domingo, dezembro 26, 2004

Não é costume praguejar.

Caralho lá para os desejos de bom natal.
:)


| hãhã | 24 de Dezembro de 2004 |

sábado, dezembro 25, 2004

Vende-se. Ano 2017.

Não posso deixar de sorrir sobre o quão vou andar entretido daqui até 20 de Fevereiro. Depois entreter-me-ei a inserir fotos nos sites mais obtusos até ao ano 2009. Nessa altura procurarei finalmente baixa psiquiátrica, o que me permitirá ficar em casa a estudar uma forma expedita de factorizar números primos e assim quebrar os códigos RSA.

Em 2017 venderei finalmente todo o material analógico. A Pentax terá já sido comprada pela Nikon e extinta enquanto marca comercial. O valor das relíquias será usado para comprar uma antena capaz de recolher a radiação de fundo do universo. Até à minha morte procurarei aperfeiçoar os algoritmos que permitem analisar esse ruído, gerando imagens. Vocês não terão o previlégio de as observar antes de todos os outros.


| Branda | Braga | Dezembro de 2004 |

terça-feira, dezembro 14, 2004

2009

Penso em 2009. Penso em 1995. Penso na primeira vez que votei. Penso em 2009. Penso no país descrito por Eça e Antero. Tenho 2 meses para ser feliz de imaginar um país diferente. 20 de Fevereiro de 2005. Um dia qualquer de 2009. O mesmo país. As mesmas pessoas. As mesmas mentiras. O mesmo jogo de faz de conta. Falta bastante para 2009. Quantos anos terei?

Tortura é observar pacientemente o desfilar dos dias no balançar tranquilo em que o país adormece todas as noites.

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| Eleições | Adolfo Dias | 2004 |

segunda-feira, novembro 29, 2004

Compro-te a vida.

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Eduardo tinha aprendido com os pais que a privacidade da sua casa era o último reduto da sua intimidade. Para lá da porta de entrada ficava um espaço de certo privilégio, onde apenas determinadas pessoas tinham acesso.
*
Pensa bem Eduardo... O número de telefone lá de casa. Pensaste bem nisso, Eduardo?
#
Eduardo aprendeu que o exercício da amizade era um momento de expressão do genuíno.
*
Eduardo, pega na agenda. Eduardo usa-a em nome de qualquer coisa. Qualquer coisa mascarada de amizade.
#
Tudo bem? Sim, há quanto tempo! Sim, temos que combinar qualquer coisa um destes dias. Pois é, temos que marcar. Olha, estou-te a ligar por causa de uma promoção de Natal.
*
Eduardo deixou-se comer. O seu amigo não. Cada qual vende o que entende.


| Pá, gosto desta foto | Montreal | 2004 |


quarta-feira, novembro 24, 2004

... have fun in life.

Toronto, fim da tarde de Domingo. Segundo dia de viagem. Atravesso a rua no semáforo. Um autocarro está parado a meio da rua. A C continua. Abro a lente para 19mm centro o bixo e penso: «que se foda a sombra, que se foda o motivo. Como andas joaoluc: agora até fotografas autocarros.» - disparo. O motorista chama-me com uma cara muito séria:

[em inglês agora]

« -eu não faço pose. Sabe que eu não faço pose?
-tudo bem, só apanhei o autocarro.
-mas faço pose se ela pedir.»

Ele aponta a C e abre o sorriso. Silêncio. Todos nos rimos. Gesticula para nos chamar, abre a porta do autocarro e pede para entrarmos. Assim é. Já não atravessamos a rua. Pára o autocarro 20 metros depois, liga os quatro piscas e faz-nos sentar (a mim e à C) ao volante, tendo disparado ele próprio 3 fotos em que nos disse de que maneira queria que estivessemos - uma das quais uma simulação de agressão ao motorista, naturalmente estragada pelas nossas expressões divertidas.

Começamos a sair do autocarro:
«-Não é suposto evidentemente que eu faça nada disto, mas sabem como é, temos que nos divertir na vida.
-Já agora, como se chama?
-Doug.
-Doug?
-Sim. Bem vindos ao Canadá! Divirtam-se.»


| Doug | Toronto | Agosto 2004 |

Sem explicação.


| Manipulação | Toronto | Agosto 2004 |

segunda-feira, novembro 22, 2004

Entre um bife e uma costeleta de porco.

«A culpa é de todos, a culpa não é de ninguém, não é isto verdade? Quer isto dizer, há culpa de todos em geral e não há culpa de ninguém em particular! Somos todos muita bons no fundo, né? Somos todos uma nação de pecadores e de vendidos, né? Somos todos, ou anti-comunistas ou anti-fascistas, estas coisas até já nem querem dizer nada, ismos para aqui, ismos para acolá, as palavras é só bolinhas de sabão, parole parole parole (...)»

Não posso esconder que me incomoda uma atitude simpática e condescendente que tende a mitificar determinado tipo de organizações da esquerda revolucionária. Como se determinados faróis do comunismo não fossem mais sinistros do que a maior parte das democracias burguesas. Como se fosse possível em 2004 defender a sinistra República da Coreia do Norte. Como se fosse possível em 1975 defender a Albânia ou a poesia dos campos de educação pelo trabalho do regime chinês. Fazê-lo é, em qualquer momento, sinistro.

[passa-me aí as batatas fritas.]

Não se trata sequer de uma atitude de sectarismo. É um dever de lucidez que devemos ter connosco próprios e com os valores em que acreditamos.

[pagamos? a conta vem sempre no fim...]

Somos todos gajos muito porreiros. Nunca ninguém fez mal a ninguém. O que lá vai lá vai, não é? Porque é que havemos de falar dessas coisas agora? Porque é que havemos de o fazer? Isso agora não interessa para nada...

[barato, não foi?]


| mão na massa | gajo raro | Novembro 2004 |

quarta-feira, novembro 17, 2004

Vou ali e já venho

Há anos atrás, na selva Lancadona - sudeste mexicano - uma das mais criativas declarações políticas da actualidade descrevia el sub-comandante Marcos como todos os explorados, todos os oprimidos, todos os discriminados. Todos couberam desde então debaixo daquele capucho negro. O coração de muitos tinha, em 1994, como capital Chiapas. Mas isso das capitais não é coisa que na verdade faça muito sentido. E os corações podem por isso multiplicar as suas capitais como outras tantas paixões.
De Chipas para Dili podemos por isso viajar em questão de segundos. Tal como de Porto Alegre para Génova. Ou de Seattle para Mumbai. Em 2004, foi Londres quem recebeu este povo global. O Movimento dos Fóruns - surgido no Brasil em 2001 - procura, desde então, juntar num espaço comum movimentos e cidadãos das mais variadas origens culturais, geográficas, ideológicas e políticas. Um espaço de encontro, de debate, de organização e resistência a uma ordem internacional baseada na subjugação económica do hemisfério sul, na pilhagem ambiental do planeta, no militarismo e na guerra.
Cada um destes momentos é uma afirmação de um princípio óbvio, e que na actualidade é particularmente subversivo. A ideia de que um outro mundo é possível.


| Manifestação | Fórum Social Europeu | Londres | Outubro 2004 |

quinta-feira, novembro 11, 2004

Abre os olhos.

Acordar, acordar, acordar. Abre os olhos diria o gajo do filme. Põe-te em pé, não és tu. Sim é o outro. Anda, mexe-te. Tens 35 minutos para fazer a barba, enfiar um pão mal torrado goela a baixo e arrastares o cú até à paragem do autocarro. Corre. Olha o autocarro ao longe. Voltaste a atrasar-te. Cumprimenta o barbeiro. Sê bem educado. Cuidado ao atravessar a rua. Corre mais um pouco. Ok. Chegarás a horas. A máquina espera por ti. Por ti não, por esse cartão que transportas na carteira. Bom trabalho – dirá ela por entre um apito estridente. Abstrai-te do que és. És servil. Comporta-te como é esperado. Sê natural. Opina conforme manda a norma e serás próactivo, assertivo ou outra merda qualquer. Opina contra a norma e serás conflituoso. Ok? Ok. Vai comer. Fritos? Sim fritos. Há outras coisas. É mais caro... Pois, é mais caro. Que se foda. Morrerás cedo. Que interessa isso? Não sejas conflituoso. Não corras. No regresso a casa os autocarros atrasam-se sempre meia-hora. Para quê correr? Em casa a máquina não te espera. A cidade está cheia de gente sem máquinas à espera. Não é bem assim. Todos sabemos que não é bem assim. Pela nossa casa a dentro entra a mesma máquina que nos esperará amanhã de manhã. De manhã pagam-te para a usares. À noite pagas para a usar.
É a vida minha senhora. Pois é. Vamos andando. Tem que ser. Tem que ser.


| N.A. | algures a sul do douro e a norte do vouga | 2004 |

sábado, novembro 06, 2004

Peidos e Artistas.

Não me agrada a forma habitual com que se procura parecer aquilo que se não é. Um padrão global de hipocrisia generalizada que promove seres que a todo o custo se tentam libertar da sua humanidade para atingir o patamar dos deuses.

Gosto de ir jantar com os amigos até ao Bairro Alto e fazer o percurso a pé até ao Largo do Carmo aos peidos. Mais aprecio verificar que o corrector ortográfico desconhece o plural da palavra. Como se o peido não tivesse direito à sua pluralidade.

...a propósito do Land of Plenty, do Wim Wenders; não é preciso presunção para se fazer cinema com inteligência. Há coisas que fazem mais sentido separadas.


| A Cidade Subterrânea | Montreal | Setembro 2004 |

terça-feira, novembro 02, 2004

Recordações da América

A guerra global em que vivemos tem uma característica muito curiosa. É até certo ponto encarada com uma macabra naturalidade por uma grande parte da população do planeta. Por outro lado foi capaz de gerar a maior oposição alguma vez verificada a nível mundial. As maiores manifestações foram curiosamente as de Londres e Nova York.

Os mortos dos ataques às torres nova-iorkinas são usados diariamente para justificar a violência sobre onde quer que os mísseis estejam apontados. As questões que a população de Nova York procura responder desde 11 de Setembro de 2002 são outras.

Se a guerra tocou pela primeira vez solo norte-americano, então quando começou essa guerra? Porque começou ela? Mas mais importante que isso...
Como poderá acabar-se com ela?


A resposta não será no entanto encontrada esta semana.


| O Moreira à espreita | Manifestação Mundial contra a Guerra | Porto | 15 de Fevereiro de 2003 |

sábado, outubro 23, 2004

Gente sem lugar

Há evidentemente muitos invisíveis nas nossas vidas. «Evidentemente» não será talvez o termo mais correcto. Se assim fosse, invisíveis não seriam. Esta história passa-se em Canary Wharf, Londres, grande centro financeiro mundial, onde os parques de estacionamento estão cheios de carros que valem mais do que aquilo que muitos amealharão ao longo de uma vida. Os grandes arranha-céus – imponentes e muito apreciados – são limpos por mulheres imigrantes que deles se ocupam invisivelmente (pois claro) no momento em que todas as gravatas abandonam o edifício. O seu salário é inferior ao salário mínimo. O horário de trabalho é próprio dos tempos da revolução industrial. A sua vida estará muito distante do conforto proporcionado por um BMW série 7. Tudo isto é repugnante e, bem vistas as coisas, até mesmo ilegal. No entanto nada disto preocupa grandemente quem de direito, atrevo-me até a dizer que tudo isto lhes serve muito bem...
O que faz então a lei nestas circunstâncias? Proíbe a visibilidade destas mulheres e repreende a sua capacidade organizativa. Ao permanecerem invisíveis é como se nem sequer existissem e os números da bolsa podem continuar no seu sobe e desce nos grandes prédios de vidros espelhados.

Há quem procure justificar a sua existência. Há gente que procura apenas o direito a existir. Os primeiros fazem parte dos filmes do Woody Allen. Os segundos fazem parte dos filmes do Ken Loach.


| Canary Wharf | Londres | 15 Outubro 2004 |

sábado, outubro 09, 2004

Maria do Patrocínio Ranção

Mais conhecida na terra como a Rançona.
Reza a um fanático integrista.
Procura convencer os restantes da sua benevolência.
Abarbata-se a meia dúzia de fotos com uma desculpa filial.
O seu sucesso nesse domínio não resulta da minha simpatia pelo referido fanático.
Rais partam as religiões.

A Arménia é muito longe, apesar de na América me considerarem caucasiano.


| A Rançona e o seu santinho | Julho 2004 |

quinta-feira, setembro 30, 2004

Portugal hoje

No final do séc. XV, ainda no início do processo de dominação colonial do hemisfério sul, os arquipélagos ibéricos do atlântico mantinham uma importância estratégica para as rotas marítimas que passariam a assegurar a ligação com os recém-colonizados territórios africanos e americanos. As pequenas ilhas garantiam abrigo e mantimentos aos navios que faziam o triângulo escravos – ouro, prata e açúcar – metrópole. Evidentemente nada disto garantia o desenvolvimento dessas ilhas - tão pouco dos reinos católicos como se confirmaria tempos mais tarde.

Numa curiosa coincidência, no início do séc. XXI, naquilo que é o início de uma nova dominação colonial do planeta, o pequeno arquipélago dos Açores foi bafejado pelo acaso de acolher os mais poderosos líderes mundiais. Um par de idiotas anglófonos. Da península (das antigas potências mundiais) vinha um terceiro convidado e um sorridente anfitrião. Um par de palonsos esforçando-se por aparecer na fotografia. De novo as longínquas ilhas davam segurança e poder. Não como protecção dos elementos ou das enormes distâncias atlânticas. Os quatro engravatados apenas se escondiam dos seus concidadãos.

Evidentemente nada disto garante o desenvolvimento dessas ilhas. Ali ao lado, na freguesia de Rabo de Peixe, a mais pobre freguesia portuguesa e certamente uma das mais pobres da Europa “civilizada” a vida continua normalmente. Sem grandes diferenças daquela que seria a vida no final do séc. XV. Relembrar o velho provérbio marxista - «um povo que oprime outro, não é um povo livre» - pouco conforto dará a iraquianos ou a açoreanos. Aliás porquê falar em tudo isto? Saberão os pescadores açoreanos onde é a Babilónia? Saberão os famintos de Bagdade onde é a ilha Terceira?

As ilhas são apesar de tudo um bom sítio para se viver. Há sol, bom peixe e bandeiras à janela.

De longe a longe lá aparecem câmaras de televisão com ligações satélite.


| Os putos de Rabo de Peixe | S. Miguel | Açores | Junho de 2003 |

terça-feira, setembro 28, 2004

Aos saltos para trás.

Há poucas coisas capazes de mobilizar massivamente um país. Historicamente esses momentos representam grandes saltos. Pontos de ruptura numa continuidade inerte. Será talvez necessário reformular a teoria. Empiricamente 2004 assim obriga.

Este ano que vivemos tem por isso muito interesse. Perdeu-se poder de compra, temos o IVA mais alto das redondezas, os hospitais estão a meio caminho da privatização, as universidades a tinir, escolas sem professores. As matas já não ardem porque já arderam. No entanto este foi um ano de grandes festejos. Unânimes, massivos, apaixonados e ubíquos. Os portugueses encontraram-se nas ruas a festejar tudo aquilo que não tinham.

Três meses depois o ministro das finanças explica em tom solene num directo televisivo aquilo que já todos perceberam: o orçamento de estado é como os orçamentos domésticos; gasta-se mais do que o que se tem e por isso há que cortar nas despesas supérfluas. P.ex. em casa cortar na mesada das crianças para se poder continuar a ter televisão por cabo. O que conta são as aparências. Bons carros, belos estádios, grandes centros comerciais e os desempregados fora dos bairros sociais. Desempregados? Que desempregados?

Há sol, boa comida e bandeiras à janela. Isso sim.
:)


| Covas | V.N. de Cerveira | Agosto 2004 |

segunda-feira, setembro 13, 2004

Empurre, sff.

A propósito de um monólogo paralelo

Tudo corre bem, sim. Há sol e boa comida. As pessoas cruzam-se sorridentes num país solarengo. Trocam-se palavras afáveis, conversa-se agradavelmente sobre a rotina de cada um. O emprego, as férias, os filhos, o tempo. As gentes são simpáticas, bem dispostas e animadas. Tudo corre bem, sim. Há sol e boa comida. Dois em cada 10 portugueses encontram-se em "risco de pobreza" segundo o relatório da agência Habitat das Nações Unidas, o segundo valor mais alto da União Europeia.

Tudo corre bem, sim. Há sol, boa comida e bandeiras à janela.


| Guarany | Porto | Março de 2004 |

quinta-feira, agosto 12, 2004

terça-feira, agosto 10, 2004

Qué?

Em 1980 os Clash publicam no seu album Sandinista a música Washington Bullets. Ouço-a 24 anos depois e pergunto-me se daqui a 24 anos poderei estar a referir-me ao Fahrenheit 9/11, como se se tratasse de uma peça arqueológica, para reflectir sobre as evidências da actualidade política internacional.

Oh! Mama, Mama look there!
Your children are playing in that street again
Don't you know what happened down there?
A youth of fourteen got shot down there
The Kokane guns of Jamdown Town
The killing clowns, the blood money men
Are shooting those Washington bullets again

As every cell in Chile will tell
The cries of the tortured men
Remember Allende, and the days before,
Before the army came
Please remember Victor Jara,
In the Santiago Stadium,
Es verdad - those Washington Bullets again

And in the Bay of Pigs in 1961,
Havana fought the playboy in the Cuban sun,
For Castro is a colour,
Is a redder than red,
Those Washington bullets want Castro dead
For Castro is the colour...
...That will earn you a spray of lead

For the very first time ever,
When they had a revolution in Nicaragua,
There was no interference from America
Human rights in America

Well the people fought the leader,
And up he flew...
With no Washington bullets what else could he do?

'N' if you can find a Afghan rebel
That the Moscow bullets missed
Ask him what he thinks of voting Communist...
...Ask the Dalai Lama in the hills of Tibet,
How many monks did the Chinese get?
In a war-torn swamp stop any mercenary,
'N' check the British bullets in his armoury
Qué?
Sandinista!



| Chapéu de Palha | Fisgas do Ermelo | Julho 2004 |

terça-feira, agosto 03, 2004

Copyleft

A divulgação da fotografia amadora é em Portugal algo de inexistente. Quando comparada com a poesia, a escrita, a banda desenhada ou outras formas expressivas, verifica-se que nem sequer um circuito de distribuição de publicações alternativas existe. Observando aquilo que se passa na web o panorama é um pouco diferente.

Várias linhas podem ser encontradas, desde os sites pessoais onde diversos fotógrafos amadores e profissionais expõem os seus trabalhos, passando por portais interactivos (fotoalternativa, escrita com luz, fotojornalismo) que funcionam como mecanismos de colaboração, de exploração, experimentação e exposição de trabalhos. Para muita gente, tal como para mim, estes contactos e estas experiências são determinantes na procura de uma linha, de uma abordagem, de aperfeiçoamento técnico mas também como forma de cooperação e de conhecimento com gente que partilha a mesma paixão.

A inexistência de publicações de divulgação de fotografia ou até de mecanismos cooperativos entre fotógrafos é sintomático da lógica de funcionamento vigente. Uma lógica empresarial e comercial. Se excluirmos os nomes sonantes da fotografia (eles próprios já um sub-produto comercial) os próprios profissionais estão de alguma forma limitados na divulgação dos seus trabalhos a meia dúzia de concursos e/ou espaços. O facto de qualquer publicação que envolva fotografia exigir uma qualidade de impressão satisfatória faz crescer os custos e limita as possibilidades de criação de circuitos não comerciais. Quem quer que queira fazer algo mais coerente ou tem massa ou tem muito que foçar, lamber cús e pedir esmola...

A divulgação da fotografia amadora pode subverter esta lógica. Fazer com que criemos um mecanismo de divulgação que apoie e/ou seja apoiada numa rede de publicações alternativas, amadoras, jornais universitários, fanzines, publicações virtuais ou o que fôr.

Criando um movimento de fotógrafos que coloque as suas imagens no domínio do copyleft (por oposição ao copyright) é algo de fundamental. A discussão é complexa, tem muitos nuances mas significaria basicamente que as fotos não podem ser usadas com fins comerciais e podem ser usadas desde que seja sempre mencionado o autor e desde que o resultado desse uso caia também no domínio do copyleft. É um efeito de espiral e de apoio mútuo, onde os direitos são sempre guardados pelos autores, proibindo-se no entanto a rapina.

Uma explicação simples destas regras pode ser consultada no site da creative commons.


| sei de quem são as mãos | sei o local | não sei a data |

segunda-feira, agosto 02, 2004

Voyeur de olhos fechados

É o observar da intimidade que define o voyeur.
No entanto não é essa exposição pública que me atormenta. O que verdadeiramente me atormenta é fotografar de olhos fechados. Por momentos esqueci-o.


| O armário da Tia Lídia | Trás-os-Montes | Julho 2004|

quinta-feira, julho 29, 2004

Interior

De 1 de Julho a 29 de Agosto, em Podence (Concelho de Macedo de Cavaleiros) na Casa do Careto pode ser visitada a minha exposição e do António Paulo Duarte. É uma variação da mesma exposição que esteve no JUP, no Porto. Não vale a pena ir lá de propósito, a menos que queiram encher o bandulho com uma boa posta à Mirandesa.
;)


| Carnaval | Podence | Fevereiro 2004 |

segunda-feira, julho 26, 2004

Copyleft

Fazer uma fotografia, publicar um texto ou escrever um programa de computador implica sempre (pelo menos) um autor que em nome deste seu acto maternal de criar algo, deseje ver consagrados alguns direitos. Como é natural diferentes pessoas guardam sobre os seus direitos diferentes visões e diferentes entendimentos.

A forma como estes direitos ganham corpo de lei faz com que sejam entendidos de forma absoluta, ou seja, é o estado quem determina os "direitos" existentes sobre as obras, ainda que os autores discordem desses mesmos "direitos". Um exemplo acabado do que referi é a norma imposta pela comissão europeia às Bibliotecas Públicas, exigindo a cobrança de taxas pelo empréstimo domiciliário das obras.

O que casos como este tornam evidente é que os direitos de autor são em geral os direitos das editoras que controlam os circuitos de distribuição e a cadeia de valor do chamado mercado cultural. Em circunstância alguma os "autores" são chamados no que diz respeito a estas regras impostas por uma lógica de propriedade intelectual que nega o saber colectivo, a circulação livre de ideias (e portanto de forma não taxada) dentro de uma sociedade e em que os próprios autores tenham o direito de abdicar de determinados "direitos", abdicando por exemplo da crença neoliberal em que o conhecimento (e sobretudo o acesso a ele) é uma mercadoria.

São grandes grupos editoriais, que agrupam televisões, jornais, editoras discográficas e livreiras (os produtores de "conteúdos"), empresas de telecomunicações e de dados (os distribuidores de "conteúdos") que consideram esta mercadoria como uma das mais valiosas e entre aquelas que mais deve ser protegida, de todas as formas possíveis. Seja criando legislação mais e mais restritiva (vide as patentes de software na europa), seja criando mecanismos que bloqueiem as redes de partilha existentes entre utilizadores - onde o caso mais famoso é o do napster. A tudo isto não será certamente alheia a concentração voraz que se verifica nestes meios nem o apetite dos mercados financeiros em tornar estes grupos os centros da especulação do sec. XXI.

Não vale sequer a pena pensar em gigantes como a Time-Warner. À dimensão portuguesa meia dúzia de grupos concentram nas suas mãos praticamente todos os meios de comunicação social e as infraestruturas de comunicação:
A Impresa (de Pinto Balsemão do PSD), detêm o Expresso, a Sic, Visão, Blitz, etc...
A Media Capital (do actual Ministro do Ambiente, Nobre Guedes, do CDS-PP) que detem a TVI, a rádio Comercial, Radio Cidade, Radio Clube Português, o IOL e (lembram-se?) comprou a rádio VOXX para acabar com ela...
O Grupo PT (controlado maioritariamente pelo Governo, pelo BES e pela Telefónica) que detem o JN, o DN, a TSF, o 24 Horas, o Sapo, a Telepac...
A Sonae.com (de Belmiro de Azevedo): Público, Novis, Miau, Clix, Optimus...


| Extintor Branco | Serralves | Março 2004 |

quarta-feira, julho 21, 2004

Disse há pouco a um amigo.

É uma puta de sensação de impotência a de não se ter tempo sequer para reflectir sobre aquilo que se faz. Longe de mim considerar estas fotos muito importantes, mas pelo menos chegar a essa conclusão depois de olhar para elas com olhos de ver.


| A Lena tem, desde a infância, pavor aos caretos | Podence | Fevereiro 2004 |

sábado, julho 17, 2004

Creio que nunca visitarei Lhasa.

«Aquele que viaja sem encontrar o outro não viaja, desloca-se. »
Alexandra David-Neel


| Carolina comendo maçã | rolo estragado por água quente | Trás-os-Montes | Fev 2004 |

quarta-feira, julho 14, 2004

Desconforto

É natural pensar na fotografia como uma forma de comunicação como qualquer outra, onde está envolvido um emissor e um receptor. Entre quem fotografa e quem observa uma imagem há uma distância que é física e temporal. Mas é também uma distância de interpretação e de entendimento, que é também uma distância de vivências. Nesse sentido o fotógrafo é um receptor especial da sua própria mensagem e em grande medida alguém que faz uma leitura das suas imagens diferente dos restantes.
Entendo isto como uma dificuldade quando procuramos prever qual a reacção que tal ou tal imagem provocará em quem as observa. É difícil tentar adivinhar a reacção, as interpretações e as emoções que alguém experimentará. Mas mais difícil é ao fotógrafo alhear-se da sua própria experiência pessoal e abstrair-se do momento que viveu, daquilo que sentiu e das recordações que a própria imagem lhe proporciona.
E é isso que me causa esta imagem. Um enorme desconforto. Outros verão nela outras coisas.

| Filho de Vendedores Ambulantes | Trás-os-Montes | 2004 |

quarta-feira, julho 07, 2004

Wu Ming

Direitos

O narrador que cumpra com o dever de refutar os estereotipos citados tem direito a ser deixado em paz por aqueles que enchem os seus bolsos propagando-os (cronistas da sociedade, papparazzis culturais, etc...). Qualquer estratégia de defesa das intrusões deve basear-se em não secundar a lógica. Em resumo, quem queira fazer-se divo, posando em insulsas sessões fotográficas ou respondendo a perguntas sobre qualquer tema, não tem nenhum direito a lamentar-se pelas intrusões.

O narrador tem direito a não aparecer nos meios de comunicação. Se um picheleiro decide fazê-lo, ninguém o atira à cara nem o acusa de snobismo.

O narrador tem o o direito de não converter-se num animal amestrado de salão ou num gossip literário.

O narrador tem o direito de não responder a questões que não considere pertinentes (vida privada, preferências sexuais e gastronómicas, costumes, etc...)

O narrador tem o direito de não se fingir especialista em qualquer assunto.

O narrador tem o direito de opôr-se com a desobediência civil às pretensões de quem (editores incluídos) queira privá-lo dos seus direitos.

Wu Ming
Verão de 2000.


| Carnaval | Podence | Fevereiro 2004 |

terça-feira, julho 06, 2004

Wu Ming

[continuação]

Deveres

O narrador tem o dever de não se crer superior aos seus semelhantes. Qualquer concessão à obsoleta imagem idealista e romântica do narrador como uma criatura mais sensível, em contacto com dimensões mais elevadas do ser, inclusivé quando escreve sobre absolutas banalidades quotidianas, é ilegítima.

No fundo, também os aspectos mais ridículos e circenses do ofício de escrever, baseam-se numa versão degradada do mito do artista, que se converte em divo porque se crê de algum modo superior ao "comum dos mortais", menos mesquinho, mais interessante e sincero, com um certo sentido heróico, pois carrega os tormentos da criação.

Que o estereótipo do artista "mortificado" e "atormentado" desperte maior interesse nos media e tenha maior peso de opinião que o esforço de quem limpa fossas faz-nos compreender em que medida a actual escala de valores está distorcida.

O narrador tem o dever de não confundir a fabulação, a sua principal missão, com um excesso de autobigrafismo obcessivo e de ostentação narcisista. A renúncia a estas atitudes permite salvar a autenticidade do momento, permite ao narrador ter uma vida para viver em vez de um personagem que interpreta por coacção.



| Marcha Mundial das Mulheres | 22 de Maio 2004 | Vigo |

Wu Ming

Notas para uma declaração de direitos (e deveres) do narrador.
[Traduzido do Castelhano]

Preâmbulo
Quem é o narrador e quais são os seus deveres e direitos?

O narrador (ou narradora) é aquele que conta histórias e recria mitos, conjuntos de referências simbólicas partilhadas - ou pelo menos conhecidas e, se fôr o caso, postas em discussão - por uma comunidade.

Contar histórias é uma actividade fundamental para qualquer comunidade. Todos contamos histórias, sem histórias não teríamos consciência do nosso passado nem das nossas relações com o próximo. Não haveria qualidade de vida. Mas o narrador faz do contar histórias a sua actividade principal, a sua "especialidade"; é como a diferença entre o hobby da bricolage e o trabalho de carpinteiro.

O narrador recupera - ou deveria recuperar - uma função social comparável à do griot nas aldeias africanas, a de bardo na cultura celta ou a do aedo no mundo clássico grego.

Contar histórias é um trabalho peculiar, que pode trazer vantagens para quem a desenvolve, mas é sempre um trabalho, tão integrado na vida da comunidade como apagar incêndios, arar os campos, apoiar deficientes, etc...

Noutras palavras, o narrador não é um artista, mas um artífice da narração.

[continua]


| Alcazar | Sevilha | 2003 |

sábado, julho 03, 2004

O ser humano.

Capaz de se adaptar a qualquer ambiente. Sobrevive nas condições mais adversas. Misteriosamente.

| Lisboa | Junho 2004 |