nos braços, um servidor desligado com gente lá dentro. Tudo esquecido no turbilhão da eternidade.

No dia seguinte, no entanto, que ninguém se engane: todos os despertadores tocarão indiferentes e a máquina de triturar gente continuará a trabalhar lentamente.


| Porto | Serralves | Janeiro 2014 |

sexta-feira, abril 17, 2015

Telescola em directo para o Parlamento

Luís Montenegro, radiante, explicava há pouco, metendo os pés pelas mãos, algo que deveria ser surpreendentemente simples para uma criança de 11 anos.

Diz o seguinte, o líder da bancada parlamentar do PSD, que é um dos esclarecidos dirigentes deste país:

"Nós agora temos um programa onde está previsto (...) que em 2016 a nossa economia vai crescer 1,6%, em 2017 vai crescer 2%, em 2018 e 2019 vai crescer 2,4%. Isto significa que em 4 anos temos uma projecção de crescimento de 8,4% do nosso produto." (ao minuto 05:25)

Eu ouvi isto em directo (obrigado TSF) e não pude acreditar naquilo que ouvia. Estou certo que devo ter sido uma das quatro ou cinco pessoas deste país a ficar incrédulo. E não me admira que o país esteja como está, com este tipo de apreciação da realidade.

Estou a imaginar-me a dever dinheiro a este senhor. Seria uma maravilha. Ora vejamos. Ele empresta-me 100.000€ a uma taxa de juro de 5% ao ano. Eu digo-lhe então:
-Sr. Luís Montenegro, daqui a 4 anos, pago-lhe 20% de juros, logo 120.000€. É isso não é?
-Está certíssimo Sr. JoaoLuc!

Em resultado da capacidade de cálculo do nosso líder parlamentar, ficaria a ganhar com esta manobra mais de 1.500€.

Este tipo de analfabetismo é muito grave. Vejamos o que acontece sempre que se discute p.ex. o aumento dos salários. Analisemos a hipótese de alguém que teve o salário congelado durante 4 anos.

Se a taxa de inflação média for de 3,5%/ano, qual é a perda efectiva de poder de compra? 14% responderá Luís Montenegro ou um sindicalista mais distraído. Aumentamos os salários 14% e ficamos quites, ok? E lá iam 0,75% de poder de compra para o espaço (mais de 100€/ano, num salário de 1000€).

Bem sei: tudo isto é mais chato que uma emissão da telescola e muito menos interessante que um gatinho do facebook. Eu próprio já estou a precisar de um café. Cheguei a pensar fazer isto com juros de empréstimos entre amigos e apartamentos comprados a crédito em Paris, mas dava imenso trabalho e alguém ainda podia levar a mal. Alegadamente.


|entre a STIB e uma galeria comercial ou vice-versa | bruxelas | 2015 |

quarta-feira, novembro 12, 2014

Teoria de classes.

Começa a caminho da escola. De uma escola qualquer. Também pode ser no regresso. Pode chover ou estar calor. Pode ser em Portugal ou em Luanda. Pode voltar a acontecer mas também pode nunca ter acontecido.

"Mas há mesmo ladrões, pai?" "Pois claro, olha o vidro do carro do pai da L. ali partido."

Com um certo delírio, o homem começa a explicar: há vários tipos de ladrões. Os que partiram o vidro do carro, provavelmente roubaram qualquer coisa que encontraram dentro do carro. O vidro deve ser mais caro do que aquilo que roubaram. Tudo normal? Ok, mas o homem continua. Esses ladrões vivem aqui perto e roubam coisas que valem pouco dinheiro. E podem ser perigosos. Mas não são os que mais roubam. Os que mais roubam são outros.

"Quem?" - pergunta a criança. Ou façam de conta que pergunta. Ou perguntem vocês.

Há homens que parecem pessoas muito importantes, andam bem vestidos, mandam em muita gente e controlam bancos, câmaras municipais, grandes empresas e outras coisas muito importantes. E como podem fazer tudo que lhes apetece, roubam muito mais dinheiro. E esses não parecem ladrões. Não partem vidros. E ninguém sabe o que eles roubam.

Isto estava já a afastar-se um pouco da realidade terrena. Não havia qualquer necessidade de entrar tão rapidamente nas camadas altas da atmosfera. Portanto, surge a pergunta que se impõe para acabar com o delírio:

"-Mas então porque é que andam bem vestidos?"


| furadouro | outubro 2014 |

terça-feira, novembro 11, 2014

História com final infeliz

A senhora acordava todas as manhãs. A senhora acordava mas era sempre um pouco tarde. Porque o despertador das outras senhoras também as acordavam à mesma hora. Ou a outra hora. Mas todas saíam de casa à mesma hora. Mas nenhuma delas usava o autocarro ou o metro. Nos seus automóveis dirigiam-se para onde haviam de se dirigir.

A senhora tinha uma filha. Mas o carro não tinha onde parar. A filha tinha uma escola e havia que sair do carro todas as manhãs. E havia um certo atraso, por causa daquilo do despertador das outras senhoras. Ou do trânsito. Ou da chuva. Ou da própria filha que desrespeitava o tique-taque como se de uma mera convenção se tratasse. Era o mundo todo contra o resto do mundo todas as manhãs.

E ali à porta da escola, não havia grande alternativa. O carro só podia ficar em cima do passeio. As ruas estreitas, os despertadores, as horas, tudo isso a forçava a deixar o carro em cima daquele passeio. Ela preferia não o fazer. O ideal seria que houvesse um lugar livre todas as manhãs à sua espera. Infelizmente não era o caso. Ainda por cima, o espaço em cima do passeio era exíguo, obrigava a manobras. Pisca-pisca, chega à frente, chega atrás, chega outra vez à frente, pisca-pisca.

Num dos "chega-atrás" ela não viu uma criança que estava por trás do carro. E o carro lá a empurrou. O pai da outra criança bateu-lhe três vezes com as mãos no carro. E ela, como nem se apercebeu que havia batido na criança, ficou infeliz. Ou outra coisa qualquer que lhe mexeu com os nervos. Pobrezinha.


| foge foge | novembro 2014 |

quarta-feira, abril 16, 2014

Entroido 2014

Mais um diaporama. Parece-me que isto vai mesmo sem grande palavreado.
Ainda assim, são as fotos de Laza.
No carnaval de 2014.
São melhor apreciadas se ocuparem o ecran todo (canto inferior direito) e se o som estiver bem alto.

quinta-feira, abril 10, 2014

Que a terra lhe seja leve.

Este texto, não exactamente este, mas uma versão com um pouco mais ou menos nexo, foi escrita há uns tempos para o projecto de um amigo. Esta é a versão possível.
 
"«Impalpàbile», além de impalpável, significa em italiano «em pó». No início de Janeiro, cumprindo um ritual repetido durante anos, verifiquei que não tinha acesso ao fotoalternativa. Por diversas razões, esse ritual tinha esmorecido e nesse mesmo dia fiquei a saber que o site havia acabado.
(...)
 
O Alt é uma das coisas importantes da minha vida. Deu-me grandes amigos, viagens do caneco, noites em frente ao ampliador, gargalhadas de me pôr com asma e muita fotografia. E muito boa. E de uma auto-exigência implacável.
 
O Alt é uma parte impalpável da minha vida. Desconhecidos a quem mostro fotografias da minha intimidade sem hesitar um segundo. Pessoas com quem gosto de discutir opiniões opostas, por respeito mútuo. O Alt é como a uma família longínqua, que vejo uma vez cada dois anos, mas com quem converso com gosto como se apenas tivessem passado três dias.
 
Antes era impalpável, agora ficou desfeito em pó. Metaforicamente, parece-me. (...)
"
 
Naquela que é a entrada 500 deste blogue, parece-me adequado dedica-la ao Alt.
 

| laza | entroido | 2014 |

quarta-feira, abril 09, 2014

E isso não se explica

Há coisas na vida que não se explicam a terceiros. O que é a paixão assolapada. O que é querer dormir e não conseguir. O que é uma dor de dentes. O que é o carnaval de Laza.
Mas pode sempre dizer-se que a vida sem isso é um bocadinho menos vida. Isso não explica, mas ilustra.

| não, não é a morena | laza | entroido | 2014 |

quinta-feira, março 06, 2014

Isto já esteve para fechar

Mas a vida prosseguiu. E num dia de sol, decidiu chover. Ou foi num dia de inverno que decidiu ventar. Ou num dia qualquer voltou a fotografar. Mas era com o telemóvel. Depois acabou-se a bateria e foi ver televisão num blogue. Ou era noutra coisa parecida.
Hã?

| entroido | xinzo das teixugueiras | março 2014 |

quarta-feira, novembro 06, 2013

Mas o blogue não era meu

Tive durante muitos anos um blogue brilhante. Já vos disse? Era um blogue que comentava todos os temas da actualidade. Eu sabia de economia e futebol à segunda. Discutia literatura e licenciaturas de políticos xungas à terça. Mostrava brilhantismo a falar de música underground americana e puericultura. Eu era um exemplo de virtudes e o mundo à minha volta ruía em defeitos e decadência.

Até que o blogue morreu. É que o blogue não era meu. E eu não era eu.

Havia outro muito mais fraquinho. Sem brilhantismo nenhum. Como eu. Mas esse não morreu. Digamos que está em êxtase. Como eu.

(Por causa da Lígia)

| entroido | laza | março 2013 |