quarta-feira, dezembro 21, 2005

Contador Mágico

Imagino a porta do meu prédio com um contador de visitas. De visitas apenas, nada de contabilizar os habitantes. Ou os meus sapatos com um contador de passos. Mas com a capacidade de ignorar o bater nervoso do pé na paragem do autocarro. Ou contadores de radioactividade natural distribuídos estrategicamente pelo granito da cidade. Ou um contador de água, luz e telefone, capaz de ao mesmo tempo contar a o ar, a escuridão e o email. Um 6 em 1.

Um contador é, por definição, uma coisa bastante imbecil. Conto os meus dedos e confirmo-o.


|S. Bartolomeu do Mar | Agosto de 2005 |

quarta-feira, dezembro 14, 2005

Não estou para o aturar.

Ao abrir a porta, o Sr. Alves encontrou com surpresa uma pequena festa de despedida dos seus colegas de trabalho. Ali estavam todos. Mesmo os mais rudes, neste fim de tarde sorriam, como se disso dependesse a memória agradável que ele guardaria do emprego, durante toda a reforma. Ficou surpreso e em certa medida satisfeito. A dada altura, já após os primeiros comes e bebes, sr. director começou a tecer considerações sobre a importância da dedicação dos trabalhadores, da sua entrega à empresa. Ventura pensou nos seus 584,32€ de reforma e no Mercedes do sr. director. Pediu a palavra e disse sorrindo: «Sabe sr. director, ao fim de 40 anos, de 8 directores e de 3 locais de trabalho, e uma vez que vou para a reforma, até podia dizer que já não estou para o aturar». Após a gargalhada geral apenas duas pessoas souberam que aquelas palavras eram sentidas. O sr. director lembrar-se-á delas no seu leito, momentos antes da morte e isso será uma das poucas coisas que partilhará com o sr. Alves.


| N | na Sede | Gaia | Novembro de 2005 |

sábado, dezembro 10, 2005

Sonho de uma noite de S. João

Talvez não saberás que fiz, este ano, trinta anos. Não é que seja significativo por si só. Mas é suficiente para que não me recorde de quando foi a primeira vez que votei. Seria fácil descobri-lo, mas não é isso o que me atormenta hoje. Esta noite tornou-se claro que nunca em toda a minha vida pude votar em ti. Teria-o feito sem hesitar, como o farei em Janeiro. Não que isso seja sequer para mim algum fetiche particular. Nada que transcenda a natureza material das pessoas. Nós somos só pessoas. Só todos juntos é que somos outras coisas que não só pessoas.
Quero-te transmitir um pouco mais do que um abraço, tal como recordo ter-te dado em 1999. Na mesma praça da Batalha por onde passo todos os dias. Agora à noite, porque de dia só lá vou para trabalhar. Como se à noite tivéssemos uma liberdade de falar que se perde nas normas do quotidiano. Onde não nos podemos abraçar. Ou onde não nos vamos encontrar por não ser aquele o nosso país. Nessa noite sabia que só podia dar o meu abraço, como já tinha dado tantas vezes os meus braços. Não poderia dar o meu voto. Não que isso seja para mim um fetiche particular, repito-o. Os votos são papelitos que se metem numa frincha.
Esta noite, hoje, quero abraçar-te daqui do Porto. Depois de tantos anos em que passei a imaginar um país onde de dia se pudesse viver como se vive à noite, onde as palavras se digam como se as pudessemos dizer como as sentimos, onde os abraços possam surgir com mais naturalidade que os comentários de circunstância sobre o estado do tempo.
Há para aí um tipo medíocre, ainda que não pareça, que pensava que podia aparecer, fazer meia dúzia de comentários sobre o estado do tempo e comer-nos a todos de cebolada. Como um zombie, já derrotado nas eleições, mas que ainda mal morto esbraceja para morder o último pescoço do último português lúcido. Tenho a certeza que há neste país milhares de pessoas que, com todo o gosto, o contrariariam, o denunciariam e em desespero talvez até o achincalhariam. Nenhuma dessas pessoas o poderia certamente abraçar, como eu não seria capaz sequer de lhe tocar.
A ti te agradeço por entre tantos milhares de portugueses, teres sido capaz de, numa noite fria, vestires aquele blazer castanho horrível, e te teres disposto a apertar-lhe a mão só para lhe dizeres nas ventas que os portugueses não precisam de palmadinhas nas costas dos banqueiros, dos srs. drs professores de finanças e de toda a sua infinita sapiência de funcionários administrativos medíocres.
Devo dizer-te no entanto que falaste menos 9 segundos do que o zombie. É uma regra de sucesso que poderás usar em debates futuros. Um zombie pode esbracejar sempre muito. Os zombies, é sabido, são sempre muitos e parece sempre que não há esperança para quem não foi mordido. Mesmo num filme de terror há que manter alguma calma de espírito. Os zombies são coisas que podem ser vencidas por qualquer um de nós. Tenhamos todos essa lucidez.

Em ti votarei pela primeira vez na vida. Com toda a gana.
Um abraço sentido,


| S. João | 23 de Junho de 2005 | Av. dos Aliados |

quinta-feira, dezembro 08, 2005

Diga 33

01 Sentei-me em frente a uma máquina para que ela me ensinasse a contar. Trinta e três linhas, pedi-lhe. Como são contadas 33 linhas? - perguntou-me.
02 De cima para baixo, incrementas o contador após cada carriage return. Ok? Comecemos então.
03 Nasceu há trinta e três anos um fedelho. Há quase trinta e três anos - porque hoje ainda não é o dia.
04 Chamaram-lhe Luis. Ponderaram longamente. Um nome determina uma vida. Que o diga D. Luis príncipe herdeiro - que se quilhou bem quilhado a bem da nação. Não dispersemos. Faltam vinte e nove linhas.
05 O fedelho passou de fedelho a puto, de puto a ganapo, de ganapo a rapazola, de rapazola a manfio e de manfio a gajo.
06 Um nome é no entanto apenas um nome. Um dia o gajo acorda e manda passear o nome. Nada de pessoal com os pais. Por uma questão meramente poética.
07 Luis é vulgar. Aniceto apela aos hegrégios avós. Os nomes são cartões de visita.
08 Um gajo passa de gajo a deus. Como se tivesse feito uma mudança de sexo num hospital secreto da CIA. Mudar de nome permite aos mortais viver duas vezes.
09 Deus é actor de filmes porno. Saltam-lhe para cima novas, velhas, feias, bonitas, gajas, gajos... tudo o que lhe apeteça, tudo o que lhes apeteça. Deus é deus, anda sempre sem preservativo e não apanha sida.
10 Deus, como é óbvio não se apaixona.
11 Um gajo que é gajo nem sempre consegue ser deus e trinta e três é múltiplo de onze.
12 Há gajos ateus pelo caminho. Esses usam preservativo, apesar de isso não ser relevante para a história.
13 Luis é humano. Tem segredos, paixões, fraquezas, defeitos, virtudes, cheira mal quando transpira, fica doente, também é birrento quando calha, fuma como um animal.
14 Luis também tem por vezes vontade de chorar mas já não é nenhum fedelho.
15 Na noite escura de Lisboa, a contra luz e em negativo, percorrem-se muitas vezes os quelhos deste país.
16 Bebe-se com velhos desdentados, cheira-se o fumo das febras nas festas, ouvem-se os rafeiros a ladrar ao fundo, mergulha-se nu na água gelada de um rio qualquer num sítio qualquer.
17 Isso de poder sair de casa, percorrer quilómetros em segundos e dormir no leito próprio é coisa mais própria de deus.
18 Há gajos ateus que acreditam nisso.
19 Vive-se devagar. Um salário em cada mês. Um aniversário em cada ano. Uma foto em cada rolo.
20 Há excepções. Por exemplo há quem tenha umas férias cada três meses.
21 Não há no entanto grande tempo para deixar aos fedelhos mais do que aquilo com que nos receberam. Crescem rápido.
22 Vinte e dois também é múltiplo de onze.
23 E em três tempos passam de fedelho a puto, de puto a ganapo, de ganapo a rapazola, de rapazola a manfio e de manfio a gajo.
24 Voltando ao vinte e um, tudo aquilo aparentemente devagar. Um salário em cada mês. Um aniversário em cada ano. Uma foto em cada rolo.
25 Quem andou não tem para andar. Há um pouco de mistério nesta frase.
26 Isto é triste? Não necessariamente.
27 Pedira-me tudo isto para um aniversário.
28 Trinta e três linhas pelos meus trinta e três anos.
29 A responsabilidade é muita, ainda que a encomenda seja curta.
30 Escolhe o que te dá prazer, como se fosse uma velha garrafa de vinho.
31 Planeia fazê-lo como se convidasses os amigos para uma jantarada.
32 Disfruta desse prazer como se abrisses a velha garrafa nessa jantarada.
33 Adormece com um sorriso nos lábios. É que isto está tudo ligado.


| L | na Sede | Gaia | Novembro de 2005 |

segunda-feira, novembro 28, 2005

Próxima estação.

Vivia numa pequena ilha do Arquipélago dos Açores. Tinha 43 anos e gostava de política apesar de nunca ter sido militante partidária. Na sua ilha todos a reconheciam como uma mulher honesta, cheia de capacidades e, ao contrário das dozes gerações anteriores, até sabia escrever. Tinha artigos publicados em revistas científicas francesas e alemãs, fundou um museu etnográfico em parceria com a escola local, desenvolveu projectos de alfabetização de adultos e chegou a publicar um jornal informação local. Doze números por ano.

Decidiu candidatar-se numa tarde de Setembro à Presidência da República. Dos 3850 eleitores da ilha, 2942 assinaram a sua proposta de candidatura. Pareceu-lhe abusivo ter que andar de avião para exercer um direito de cidadania.

Em 2006 vai de férias para a Guatemala. Enviará 2941 postais para a ilha. O duomilésimo nonocentésimo quadragésimo segundo seria para ela própria. À última da hora decidirá endereça-lo ao Palácio de Belém mandando foder com todas as letras o seu inquilino. Apenas por saudades de casa.



| C | na Sede | Gaia | Novembro de 2005 |

domingo, novembro 27, 2005

All my dreams fulfilled

Nem sempre saímos de casa dos amigos com a pressa de sair de casa dos amigos. Nem sempre quando saímos à pressa de casa dos amigos temos pressa de sair de casa dos amigos. Nem sempre quando saímos de casa dos amigos queremos sair à pressa de casa dos amigos. Nem sempre todos os amigos sabem porque temos pressa de sair de casa dos amigos. Nem sempre. Mas sempre que regressamos, estamos de novo em casa dos amigos. E há sempre uma certa pressa nisso.


| J & P | na Sede | Gaia | Novembro de 2005 |

sexta-feira, novembro 25, 2005

Princípios Simples VII

Liberdade, Igualdade, Fraternidade.


| C | Porto | Maio 2004 |

Nando das orelhas.

De forma indignada exclama perante o presidente da comissão recenseadora a sua repulsa pela ausência dos partidos da direita. Os partidos no poder na junta de freguesia têm uma responsabilidade acrescida, explicou.

Indignado com a gaffe da funcionária, explicou de forma grave como as coligações se dissolvem logo a seguir às eleições pelo que "não, não estava ali a representar a coligação, mas o seu partido". É exímio gladiador de regulamentos, capaz de explicar as subtilezas, as nuances das formas estatutárias e a beleza do articulado da lei - à qual o seu partido sempre se opôs, mas sobre o qual a coligação nunca se pronunciou, evidentemente.

Cheguei a pensar que seria insultuoso sugerir que o velho era um chato de um burocrata. Não senhor. Ele próprio tratou de me explicar como era funcionário partidário desde 1973 e como todos os dias se dirigia a um gabinete qualquer numa zona deprimente e húmida da cidade. Um problema grave, que explica muito do mal estar dos ossos de um senhor que sempre trabalhou numa casa comercial lá da rua. Um problema este tempo nesta cidade. Sim. Um problema esta humidade, o nevoeiro, o granito. Sim. Uma chatice.

O Sr. desculpe, mas essas orelhas não lhe criaram problemas na escola?


| À xávega | ao sul da Caparica | Abril de 2004 |

quinta-feira, novembro 24, 2005

Abre a boca.

Fala. Diz o que pensas. Para que se saiba. As memórias persistem. Não precisarás de ser particularmente grotesco. Basta ser quem és. Um toco. Sairás de cena. Mais dez anos. Óptimo. A amnésia não pode explicar um país.


| visitantes anónimas | Exposição "Interior" | Jup | Abril 2004 |

terça-feira, novembro 22, 2005

O umbigo do umbigo

A ideia de fotografar pessoas que escrevem em blogues, é como brilhantemente o caracterizou uma amiga minha, o umbigo do umbigo. Por aqui poderá aparecer um pouco de tudo. Umbigos, orelhas, cotovelos, lábios, cabelos, unhas, joanetes e com sorte corpos inteiramente nus. Para começar, e para aguçar o apetite, haverá alguns retratos.

Este projecto, sendo feito por quem é, será reflexo deste prazer que todos temos em fotografar. E fotografar sempre foi uma excelente desculpa para encontrar pessoas e passar bons momentos. Anda tudo de mão dada.

Calhou-me a mim a "sorte" de iniciar este projecto, neste dia zero. Escolhi um escritor que aprecio bastante e a quem atribuo parte da culpa por me ter feito aprender a gostar da minha cidade.

Leidis énde gêntleménes, Manuel Jorge Marmelo, os seus livros, ele próprio e a máquina onde os escreve colocada por cima daqueles que já escreveu... Tudo em sua casa.


| Manuel Jorge Marmelo | Porto | Novembro de 2005 |

quarta-feira, novembro 16, 2005

Água quente, doenças de pele, rolos estragados.

Há rolos inteiros onde não se aproveita uma foto digna desse nome. Há rolos inteiros onde não se encontram histórias dignas desse nome. Há rolos inteiros que por inexperiência, descuido ou um acaso qualquer podem ficar todos lixados. Há rolos que ficando todos lixados tornam-se numa história para contar. Há fotos que quando estragadas parecem ganhar o nome de que não são dignas. Há textos que se escrevem só para encher chouriços.


| I & C | Exposição «Interior» | JUP | Porto | Abril 2004 |

segunda-feira, novembro 14, 2005

Princípios Simples VI

Morrer é um direito.

Querida prima, morrer por asfixia com um saco de plástico na cabeça é uma violência desnecessária pudessem as pessoas exercer direitos elementares. Mas, mas, mas... sim há muitos "mas" e eu saberia juntar razões a todos esses "mas", mas, acrescento agora eu, repugna-me solenemente saber todo sofrimento que tiveste na morte - não consigo imaginar como seria em vida. Mas...


| Marília | Gesto | Agosto de 2004 |

quinta-feira, novembro 10, 2005

quinta-feira, outubro 27, 2005

O fedor.

Subtítulos possíveis
Bipolarização | Joana Amaral Dias e Kátia Guerreiro | Blindagem ao centro | ò patego, olha o balão | PS e PSD | Somos todos uns gajos muito fixes |


Compreendo agora onde queres chegar e diria apenas que todo o teu argumento se baseia numa ideia singularmente simples. Essa ideia -a do mal menor - aplica-se a muito da nossa vida quotidiana e é até um princípio de consenso social bastante difundido.


«Mais vale um empreguinho [precário, fodido e mal pago] do que o desemprego»
ou numa versão mais eloquente:
«Não te chega para o bife? Antes no talho do que na farmácia; não te chega para a farmácia? Antes na farmácia do que no tribunal; não te chega para o tribunal? Antes a multa do que a morte; não te chega para o cangalheiro? Antes para a cova do que para não sei quem que há-de vir (...)»


Ora essa história do mais vale estrume que merda tem feito do nosso país uma coisa bastante mal-cheirosa.


| The Maria Leonor Project | 18 de Outubro de 2005 |

sexta-feira, outubro 21, 2005

Principios Simples IV

São pequenos principios que determinam grandes coisas em sociedade. Eu por exemplo nunca votaria num candidato a presidente da república que faça uso da gravata. Falo de machos apenas, como é óbvio - o que infelizmente é o que nos resta.


| The Maria Leonor Project | 18 de Outubro de 2005 |

quinta-feira, outubro 20, 2005

Principios simples III

O preço de mercado é irrelevante em muitos aspectos da vida.

Um exemplo simples.
Em termos de importância o negativo (melhor dizendo, a fotografia) é o mais importante no acto de fotografar. A lente, a máquina e outras paneleirices são meros instrumentos, ainda que o seu valor de mercado seja superior aos milhões de reles negativos (ou fotografias) criadas permanentemente.


| O Eclipse | Rua Passos Manuel | Porto | Outubro de 2005 |

segunda-feira, outubro 03, 2005

Joana é uma gaja moderna.

Joana é uma gaja moderna. Filha de boas famílias, decidiu parir cedo. Gosto de imaginar que sim. Que isso foi resultado de uma decisão. Joana é além de moderna, uma gaja bonita.

Serafim Saudade explica: «As pessoas dividem-se em dois tipos: as do tipo A e as do tipo B. Por sua vez as pessoas do tipo B dividem-se em dois tipos.»

Joana é uma gaja do tipo B. Dentro desse grupo é das que não tem que se preocupar grandemente com a chegada do fim do mês e com os centavos sossobrantes ou como é comum noutras pessoas do tipo B, com os centavos em falta.

Joana tinha outro tipo de preocupações mais generosas do que estas questões mesquinhas de materialidade quotidiana.

Joana gostava de estudar, ampliar horizontes, perceber o mundo em que vivia e as pessoas que o povoavam. Estudar é bom. Eu sei que sim porque já estudei. Estudar no estrangeiro também é bom. Eu sei que sim porque também já estudei no estrangeiro.

Joana gostava de falar e discutir. Falar e discutir é bom. Eu sei que sim porque também gosto de falar e discutir.

Joana começou um dia a fazer política institucional. Nunca tinha feito aquelas coisas chatas de colar cartazes ou escrever panfletos para os distribuir. Eu sei que essas coisas são chatas porque também já as fiz. Mas para fazer política moderna é melhor que não seja uma coisa chata. Obviamente.

Miguel era um kota moderno. Mas a história dele não cabe aqui. Talvez por um pouco de pudor.

Mário não é bem um kota, é mais um velho elefante. A história dele será contada e recontada. Por isso também não cabe aqui.

Modernidade também se escreve com «M». Ele há coisas do caraças.


| Sura Mica | Roménia | 2005 |

sábado, setembro 17, 2005

Amigão

Uma das coisas mais curiosas na fotografia é a capacidade que tem de nos fazer viagens na nossa própria vida. Imagino a entrada de um inspector da judiciária em minha própria casa. Que fazia eu em Fevereiro de 2002? Uma criança havia sido espancada em frente ao pequeno apartamento que alugava à época. Aguarde dois minutos sr. inspector. E sai uma caixa de slides com imagens nocturnas da cidade do Porto.

Explico-lhe... nesta altura estava no Fotopt. Era uma merda bem sei, mas olhe, era o que havia. Já imaginou o que seria o mundo se houvesse um site com o nível de grotesco do 1000i, a inocência serôdia do olhares e o sentido de subversão do Fotoalt? Bom, isso era um pouco o Fotopt. Uma boa merda da qual todos continuam a falar. Inclusivé eu próprio.

O inspector sairia de lá de casa com as mãos a abanar. Nessa longínqua noite tanto poderia ter estado a fotografar o túnel de Faria Guimarães, como a encher a roupa com tabaco numa festa qualquer ou a masturbar-me fantasiando com a minha própria gaja. Este último aspecto talvez fosse omitido ao representante da autoridade do Estado. :)

A vida vive-se. No presente. Não no passado, nem no futuro.Ora, depois desta consideração, só me apetece dizer «puta que pariu os clichés».

Este tipo de discussão subtil faz-me lembrar conversas sobretudo com outros militantes da esquerda, no tempo da universidade. Lembro-me de perceber, praticamente sem racionalizar, que a legitimidade da sua acção se encontrava num velho regime desaparecido há décadas ou numa crença insofismável num futuro idealizado por outrem. Devo-lhes um agradecimento. Não sou gajo de crenças e dispenso o papel de missionário. Ter valores é uma coisa um pouco diferente. Obrigado.

Podia aqui fazer um paralelo com a fotografia. Creio ser supérfluo. Pode-se procurar nas entrelinhas. Talvez encontrem coisas que não escrevi e outras que nem quis dizer. O essencial creio que está lá.

Não me volto a dispersar. Aliás termino já a seguir.

Há coisas que só nos lembramos olhando para velhos slides de 2001. Do Fotoalt não preciso de me lembrar, faz parte da vida. Da tal que se vive no presente.


| Túnel de Faria Guimarães | Porto | Fevereiro 2002 |

terça-feira, setembro 06, 2005

As portas da percepção...

..não se abrem com as visões da morte. Tal como as frases que se escrevem, explicam o real. Tal como o meu avô de 92 anos seria certamente um presidente da república em quem votaria sem qualquer hesitação. Tal como hesitação será coisa que não faltará nas próximas eleições presidenciais. As portas da percepção fecham-se. Tal como as portas de um autocarro.


| Portugal | 2004 |
| A propósito, o meu avô é o personagem ao fundo|

terça-feira, agosto 30, 2005

Para quem não sacraliza o quotidiano.

Figura mítica mas bastante desconhecida da cidade do Porto. Tem um
mestrado numa área científica que não tem grande importância para a
actividade profissional que desempenha. Tem 30 anos e é monogâmico
praticante. Fica com lágrimas nos olhos perante um bom filme ou olhando para imagens dos incêndios florestais. Está a ficar careca.
É fotógrafo amador há alguns anos. Começou a fotografar com uma
Yashica médio formato e fotómetro de mão. Tinha para aí 12 anos. Hoje usa uma das três Pentax analógicas que tem em casa. Todas têm
fotómetro integrado.
Participou em diversas exposições. «Interior» no Jornal Universitário do Porto e na Casa do Careto (Podence), «Novos Activismos» na galeria 4 Gatos (Porto) e «Portugal Hoje» na Casa da Cultura da Moita. Em todas as exposições gastou bastante dinheiro e nunca vendeu uma única fotografia. É daqueles que acredita que o dinheiro não é tudo na vida. Por isso ofereceu com gosto diversas fotos a alguns amigos e amigas.
Podes tentar receber a tua. Vê como em joaoluc.blogspot.com.


| Roménia | 2005 |

domingo, agosto 28, 2005

Estrela e Natasha

Estrela era uma rapariga nova. Enfim, relativamente nova, até porque a juventude extende-se cada vez até mais tarde. Com 22 anos decidiu viajar até à Bulgaria, onde casualmente se encontrou com uma tradutora de alemão para búlgaro. Esta chamava-se Natasha. Conversaram demoradamente sobre os respectivos países. Ao perceberem que partilhavam um interesse comum por fotografia, Estrela explicou-lhe a razão pela qual apenas fotografava a preto e branco.

O mundo é muito curioso a preto e branco. Tudo pode ser dividido com simplicidade entre branco e negro, essa dicotomia mágica, esse extase do Yin e Yang, que no fundo é a redução do planeta à sua essência de bondade ou maldade absoluta. Na verdade Estrela não acreditava em nada disso, mas esta ideia redonda servia para manter a conversa de circunstância com Natasha.

Meses mais tarde, um pouco a despropósito, Estrela recebe no seu telemóvel uma mensagem em que Natasha lhe pedia excepcionalmente 100 euros emprestados. Estrela retomou a sua tese sobre a simplicidade do mundo. Um mundo que se divide entre os que têm juízo e os que não dão passos maiores que as pernas.

Respondeu-lhe:
«the world's b&w. those who have 100e and those who don't. sorry mate.»

:D


| Polónia | 2003 |

sábado, agosto 20, 2005

Duas cidades com o mesmo nome.

Viajo até Lisboa com bastante frequência ao longo de todo o ano. Sinto-me permanentemente em trânsito e com uma vontade permanente de partir. Assim sempre senti a cidade desde que a conheci há mais de 10 anos atrás. Na minha infância Lisboa era uma cidade distante e as grandes viagens (5 horas para percorrer 220kms) não viravam nunca para sul, mas sempre para leste.

Descobri Lisboa aos poucos, não com o sentido das viagens frequentes, mas com as deslocações prepositadas para passear. Almoçar na rua da Palma, lanchar em Belém, comer um gelado no Rossio, jantar no Bairro Alto e acabar a noite num miradouro na Graça.
No dia seguinte pegar no carro para visitar Sintra, a Arrábida ou pura e simplesmente ir ver meia dúzia de exposições idiotas.

Uma das coisas que nunca havia feito, até 2004 foi entrar no Parlamento. Tinha-me habituado a vê-lo do lado de fora. Não é "vê-lo"-"vê-lo". É mais no sentido de me sentir sempre do lado de fora. Nunca tive interesse nos seus participantes, nunca me senti no seu interior, nunca participei na sua composição. Nunca elegi ninguém. Desde 2003 as coisas ficaram um pouco diferentes.

Há no entanto uma sensação que surge de cá de dentro como a de um formigueiro nos braços; a sensação de que todos os passos no Parlamento são passos perdidos.


| André | Parlamento | Lisboa | Junho 2004 |

segunda-feira, agosto 15, 2005

Existir

Existir é uma sequência de decisões disconexas. Em geral passamos grande parte do tempo a acreditar que assim não é.

| The Maria Leonor Project | Amarante | Junho 2005 |

Não é preciso mentir.

Ao vivo, esta paisagem não tinha o mínimo interesse.


| Roménia | Abril 2005 |

sábado, agosto 06, 2005

Esta sensação de impotência absoluta.

Começo a ficar um pouco farto de ouvir falar em vítimas de terramotos, maremotos, cheias e vulcões quando ... pá, fogo, que caraças!


| O Sofa do Ricardo | Madeira | Março 2005 |

2 horas e 20 minutos de atraso. Circulamos em marcha à vista.

Ouço há anos um discurso um pouco redondo e vagamente demagógico anunciando entre a vida do país e as questões centrais do debate político nacional. São coisas que se ouvem com a indiferença de qualquer outro cliché. É normal. Em política e sobre política clichés há ao peso.

É óbvio que há sectores marginais que apontam erros aos grandes investimentos públicos feitos pelo país nos últimos anos. Expo 98, Euro 2004 e, em menor escala, os submarinos ao serviço da NATO e o Porto 2001. A verdade é que no diz respeito ao dia-a-dia das pessoas, os incêndios estivais (esqueçamos as mortes nas estradas) são um dos problemas centrais da gestão do país. E sobre estas questões todos assobiam para o lado. A política trata outras coisas.

Veja-se o caso das próximas eleições autárquicas. Os incêndios e sobretudo a sua prevenção passarão ao lado das discussões sobre rotundas, parques de estacionamento e recuperações urbanas de fachada.

Há sítios no país em que no dia 5 de Agosto de 2005 a noite caiu bem antes do sol se pôr. Para isso não é preciso sequer olhar para o céu. Basta olhar para os olhos de quem está ao lado.


| Laurent | Maio de 2005 |

domingo, julho 31, 2005

terça-feira, junho 28, 2005

Pontos 1 e 2.

1. estes problemas não são exclusivos de Lx ou de comunidades negras. (noutros sítios há “gunas” e são meninos branquinhos capazes de arrastões ou coisas mais graves)

2. a televisão tem o poder de transformar pequenos factos banais (coisas que provavelmente tanto eu como tu já vivemos com incómodo mas sem “alarme”) em grandes eventos mais próprios do espectáculo do que do jornalismo.

Fim de citação.



| Alba Iulia | 2005 |

terça-feira, junho 21, 2005

À Maria, à Sofia, à Matilde, ao Rafael e à Leonor.

Chega-se aos trinta anos rapidamente. Basta para isso pensar que trinta anos são trinta voltas que a Terra dá ao redor do sol. E se ela se move a 10800 Kms/hora, é muito natural que tudo se passe muito rapidamente. Não creio que no entanto seja justo desejarmos-lhe uma multa por excesso de velocidade cósmica.

É um pouco estranha a sensação que por vezes temos que nos olham como bichos raros. Pelas mais diversas razões. Assim é há já muitos anos e a verdade é que não me sinto nada mal com isso. Ontem percebi que há uma curiosidade suplementar na minha vida, que talvez explique a minha vontade permanente de andar a caminho de algum lado. O Porto é uma terra de gente de fora, tal como as terras de fora são terras da gente do Porto. E eu sou do Porto mas não me importava de ser de outro sítio qualquer.

Imagino a Sofia a fazer 18 anos e a ponderar estudar Biblioteconomia em Copenhaga, advocacia em Coimbra, Informática em Estugarda ou Design em Barcelona. A Matilde aos 23, depois de estudar no Porto apanha-se com uma bolsa de investigação em antropologia e põe-se a caminho de Timor ou então enfia-se durante meia dúzia de anos na ilha da Boavista onde caminha descalça em casa e nas ruas. Surpreendendo todos, o Rafael, a meio do curso de veterinária decide fazer uma pausa nos estudos e dando um beijo e um aperto forte aos ossos dos pais (ambos mais baixos que ele), arranca como voluntário para a américa latina onde ganhará anti-corpos a meia dúzia de doenças tropicais. Imaginas isso? E sabes quem é a Maria? Tem um ano e já saltita de Cerveira para Aveiro ou Arcos de Valdevez. Para o ano prometeu-me vir à festa de anos para toda a gente a conhecer.

Quem imaginaria aquela miuda que depois de terminar o curso passaria 5 anos a viver em Lisboa? Passou por várias empresas, sempre com cargos de responsabilidade. Tem um companheiro madeirense. E ele vivia em Lisboa? Não. Na Madeira? Não. No Porto. E ela? Conseguiu voltar há pouco para cá. Quem imaginaria a irmã dela a desenvolver tecnologia de ponta, trabalhar depois num grande organismo da administração pública e de seguida andar a fazer regularmente viagens de circum-navegação ao planeta. O Ricardo (este texto tem vários Ricardos) um dos melhores [colegas | compinchas | companheiros | amigos] (não consigo escolher a palavra certa) do curso prepara o doutoramento em Inglaterra ou vai estudar equipamentos estranhos para Bruxelas ou põe a funcionar os telefones e as redes nas caves mais reconditas dos mais reconditos edifícios do país.

Quem imagina um guedelhudo a fotografar um mês na Palestina depois de se ter soltado da sua masmorra intimista? Ou outros a passearem-se em Luanda a fazer contas à vida e a pensar no regresso às esplanadas do Mindelo, sentado ao lado de quem gosta de denunciar as contradições do poder em relação à nossa terra. Ou os madeirenses (este texto tem vários madeirenses) que se exilam de uma ilha tão bonita governada por gente tão feia. Vêm para o Porto? Não necessariamente… Podem encontrar minhotas e ir para Famalicão ou nunca mais largar meninas transmontanas. Os madeirenses devem ser mesmo um espectáculo. E estes são. Se um dia quiserem conhecer a Madeira a sério podem falar com qualquer madeirense mas na foto há quem seja bom e se recomende.

E aqueles dois um dia encheram-se do Porto e piraram-se aqui para o lado. Não deve ter sido bem do Porto que eles se encheram. De qualquer forma, zás, um para a praia o outro para o campo. Quem diria? Alguém sabia onde era Areia ou Parada? Obviamente não fomos feitos para viver encaixotados. Alguém imagina isso? Olhando para aquela barriguita dentro de uma camisa vermelha hesito por uns momentos. Vivemos todos nós 9 meses encaixotados? Claro que não. Deve ser excepcional passar nove meses abraçando alguém com o nosso corpo. Um caixote é outra coisa.

O bom do futuro é que podemos ser nós a imagina-lo. E por isso mesmo pode ser aquilo que nós quisermos. Um dia, eventualmente a realidade cruzar-se-á com a imaginação. Ontem aconteceu um pouco isso. Apesar disso imaginava mais uma dúzia de pessoas nesta fotografia. Umas estão agora em Lisboa, outras em Inglaterra, outras em França ou na Galiza. Para isso é que se inventou o email. Esse é o problema desta foto. Aqueles que cá não estão. Mas ela dá uma grande satisfação. A satisfação de olhar para ela. Para toda a gente. E ainda por cima é tudo gente bonita.

Aos sessenta anos - daqui a trinta - não quero ter um grande carro nem relógios cujo preço se escreve com 3 ou 4 dígitos e ser um velho endinheirado, petulante e cínico. Uma pessoa nunca junta os amigos para receber prendas – não eu pelo menos. Aos sessenta anos gostava que todos por cá estivessem para passarmos uma noite tranquilamente a conversar das nossas vidas, ouvindo boa música e sem termos que nos preocupar em acordar cedo na manhã seguinte.

Para isso só preciso de continuar a ter a tua amizade, mesmo a 10800kms/hora. Tenham cuidado com as curvas.

Nessa noite, à uma da manhã enviaremos SMSs para Dili, Tegucigalpa, Barcelona ou Luanda. Todos conseguem dizer o que pensam em 160 caracteres. Só eu é que gosto de escrever cartas longas. E de as receber também. Imaginem só...


| Sibiu | Abril 2005 |

quinta-feira, junho 02, 2005

Cuidado com as carroças

Marcul Vassilli viva encantado com a possibilidade de um dia poder conhecer Espanha. Tinha visto meia dúzia de documentários sobre a arte de matar touros e sentia profundamente o exotismo das músicas das Las Ketchup. Contactou o consulado espanhol na Moldávia que rapidamente lhe fez chegar a casa uns prospectos turísticos do final dos anos 80 e também informação detalhada sobre a Expo de Sevilha.

Marcul ficou fascinado. Trabalhava há já 8 anos e, estando agora com 26 anos, podia finalmente pensar em sair do país e ir visitar as terras quentes ibéricas.

Meteu-se no Dacia dia 31 de Julho e na estrada para a Hungria enfiou-se debaixo de um camião TIR Turco, depois de ter calculado mal uma ultrapassagem a uma carroça cheia de ciganos.


| Sibiu | Roménia | Maio 2005 |

sábado, maio 28, 2005

Comunicado numero 0

Perante a exibiçao do poder e material militar num desfile organizado pelas Forças Armadas Espanholas, um grupo de cinquenta e seis cidadaos e cidadas corunhesas (e um cao) demonstram a sua resistência anti-militarista.

É uma evidência que os gastos militares do planeta, aplicados com fins civis resolveriam grande parte dos problemas de milhoes e milhoes de pessoas. A recente ocupaçao do Iraque, a cumplicidade passiva e activa dos exércitos europeus, contrasta com as mobilizaçoes de milhoes de pessoas e de uma opiniao pública capaz de se organizar perante uma máquina de morte ao serviço de interesses petrolíferos.

Aqui estao. Despidos contra o desfile militar. Cinquenta e seis cidadaos e cidadas corunhesas (e um cao).


| Acçao contra o desfile militar | Corunha | 28 de Maio | 2005 |

sexta-feira, maio 27, 2005

segunda-feira, maio 23, 2005

Mas eles são mesmo de cá?

Confesso que não percebo muito o que é que pode levar um ser humano adulto a saltar horas a fio apenas porque um grupo de 11 matrecos ganha um jogo, um campeonato, uma taça ou outra merda qualquer. Não percebo muito bem, mas aceito tranquilamente que esse é um direito legítimo.

Há no entanto gajos que gostam de o fazer e, apesar disso, não reconhecem essa legitimidade a outrem.

Ontem, na minha cidade, um grupo de animais veio explicar que, na minha cidade, ou todos seríamos animais como eles próprios ou então seríamos apenas e só provocadores.

Assustadoramente, a raíz do mais profundo totalitarismo não reside na atitude de um grupo de poucas centenas de imbecis. Essa raíz reside na tranquilidade com que a restante cidade aceita de forma quase natural esta lógica macabra.

Gajos que eu sei serem inteligentes até podem explicar demoradamente o prestígio, a notoriedade, a projecção da imagem da cidade e o blá blá blá do costume que legitima a importância das empresas de futebol, S.A. Mas cá para mim isso é tudo conversa fiada. Uma cidade sem estádios podia não ser necessariamente melhor, mas evitava-nos ter que aturar bandos de animais, sejam eles anónimos ou publicamente reconhecidos. E nesse caso o prestígio da cidade seria indubitavelmente maior. Como o de qualquer outra cidade.


| Abril | 2005 |

terça-feira, maio 17, 2005

O sentido das origens.

Foi em 2005 que Marco efectuou a sua primeira viagem à Roménia.

Descendente de ciganos da Moldova, emigrados para o sudoeste da Europa no fim do sec XVIII, o espaço mítico deste território sempre havia marcado a sua infância com referências cruzadas a milho cozido, salsichas frescas na brasa e sobretudo vinho rasca. A Roménia era um pouco a sua pátria. Foi portanto ao fim de 6 anos de projectos e de poupanças que conseguiu meter-se num avião para o aeroporto de Otopeni em Bucareste onde teve as primeiras impressões deste seu berço materno.

Olhando em redor, observando os autóctones verificou que as mulheres se vestiam segundo os padrões da prostituição da sua cidade natal - Bragança. Já os homens variavam entre o bigodinho à géninho e o corte de cabelo à Macgyver.

«Carago! A Roménia é esta merda?» Pensou ele percebendo melhor a razão da migração dos seus antepassados.

À noite foi fotografar Dácias. :)

Image hosted by Photobucket.com
| Hotel Bulevard | Sibiu | Abril 2005 |

quinta-feira, março 03, 2005

Bitácora.

Bitácora. É uma palavra muito mais poética do que blogue. Igualmente opaca, mas sem o sentido frouxo dos anglicismos.


| Eu e a minha Pentax | O mesmo armário da Tia Lídia | 2004 |

quarta-feira, fevereiro 23, 2005

O que fica da campanha eleitoral.

Passeio-me noite fora, com frio no peito, as mãos geladas e a barba húmida. As ruas estão desertas como sempre. Ao cimo de Stª Catarina uma puta observa-me. Vamo-nos cruzar. Ambos o sabemos. Olho-lhe para o cú. Grande. O olhar cansado, as mãos certamente tão frias como as minhas. A cara triste. A minha não sei que cara seria.
«Queres bir filho?»

Onde quereria ela levar-me?
Baixei os olhos e pensei na campanha eleitoral.

«Querem bir, filhos?»
Baixo os olhos e penso onde quererão eles levar-nos.


| Mareantes do Douro | Gaia | Janeiro de 2005 |