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sexta-feira, abril 17, 2015

Telescola em directo para o Parlamento

Luís Montenegro, radiante, explicava há pouco, metendo os pés pelas mãos, algo que deveria ser surpreendentemente simples para uma criança de 11 anos.

Diz o seguinte, o líder da bancada parlamentar do PSD, que é um dos esclarecidos dirigentes deste país:

"Nós agora temos um programa onde está previsto (...) que em 2016 a nossa economia vai crescer 1,6%, em 2017 vai crescer 2%, em 2018 e 2019 vai crescer 2,4%. Isto significa que em 4 anos temos uma projecção de crescimento de 8,4% do nosso produto." (ao minuto 05:25)

Eu ouvi isto em directo (obrigado TSF) e não pude acreditar naquilo que ouvia. Estou certo que devo ter sido uma das quatro ou cinco pessoas deste país a ficar incrédulo. E não me admira que o país esteja como está, com este tipo de apreciação da realidade.

Estou a imaginar-me a dever dinheiro a este senhor. Seria uma maravilha. Ora vejamos. Ele empresta-me 100.000€ a uma taxa de juro de 5% ao ano. Eu digo-lhe então:
-Sr. Luís Montenegro, daqui a 4 anos, pago-lhe 20% de juros, logo 120.000€. É isso não é?
-Está certíssimo Sr. JoaoLuc!

Em resultado da capacidade de cálculo do nosso líder parlamentar, ficaria a ganhar com esta manobra mais de 1.500€.

Este tipo de analfabetismo é muito grave. Vejamos o que acontece sempre que se discute p.ex. o aumento dos salários. Analisemos a hipótese de alguém que teve o salário congelado durante 4 anos.

Se a taxa de inflação média for de 3,5%/ano, qual é a perda efectiva de poder de compra? 14% responderá Luís Montenegro ou um sindicalista mais distraído. Aumentamos os salários 14% e ficamos quites, ok? E lá iam 0,75% de poder de compra para o espaço (mais de 100€/ano, num salário de 1000€).

Bem sei: tudo isto é mais chato que uma emissão da telescola e muito menos interessante que um gatinho do facebook. Eu próprio já estou a precisar de um café. Cheguei a pensar fazer isto com juros de empréstimos entre amigos e apartamentos comprados a crédito em Paris, mas dava imenso trabalho e alguém ainda podia levar a mal. Alegadamente.


|entre a STIB e uma galeria comercial ou vice-versa | bruxelas | 2015 |

segunda-feira, outubro 19, 2009

Contas feitas

O comentário político, seja na televisão, seja num reles blogue está cada vez mais reduzido à versão empiriquitada de um programa do Manuel Luis Goucha: banalidades, apreciações de circunstância, hipóteses e opinião parcial. Sobre as últimas eleições fiquei com a sensação estranha que ninguém percebeu nada do que aconteceu. O que em certo sentido é bom.

Acho no entanto que alguém (espero que não me calhe a mim) devia explicar aos senhores políticos (e aos outros senhores da televisão também) um conceito relativamente complexo. A ideia é a seguinte:

Imaginemos que dois partidos estão empatados, isto é, têm exactamente o mesmo número de votos. Se se der a deslocação de um voto (e apenas um) entre os dois partidos, a diferença de resultados finais será não de um, mas de dois votos.

Pensem lá nisso antes de mandarem bujardas. Ah... o mesmo raciocínio é válido se pensarem em potências de dez. :)


| cavalo branco | westbury | uk | julho | 2009|

sexta-feira, julho 24, 2009

Momento homofóbico-parvo-sexista

Eu queria mesmo era que o Miguel Vale de Almeida se fosse enrolar com a Fernanda Câncio.

Quem não sorrir, é estalinista. :)


| o gang das lx3 ou eu tenho dois amores | porto | julho de 2009 |

domingo, junho 07, 2009

Hoje às 11:47h

JoaoLuc votou hoje às 11:47h. Aos jornalistas presentes, confirmou que era com todo o entusiasmo que votava em Rui Tavares e que gostava bastante mais dele do que de Obama.


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| boletim de voto | porto | 7 de Junho de 2009 |

quarta-feira, abril 29, 2009

Querida geração de Abril.

Querida geração de Abril,
é inevitável olhar para vocês que hoje têm mais de cinquenta anitos e pensar neste país que nos deixaram. Não fosse a vossa geração e uma série de coisas talvez fossem um pouco diferentes. Os direitos democráticos, as eleições livres, as organizações sindicais, a escola pública, o serviço nacional de saúde, os feriados de Abril e Maio e até mesmo a liberdade (que como sabem é a amiga baixinha e chata da Mafalda).

É natural que o tempo esmoreça ânimos, relativize convicções e esqueça velhas quezílias. Os processos revolucionários são dados a posições definitivas, a zangas sérias, a reacções no calor do momento. O tempo parece que acelera nessas alturas. Claro, o tempo, é afinal relativo.

E por isso, meus queridos, vocês que fizeram Abril de vez em quando olham para o país e têm uma certa nostalgia. Há inúmeros casos, mas vejam só como os vossos filhos e os vossos netos são sujeitos a situações abusivas por parte de quem, no poder público, mais responsabilidades tem na protecção da sua dignidade.

E ao olhar para os vossos filhos, que nunca mais saem de casa, sentem - estou certo - alguma dor por pensar que o seu mérito é descartável, que as suas competências não são reconhecidas e que por uma linha de currículum são obrigados a trabalhar de graça (no vosso tempo chamava-se a isso escravatura) e quando têm linhas a mais no currículum são obrigados a escondê-las para que não os considerem "desmotivados" no desempenho de funções menores.

Os vossos filhos estão a um passo de não saber o que é a segurança social, apesar de saberem exactamente o que é um recibo verde, um trabalho temporário ou estágio não remunerado. Quando nascem os vossos netos, os vossos filhos não podem ficar em casa. Recibos verdes. Quando estão doentes não podem ficar de baixa. Estagiários. Quando querem comprar casa precisam de fiadores. Bolseiros.

Querida geração de Abril, vocês hoje são gestores de empresas, ministros e secretários de estado. São directores de serviço, chefes de unidade e administradores públicos. São dirigentes sindicais, deputados e presidentes de junta. São donos de cafés, quiosques e sapatarias. Têm uma casa ou duas, dois carros ou três, três telemóveis ou quatro. É verdade que alguns trabalharam a vida toda e a única política que tiveram foi o trabalho. Hoje têm que trabalhar até aos 65 anos. Outros encostaram-se a este e àquele, lamberam as botas a uns e foram lambidos por outros. Tocaram guitarra nos 70, enganaram a CEE nos anos 80 e fugiram aos impostos nos 90. Alguns já estão reformados e outros estão a ser lixados. Todos sempre gostaram de discutir futebol à segunda-feira de manhã. Votaram na esquerda moderada nas sindicais, no centro moderado nas deputais, e na direita moderada nas presidenciais.

Compreendo que quando às vezes olham para os vosso filhos, fiquem um pouco surpreendidos por eles não saberem bem como era a vida antes de 1974. Os vossos filhos não sabem as dificuldades porque vocês tinha que passar. Às vezes, querida geração de Abril, vocês sentem uma certa ingratidão e incompreensão, não é?

Pois é.

Querida geração de Abril, a questão é que em grande medida, estamos fartos de ser os vossos filhos.



| o eterno retorno | entroido | laza | 2009 |

terça-feira, novembro 11, 2008

Pensamento dissedente.

A propósito da eleição de Obama, meti-me a traduzir um texto da Judith Butler, cuja fonte me parece genuína, quanto mais não seja pelo estilo da escrita. Ainda assim mantenho uma pequeníssima dúvida. Aparentemente trata-se de um texto enviado originalmente por correio electrónico a várias pessoas. A mim próprio chegou-me por correio electrónico. Não encontrei qualquer desmentido.

Segue-se a tradução, com uma dedicatória especial ao Rui Tavares.

«Exuberância acrítica?
por Judith Butler

Poucos de nós estão imunes à festividade destes dias. Os meus amigos de esquerda, escrevem-me dizendo que sentem algo parecido com uma “redenção” ou que “o país nos foi devolvido” ou ainda que “temos um dos nossos na Casa Branca”. É claro que ao longo do dia sinto-me, tal como eles, tomada pela surpresa e a excitação, já que a ideia de ver o regime de George W. Bush pelas costas é um alívio enorme. E a ideia de que Obama, um candidato negro progressista e com consideração pelos outros, muda a história e faz-nos sentir de que forma os cataclismos produzem novos terrenos. Mas pensemos atentamente neste novo terreno, mesmo que não conheçamos neste momento todos os seus contornos. A eleição de Barack Obama ainda que não possa ser hoje completamente apreciada, é historicamente significativa, mas não é, nem pode ser uma redenção e, se subscrevermos a forma superior de identificação que ele nos propõe (“estamos todos unidos”) ou que nós propomos (“ele é um de nós”), arriscamo-nos a acreditar que este momento politico vencerá os antagonismos que são os constituintes da vida política, especialmente da actual vida política. Sempre houve bons motivos para não abraçar o ideal da “unidade nacional” e para fomentar suspeições face a uma identificação uniforme e absoluta para com um líder político. Apesar de tudo, o fascismo baseava-se em parte nessa identificação com o líder e, os republicanos usaram este expediente para conseguirem mobilizar politicamente os afectos quando, por exemplo, Elizabeth Dole, olha para a sua audiência e diz: “Adoro cada um de vocês.”

Torna-se ainda mais importante pensar na identificação política exuberante com a eleição de Obama quando consideramos que o apoio a Obama coincidiu com o apoio a causas conservadoras. De certa forma isto conta para o seu sucesso “transversal”. Na Califórnia, ganhou com 60% dos votos e, uma parte importante dos que nele votaram, também votaram contra a legalização do casamento homossexual(52%). Como podemos compreender esta disjunção aparente? Primeiro, lembremo-nos que o Obama não apoiou explicitamente o direito ao casamento homossexual. Além disso, como explicou Wendy Brown, os republicanos descobriram que o seu eleitorado não é tão galvanizado por questões “morais” como o foram em eleições recentes; as razões pelas quais as pessoas votaram em Obama parecem predominantemente económicas e as suas razões parecem mais estruturadas pela racionalidade neo-liberal que por preocupações religiosas. Esta é claramente uma das razões pela qual a função de Palin, de galvanizar a maioria do eleitorado com questões morais, falhou. Mas se questões “morais” tal como o controlo de armas, direito ao aborto e direitos de homossexuais não foram tão determinantes como anteriormente, talvez isso tenha acontecido porque se desenvolvem num compartimento distinto da mente política. Noutras palavras, estamos confrontados com novas configurações da crença política que tornam possível ter simultaneamente visões aparentemente díspares: por exemplo, alguém pode discordar do Obama em relação a certas questões e ainda assim ter votado nele. Isto torna-se mais óbvio no surgimento do anti-efeito Bradley, quando os votantes confessaram explicitamente o seu racismo, mas afirmando que de qualquer forma votariam em Obama. Há pequenas anedotas no terreno como a seguinte: “Eu sei que Obama é um muçulmano e um terrorista, mas votarei nele de qualquer maneira; ele é provavelmente melhor para a economia.” Estes eleitores mantiveram o seu racismo e votaram em Obama, conservando os seus valores díspares sem ter que os resolver.

A par com uma forte motivação económica, factores menos discerníveis empiricamente contribuíram para o resultado destas eleições. Não podemos compreender a repugnância que Bush, em representação dos EUA, provocou no resto do mundo, um sentido de embaraço sobre as nossas práticas de tortura e detenção ilegal, um sentido de repulsa em relação a uma guerra cujos motivos foram falsos e que propagou visões racistas do Islão, um sentido de alarme e horror face a extremos de desregulação económica que levaram a uma crise económica global. Será apesar da sua raça ou por causa da sua raça, que Obama surge finalmente como o representante preferido da nação? Satisfazendo essa função representativa, ele é simultaneamente negro e não negro (alguns dizem “não é suficientemente negro” e outros dizem “demasiado negro”) e, como resultado, pode chamar eleitores que não só não têm forma de resolver esta ambivalência como não querem ter essa ambivalência. A figura pública que permite às gentes manter e mascarar as suas ambivalências aparece ainda assim como uma figura de “unidade”: esta é certamente uma função ideológica. Tais momentos são intensamente imaginários mas não são, por essa razão, despidos da sua força política.

À medida que a eleição se aproximava, houve um interesse crescente na personalidade de Obama: a sua gravidade, a sua reflexão, a sua capacidade para não se exaltar, a sua forma de se manter indiferente face a ataques dolorosos e retórica política vil, a sua promessa de recriar uma nação que acabe com o actual embaraço. Claro, a promessa é tentadora mas, e se o abraçar de Obama nos levar a acreditar que acabaremos com toda a dissonância e que a unidade é efectivamente possível? Qual é a possibilidade de sofrermos uma certa e inevitável desilusão quando o líder carismático mostrar a sua falibilidade, o seu desejo de compromissos e até de “venda” das minorias? De facto ele já o fez de certa maneira, mas muitos de nós põem de lado essas preocupações de forma a desfrutar a “desambivalência” do momento, arriscando uma exuberância acrítica apesar de sabermos o que isso significa. Bem vistas as coisas, Obama muito dificilmente pode ser considerado um esquerdista, independentemente dos epítetos de “socialista” proferidos pelos seus opositores conservadores. De que forma as suas acções serão condicionadas pela política partidária, interesses económicos e poder de estado; de que forma não foram já comprometidas? Se através desta presidência, procurarmos ultrapassar o sentido da dissonância, então teremos descartado a política crítica em favor de uma exuberância cujas dimensões fantasiosas terão as suas consequências. Talvez não possamos evitar este momento de fantasia, mas tenhamos consciência sobre o facto de ele ser tão temporário. Se há racistas declarados que dizem “sei que é Muçulmano e terrorista mas votarei nele” há certamente pessoas à esquerda que dizem “sei que ele vendeu os direitos dos homossexuais e a Palestina, mas ainda assim é a nossa redenção.” Percebo muito bem, mas mesmo assim, esta é formulação clássica da negação. Porque meios mantemos e mascaramos crenças políticas conflituosas como estas? E a que custo político?

Não há dúvida que o sucesso de Obama terá efeitos significativos no rumo económico da nação e, parece razoável assumir que teremos uma nova forma de olhar para a regulação económica e uma visão da economia que se aproximará das formas sociais-democratas europeias; nos negócios estrangeiros, veremos sem dúvida um renovar de relações multi-laterais e o retrocesso da tendência fatal para a destruição de acordos multi-laterais da administração Bush. E haverá sem dúvida, nas questões sociais, uma tendência mais à esquerda, apesar de ser importante lembrar que Obama não defendeu os cuidados de saúde universais e não apoiou explicitamente o direito ao casamento de pessoas do mesmo sexo. E não há ainda muita razão para ter esperança no desenvolvimento de uma política americana justa no Médio Oriente, apesar do grande alívio que é saber que ele conhece Rashid Khalidi.

O significado indiscutível da sua eleição tem tudo a ver com o superar dos limites impostos implicitamente às conquistas dos Afro-Americanos; ele irá, ao mesmo tempo, precipitar uma mudança na auto-definição dos Estados Unidos. Se a eleição do Obama assinala uma vontade de parte da maioria dos eleitores para serem “representados” por este homem, resulta que o quem “nós” somos se reconstituiu: somos uma nação de muitas raças, de raças misturadas; e dá-nos a ocasião de reconhecer em quem nos tornámos e o que teremos ainda que ser, sendo ultrapassada desta forma uma aparente fractura entre a função representativa da presidência e as gentes que são representadas. É um momento empolgante, certamente. Mas durará e deverá durar?

A que consequências levarão as expectativas quase messiânicas colocadas neste homem? De forma a que esta presidência tenha sucesso, terá que levar a alguma desilusão e terá que sobreviver à desilusão: o homem tornar-se-á humano, mostrar-se-á menos poderoso do que o que desejaríamos e a política deixará de ser uma celebração sem ambivalência e sem cautelas; de facto, a política será menos uma experiência messiânica e mais o espaço de encontro de um debate vigoroso, crítica pública e do antagonismo necessário. A eleição de Obama significa que o terreno para o debate e o combate mudou e é certamente um terreno melhor. Mas não é o fim do combate e seria pouco inteligente olhá-lo dessa forma, mesmo que provisoriamente. Certamente concordaremos e discordaremos com várias das acções que tome e que não tome. Mas se a expectativa inicial é que ele é e será a própria “redenção”, iremos puni-lo sem misericórdia quando nos desiludir (ou iremos encontrar formas de negar ou suprimir essa desilusão de forma a manter a experiência de unidade e amor sem ambivalência).

Se a consequente e violenta desilusão pode ser precavida, ele deverá agir bem e rapidamente. Talvez a única forma de prevenir um “choque” – uma desilusão de grandes proporções que se viraria politicamente contra ele – será tomar acções decisivas nos dois primeiros meses da presidência. A primeira seria fechar Guantanamo e encontrar formas de transferir os processos dos detidos para tribunais legítimos; a segunda seria criar um plano para a retirada das tropas do Iraque e começar a implementar esse plano. A terceira seria retratar-se das considerações bélicas sobre a escalada da guerra no Afeganistão e a procura de soluções diplomáticas e multilaterais nesse campo. Se falhar nestes passos, o seu apoio à esquerda deteriorar-se-á claramente e verá reconfigurar-se a clivagem entre os falcões liberais e a esquerda anti-guerra. Se nomear os preferidos de Lawrence Summers para posições chave do seu gabinete ou continuar as políticas económicas desastrosas de Clinton e Bush então, em determinada altura, o messias será denunciado como um falso profeta. No lugar de uma promessa impossível, precisamos de uma série de acções concretas que comecem a reverter a abolição da justiça cometida pelo regime de Bush; menos que isso levará a uma desilusão violenta com consequências. A questão é saber em que medida a “des-ilusão” é necessária, de forma a regressarmos à política crítica e, que forma violenta de “des-ilusão” nos fará voltar ao intenso cinismo político dos últimos anos. Algum alívio da ilusão é necessário, de forma a que nos lembremos que a política, trata menos da pessoa e da promessa bela e impossível que representa, do que trata de mudanças concretas em políticas que podem começar, com o tempo e com dificuldade, a dar-nos formas de maior justiça.»


| no dia em que o joe strummer morreu ou, numa alternativa mais alegre, na noite em que o obama ganhou | amarante | portugal | outubro 2008 |

quarta-feira, novembro 05, 2008

O contrário da violência.

Há coisas que leio com imenso gosto...

«Em grandes traços, as soluções passam, em primeiro lugar, por saber gerir a violência não só para o exterior do movimento (forças de segurança, autoridades, etc...) mas também para o seu interior (algo muito menos julgado frequentemente, pelos níveis de sexismo, agressividade e outras formas de violência visível nos espaços do movimento).
Em segundo lugar, há que combater a violência com o seu único antídoto: o humor. Ao contrário do que é costume pensar, o contrário da violência não é a paz mas o humor. Os activistas com tendência para a violência têm personalidades mais propícias ao drama que ao humor. Para gerir a violência faz falta ler muito menos o «Que fazer?» e ver muito mais os Monty Python.»

Tradução minha.


| pico | junho 2006 |

sexta-feira, setembro 26, 2008

Uns picam, outros não.

Querido Mundo,
voltando à velha discussão... Já sabes que isto ainda está por debater em frente a uns pimentos padrão e umas cervejinhas.

Vou discutir isto com menos bibliografia que tu, algo que sei que não te deixará melindrado. :-)

Para começar falo-te de um dos princípios elementares de qualquer programador iniciado: o «se, então, senão» [if, then, else]. Com esta regra de decisão tão simples, muitos problemas da humanidade têm sido resolvidos. Isso porque os computadores são só ["só" :D ] máquinas de estado. Em certo sentido não são muito diferentes dos primeiros teares mecânicos, capazes de "recordar" um padrão para a criação de um tecido.

Isto tudo por causa do Negri? Sim, por causa do Negri. Por trás da sua capa de pensador contemporâneo sinto que o Negri nesta discussão sobre a Europa comete um erro elementar. Olhar para um processo social como sendo uma condição "if, then, else" é algo que nem um programador iniciado comete. Pela simples razão que as pessoas não são máquinas de estado, nem teares mecânicos.

Defender a instituição do neo-liberalismo pan-europeu para o melhor combater é por si só um pouco esquizofrénico. Mas afirmar que um "processo constituinte" só pode ser obtido percorrendo esse caminho é o típico argumento "mecanicista", comum aliás a muitas das discussões da esquerda. Com a devida distância, é uma linha de pensamento particularmente acarinhada pelos estalinistas na sua lógica de "revolução nacional" seguida de "revolução operária", que pretende mimetizar a todo o custo e em qualquer sítio do mundo a revolução russa (paz à sua alma).

E é falso pensar que todo o "não" ao tratado/constituição é exclusivamente uma resposta nacionalista, como de forma tão divertida o desmontou o Paco.

Esta é uma discussão exclusivamente táctica. Ao fim e ao cabo nunca se discute a essência do projecto. Mas penso que poderíamos mandar um mail ao Negri, mandando-o passear com o seu argumento profético "if, then, else". É um argumento que não poderemos aceitar, excepto se estivermos a falar de software.

:p

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| a multitude e um acordeão | euro 2004 | porto | 2004 |

domingo, setembro 21, 2008

Negri strikes back

Num artigo no diagonal, António Negri, relança uma discussão que será central em 2009 (se é que não central há muitos anos).

Dos anticorpos mútuos que guarda com correntes trotskistas europeias (a propósito, foi publicada uma tradução portuguesa de um livro que resume esse rendilhado), Negri acusa-as de fazerem coro com os Estados Unidos no sentido de derrotarem a constituição e a sua fénix, o tratado de Lisboa.

O argumento em si esclarece pouco e não junta nada à discussão. Aliás Negri poderia usar a mesma figura de estilo, acusando a extrema-esquerda europeia de fazer coro com a extrema-direita. Teria o mesmo significado intelectual.

De Negri fica-me exactamente a mesma sensação com que fiquei ao acabar de ler o Multidão: Negri fica paralisado perante a acção em política. Mas se em Multidão se encontra uma análise séria e interessantíssima do panorama internacional, este artigo é um panfleto no seu pior sentido.

É evidente que há inúmeros matizes nas formas que o "não" da esquerda toma perante a constituição e por isso o que mais surpreende é que alguém com a bagagem de Negri os escamoteie, metendo num mesmo saco um arco-iris (ou uma multitude, conforme a terminologia) de opiniões.

Parece no mínimo ridículo pensar que a Constituição poderia "afundar o Atlântico", quando o texto do novo tratado assume desde logo a centralidade da Nato no respeitante à defesa europeia. Diz assim:

"Os compromissos e a cooperação neste domínio respeitam os compromissos assumidos
no quadro da Organização do Tratado do Atlântico Norte, que, para os Estados que são
membros desta organização, continua a ser o fundamento da sua defesa colectiva e a
instância apropriada para a concretizar"

A Europa é a nossa terra, tal como esta é a minha rua, mas a mim deixa-me algum incómodo esta leitura de "nacionalismo europeu" que se adivinha nas entrelinhas do que escreve Negri.

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| mosteiro de rila | bulgária | 2007 |

terça-feira, maio 20, 2008

Dicionário de Calão

O CDS, partido onde tradicionalmente militam os bétinhos, ficou melindrado pelo facto de os toxicodependentes designarem os bétinhos como gajos que não se drogam. E mais melindrado ficou pelo facto de o IDT, no seu site infanto-juvenil descrever essa terminologia. Basta visitar o site com olhos de ver para se perceber que ali, em nenhum sítio, se faz a apologia do consumo.

Daí até que esse dicionário de calão fosse suspenso, foi um passinho de fada.

Não me apetece sequer discutir a questão. Tudo isto tresanda a censura e a uma forma de resolver os problemas juvenis e familiares que se baseia na ocultação, na proibição e, em última análise, em desviar o olhar da realidade.

Eu limito-me a fazer o que posso. Por isso aqui fica a versão completa (e não censurada) do dicionário, com as definições de "betinho, "cócó" e "careta".

Aqui vai:

Abébia
Mentira

Açúcar
Heroína.

Agarrado
Fisicamente dependente de uma ou mais drogas.

Água
"Vem aí a água..." - vem aí a polícia.

Algodão
Algodão utilizado como filtro na preparação da dose injectável de droga.

Anfes
Anfetaminas.

Angel dust
PCP ou fenciclidina.

Atacar
Prostituir-se.

Ataque
Prostituição.

Atracar
Puxar e travar o fumo.

Aviado
Avaliação da quantidade de droga fornecida por um determinado preço.

Bacalhau
"Dar um bacalhau" - injectar heroína.

Bad trip
Má viagem; sensações angustiantes ou horríveis provocadas pelo consumo de alucinogéneos

Badalo
Injecção endovenosa de droga.

Bafinho
Heroína fumada

Bafo
Heroína fumada.

Balázio
Injecção endovenosa de droga.

Bandeira
"Dar bandeira" - vigarizar; dar nas vistas.

Banhada
"Dar ou levar banhada" - vender outra substância como se fosse droga. Pagar e não receber droga.

Baptizar
Iniciar na droga.

Baril
"Porreiro"; agradável.

Base
Cocaína pronta para fumar.
Mistura de cocaína com bicarbonato de sódio ou amoníaco e água.

Bater
Sentir o efeito da droga.

Bater um couro
Mentir. Contar uma história para obter dinheiro.

Bazar
Fugir.

Bebedeira
Efeito do consumo excessivo de álcool.

Besana
Embriaguez. Bebedeira.

Betinho
Conservador ou "arranjadinho".

Bezegol
Haxixe com muito óleo.

Bezerrar
Estar sonolento sob o efeito da droga.

Bico
Aspiração nasal de drogas.

Black tar
Heroína.

Bófia
Polícia.

Boi
Marijuana.

Bolha
O aquecimento da heroína transforma o pó em líquido cujo fumo será inalado.

Bomba
Consumo injectado de heroína.

Borregar
Adormecer. Ficar sedado.

Branca
Cocaína base.

Branquinha
Cocaína.

Broa
Polícia

Broca
Charro. Cigarro de haxixe ou erva.

Brown
Heroína acastanhada.

Brown sugar
Heroína acastanhada.

Buba
Embriaguez.

Bué
Muito. Intenso.

Bufar
Denunciar.

Burra
Heroína.

Caldar
Injectar-se com droga.

Caldear
Injectar-se com droga.

Caldo
Dose de heroína injectável.

Camelo
Transportador internacional de droga. Correio.

Canalização
Veia. Cano.

Caneca(o)
Garrafa para fumar "base" (cocaína).

Cânhamo
Variedade de cannabis sem nenhuma ou pouca concentração de THC.

Cano
Veia. Canalização.

Caramelo
Fase de preparação da heroína fumada.

Carência
Privação de droga. Ressaca.

Careta
Aquele que não se droga.

Carica
Tampa de cerveja de litro onde se prepara o caldo.

Cassete
Charro. Cigarro de haxixe ou erva.

Castanha
Heroína.

CAT
Centro de Atendimento a Toxicodependentes.

Catado
Estar preso. Apanhado. Detido.

Cavalete
Heroína.

Cavalo
Heroína.

Cena
Esquema. Consumo. Desatino.

Centenário
Variedade de ácidos, comemorativos do centenário da independência dos EUA.

Chamon
Haxixe.

Charrar
Fumar charros.

Charro
Cigarro de haxixe ou erva.

Chavalo
Jovem.

Cheirinho
Fumar heroína.

Cheiro
Inalação de drogas, colas ou outros produtos voláteis.

Chibar
Aquele que denuncia algo ou alguém.

Chibo
Denunciante.

Chica
Seringa.

Chilom
Cachimbo para fumar droga.

Chinar
Agredir com faca.

Chinesa
Heroína fumada.

Chino
Agredir com canivete.

Chnouk
Heroína.

Chocolate
Haxixe em placas.

Chosa
Produto. Droga.

Chota
Polícia.

Chui
Polícia.

Chuto
Injecção endovenosa de droga.

Coca
Cocaína. É um componente do crack, base e speed ball.

Coche
Pouco.

Cocktail
Mistura de drogas. Speed ball (heroína + coca).

Cocó
Betinho. Queque.

Cola
Colas voláteis que são usadas como inalantes.

Colher
Pôr na colher.

Comunidade
Comunidade Terapêutica

Controle
O que vende droga.

Corpo Santo
Narcóticos Anónimos, Famílias Anónimas, Alcoólicos Anónimos.

Correio
Transportador de droga.

Cortar
Falsificar droga juntando outras substâncias para aumentar volume e o peso.

Cotas
Pais ou outros adultos.

Crack
Cristais duros obtidos a partir da cocaína.

Cristal
Feniclidina, Pó-de-Anjo, PCP.

Cura
Desintoxicação. Desabituação.

Curro
Haxixe, em Lisboa.

Curte
Acontecimento agradável.

Curtir
Sentir prazer.

Dar
Consumir.

Dar a boca
Enganar. Roubar na qualidade e na quantidade de drogas. Tirar benefício material.

Dar de pino
Sair do local. Sair de casa. Desabrochar.

Dar na china
Consumir heroína fumada.

Dar na fruta
Drogar-se.

Dar nela
Drogar-se. Adicto.

Dar no cavalo
Consumir heroína.

Dar no pó
Consumir heroína.

Dar o banho
Enganar.

Dar uma passa
Fumar haxixe ou erva.

Dar-se à morte
Denunciar-se. Entregar-se.

Dealer
Vendedor de droga.

Desabituação
Desintoxicação em internamento. Tratamento da síndroma de privação.

Desatino
Conflito. Complicação.

Desbroncar
Sair de casa. Clarificar a cena.

Desbunda
Consumo exagerado numa vivência expansiva.

Descida
Retoma de consciência, quando termina o efeito da droga, Regresso à realidade.

Desintoxicação
Desabituação.

Desmame
Deixar de consumir. Desintoxicar-se.

Desmarcar
Passar. Entregar.

Desmarcar da droga
Deitar fora.

Destilar
Processo de preparação de uma substância para injectar.

Desvainar-se
Mudar de assunto.

Dilar
Negociar com drogas.

Diluente
Solvente.

Dispensar
Vender droga "por favor"; representar.

Down
Depressão ("Estar em baixo").

Drogarias
Drogas.

Drogas duras
Drogas que provocam grande dependência física e ressaca difícil (exemplo: heroína, cocaína, álcool, medicamentos).

Drogas frias
Drogas estimulantes (exemplo: cocaína, anfetaminas) ou alucinogéneas (exemplo: haxixe, LSD).

Drogas ilícitas
Drogas que são ilegais (exemplo: haxixe, heroína, cocaína, LSD, ecstasy).

Drogas leves
Drogas que provocam pouca dependência física e ressaca mais leve (exemplo: erva, haxixe).

Drogas lícitas
Drogas que são legais (exemplo: álcool, solventes, drunfos, metadona, morfina, cafeína, tabaco).

Drogas quentes
Drogas sedativas (exemplo: heroína, barbitúricos).

Drunfar
Estar "embriagado" com hipnóticos ou outros sedativos.

Drunfos
Comprimidos de metaqualona. Por extensão do conceito é aplicado a outros sedativos, particularmente hipnóticos.

Ecstasy Líquido
GHB - droga depressora, conhecida nos EU por droga das violações

Empenhar
Entregar ao dealer, a título provisório, objectos de valor como garantia de pagamento.

Encanado
Preso. Detido.

Enrolar
Fazer um cigarro com haxixe ou erva. Enrolar um charro.

Entrar no pó
Iniciar o consumo de heroína.

Erva
Marijuana: derivado da cannabis (folhas e flores).

Erva do diabo
Planta a partir da qual se prepara um chá, com efeitos alucinogéneos.

Esquema
Tráfico de droga. Processo ardiloso de obter dinheiro ou outros benefícios.

Estar careta
Não estar drogado.

Estar fechado
Não praticar o consumo de drogas.

Estar stone
Estar pedrado.

Estramónio
Erva do diabo (cacto).

Falta
Carência de droga.

Fatela
O que não presta.

Fazer a cabeça
Impingir ideias.

Fazer um deal
Traficar.

Fazer uma cena
Consumir. Fazer um esquema.

Fazer uma lavagem
Utilizar um algodão já usado.

Febre de limão
Síndroma febril, passageiro, atribuído pelos toxicodependentes à utilização de limões deteriorados na preparação de um "chuto" de heroína.

Ferrado
Dose com menor quantidade de droga do que o previsto. Mal aviado.

Figueira do Inferno
Erva do diabo.

Filar
Aproveitar.

Filtro
Algodão.

Fixo
Injectar-se na veia.

Flash
Efeito súbito e intenso produzido por algumas drogas.

Flashback
Retorno de um quadro alucinatório, angustiante, algum tempo (semanas ou meses) após ter parado o consumo de drogas estimulantes ou perturbadoras.

Flipado
Estar fora da realidade.

Flipanço
Perturbação psíquica grave, mais ou menos durável, provocada pelo consumo de drogas.

Flipar
Enlouquecer. Psicotizar.

Flipe
Chatice. Aborrecimento.

Formiga
Passador de droga. Correio.

Freak
Consumidor de drogas injectáveis.

Frosques
Sair de casa.

Fumado
Estar sob o efeito de droga fumada.

Fumar
Charrar. Queimar.

Fumar uma ganza
Fumar um charro.

Fumito
«Dar um fumito» fumar droga.

Fumo
Fumar droga.

Ganza
Charro. Cigarro de haxixe ou erva.

Ganzar
Fumar erva ou haxixe. Sentir o efeito da droga.

Garrote
Apetrecho utilizado a fim de dar o "chuto".

Gazoza
Cachimbada de cocaína base.

Gold
Heroína muito pura.

Gulosa
Cocaína.

H
Heroína.

Hash
Haxixe.

Hax
Haxixe.

Hax de placa
Haxixe proveniente dos pedaços que se libertam do sabonete aquando do corte.

Heroa
Heroína de rua.

High
Bem-estar sob a sensação de uma droga.

História
Mentira.

In
«Estar in» estar na moda.

Inê
Cosmético que se confunde com haxixe, sendo vendido como tal.

Janado
Drogado.

Joint
Charro. Cigarro de haxixe ou erva.

Judite
Polícia Judiciária.

Júlia
Cocaína.

Junkie
Dependente grave que se injecta.

K
Ketamina

Kif
Haxixe marroquino.

Kit
Conjunto de acessórios distribuídos na troca de seringas aos toxicodependentes problemáticos onde se inclúi duas seringas, um filtro, dois toalhetes desinfectantes, dois recipientes, duas carteiras de ácido cítrico, uma ampola de água bidestilada e um preservativo.

Kristal
PCP ou fenciclidina.

Lamela
Placa ou blister de comprimidos ou cápsulas.

Liamba
Erva (Angola).

Líquido E
GHB - droga depressora, conhecida nos EU por droga da violação

Líquido X
GHB - droga depressora, conhecida nos EU por droga das violações

Maconha
Erva (Brasil).

Mandar sabão
Sermão.

Máquina
Seringa.

Marijuana
Erva (Brasil).

Martelo
Injectar heroína (o efeito é repentino como uma martelada).

Meia
Dose de droga (1/2g).

Meio
Ambiente onde circulam drogas.

Merda
Droga. Veneno.

Meta
Metadona.

Meter
Consumir droga por via oral ou endovenosa.

Meter os pés
Enganar.

Moca
Estar sob o efeito da droga.

Monaria
Polícia

Mono
Polícia.

Morfa
Morfina.

Música rave
O rave caracteriza-se por retomar a festa, nas suas virtudes trangressivas, ideia multicultural, contributo político e religioso e com uma dimensão tribal das referências, intensidade do transe colectivo e rituais comunitários.

N.A.
Narcóticos Anónimos.

Neve
Cocaína

Nóias
Ideias erradas. Paranóias.

Óleo
Óleo destilado da cannabis, óleo de haxixe.

Onda
Atitude. Escolha. ?Estar na onda? ? estar sintonizado com.

Overdose
Ingestão excessiva de um medicamento ou uma droga que pode ter consequências letais. Excesso acidental ou intencional de droga ou de drogas, habitualmente, provocado pelo consumo por via endovenosa. Intoxicação aguda.

Palha
Dose de heroína embalada num pedaço de palhinha de sumos.

Panfleto
Pequena dose de heroína, embalada em plástico.

Pantera
Variedade de LSD.

Papa
Heroína de rua.

Papar grupos
Ser enganado.

Papel
Dose de heroína. Dinheiro.

Papeleto
Pequena dose de heroína embalada em mortalha.

Papétrio
Agarrado.

Paragem
Suspender os consumos.

Parampo
Charro. Cigarro de haxixe ou erva.

Parar
Suspender os consumos de droga.

Partir
Início da alteração de consciência provocada pelo uso de alucinogéneos.

Passa
Fumar erva ou haxixe.

Passado
Estar fora da realidade. Drogado.

Passador
Vendedor de droga.

Passar
Vender droga.

Pastilhar
Consumir pastilhas.

Pastilhas
Comprimidos.

PCP
Feniclidina. Pó-de-anjo.

Peace pill
PCP ou fenciclidina.

Pedra
Pedaço de haxixe. ?Estar com a pedra? ? estar drogado.

Pedra de hax
Pedaço de haxixe.

Pedrado
Estar drogado com haxixe ou drogas sedativas.

Pedrinha
Base de cocaína para fumar no caneco.

Pica
Charro. Cigarro de haxixe ou erva.

Picar
Injectar droga na veia.

Pico
Injecção nas veias.

Pingo
Estar sob o efeito da droga, completamente fora.

Pintão
Maniento.

Pintor
Dose de haxixe.

Pirâmide
Variedade de LSD.

Pistola
Injectar-se: seringa.

Planar
Estar tranquilo sob o efeito de drogas (cannabis ou opiódes).


Heroína de rua.

Pó de Anjo
PCP ou fenciclidina.

Poeira
Heroína de rua (a de menor qualidade, a mais adulterada/traçada).

Poppers
Líquido alucinogénio altamente potente.

Porro
Haxixe.

Prata
Heroína fumada. Prata do maço de cigarros ou similar.

Produto
Drogas em geral, mas especialmente heroína.

Prostituição
Ataque.

Prostituir-se
Atacar.

Quarta
Dose de heroína.

Quarteira
Dose de ¼ g.

Queca
Ter relações sexuais.

Queimar
Aquecer com o isqueiro a heroína ou cocaína.

Ramona
Polícia.

Refundir
Vender. Trocar por droga.

Representar
Oferecer droga. Vender por favor. Dar e consumir juntos.

Ressaca
Síndrome de abstinência, de carência, de privação. Sensação de mal-estar psíquico (nos consumidores de cocaína) ou físico (nos consumidores de heroína) após suspensão da droga no toxicodependente.

Rock
Crack.

Roipar
Estar drogado com roipes (fármaco hipnótico).

Sabão
Sermão.

Sabonete
250g de haxixe.

Sair
Deixar de consumir droga.

Salas
Reuniões dos N.A.

Sentir subir
Sentir os efeitos iniciais da droga.

Shoot
Aspiração nasal de cocaína, heroína, colas ou solventes.

Shot
Mistura de bebidas brancas servidas em pequenas doses.

Sniff/sniffar
Aspiração nasal de droga (cocaína, heroína ou solventes).

Snow
Cocaína.

Soruma
Erva (Moçambique).

Special K
Ketamina.

Speed
Droga psico-estimulante (cocaína, anfetaminas).

Speed ball
Mistura de uma droga estimulante (cocaína) com uma droga sedativa (heroína), usada por via endovenosa.

Speed cristal
Variedade de anfetaminas injectáveis.

Speed freek
Indivíduos que ficam vários dias acordados devido aos efeitos das anfetaminas.

Stone
Estar muito pedrado.

Subir
Sentir os efeitos iniciais da droga. Fase inicial no consumo de ácidos.

Submarino
Mistura de bagaço com cerveja.

Tablete
Placa de haxixe.

Taco
Pedaço de haxixe.

Tanga
Mentira.

Tarolo
Charro. Cigarro de haxixe ou erva.

Tigre
Heroína

Tirante
Fio de ouro.

Tirito
Injecção de droga (heroína).

Toínha
Fumar droga.

Traço(a)
Porção de cocaína em linha para ser sniffada.

Traficante
Negociante de droga.

Tráfico
Comércio de droga.

Tranzar
Vender droga.

Travar
Reter o fumo.

Tripar
Estar sob o efeito de alucinogéneos.

Tripe
Drogar-se com ácidos. Período de perturbação da consciência provocado por alucinogénios.

Usar
Consumir.

Vaipe
Impulso.

Vaquinha
Juntar dinheiro com outra pessoa para comprar droga.

Veneno
Droga. Heroína.

Viagem
Sensações (des) agradáveis causados pelos alucinogéneos.

Vibrações
Sensações causadas por pessoas ou pelo ambiente onde se está. Sensações com carga afectiva, causada por pessoas ou ambiente.

Vigarizar
Dar a bandeira.

Vitamina K
Ketamina

Vulcões
Variedade de LSD.



| atomium | bruxelas | abril 2008 |

segunda-feira, maio 12, 2008

Deveria ser possível dar chapada em certas pessoas, só porque sim.

Sempre achei divertida a ideia de que alguém poderia ser corrido da política da melhor maneira - após uma derrota improvável - para voltar passado uns anos como se nada tivesse acontecido. Foi esse o caso do Cavaco, que nas primeiras eleições presidenciais onde participou, foi humilhado por um candidato que sempre foi apresentado como derrotado à partida. Cavaco nunca tinha perdido umas eleições até aí. Nessa altura, até eu votei no Jorge Sampaio.

Em favor da eleição do Cavaco para a presidência jogou não só o comportamento deplorável do PS, como o início da decepção com a governação do Sócrates. Mas foi fundamental, como é evidente, a ausência absoluta de memória histórica por parte de grande parte da população, daquilo que foram os anos de selvajaria do cavaquismo. Uma falha também da esquerda no reavivar da memória desses tempos e do seu contributo para aquilo que o país é hoje.

Mais irónico é ouvir agora Cavaco falar da falta de memória dos jovens portugueses e do seu afastamento em relação à política. Ainda por cima falando do 25 de Abril. Vindo de alguém como o Cavaco, qualquer discurso sobre o 25 de Abril soa a bolo rei mal mastigado. Mas o que mais me choca é a falta de percepção daquilo que é a realidade jovem/juvenil do nosso país em pleno séc XXI.

Para compreender o que é determinante politicamente para alguém com menos de 35 anos, deve olhar-se mais depressa para os anos do cavaquismo e do guterrismo (pga, propinas, provas de aferição, provas globais, educação sexual, cargas policiais, os recibos verdes, as privatizações de serviços públicos, as cunhas, o caciquismo, o fandango do dinheiro europeu, etc...) do que para o 25 de Abril. Irónico.

E além disso, o discurso é terrivelmente paternal, conservador e irrelevante. E em vez de o desmontar dessa forma, toda a gente vai atrás dele procurando argumentos que mostram a vitalidade da juventude e como os jovens são exemplares. Neste país há pouca gente exemplar, sobretudo ao nível das elites. Mas de qualquer maneira por mais voltas que dê a Terra nunca Cavaco será capaz de perceber um jovem. Essa distância é uma saudável barreira higiénica.

Em 1934 quantos jovens saberiam quem foi o primeiro presidente da república? E hoje, quantos adultos o sabem? E já agora, isso é tão determinante para a compreensão da realidade social e política da juventude?

A política em Portugal não tem credibilidade. É em certa medida inconsequente. Ninguém tem culpa de nada, tudo vem já decidido algures de Bruxelas, o Estado parece uma comissão liquidatária dos serviços públicos. Mas olhando para a nossa história recente, que legitimidade tem Cavaco Silva para sugerir uma só medida que seja para melhorar a democracia?

Não há por aí um Bob Geldof que lhe atire isso à cara?



| atomium | bruxelas | abril de 2008 |

quarta-feira, março 19, 2008

Crónica de uma não crónica.

No domingo passado juro que pensei numa crónica ácida sobre o comício do PS. Não é todos os dias que as "minhas" ruas são colocadas no mapa. De um momento para o outro o país todo discutia a dimensão, a cor e importância do pavilhão do Académico...

Sábado à tarde por pouco não fui atropelado pelo BMW do Manuel Pinho. Costa Cabral tinha sido de repente transformada numa zona de lazer da nossa classe governativa. Um camião TIR cagado no meio da rua suportava um ecran gigante. Com os carros dos ministros parados atabalhoadamente e os agitadores de bandeiras a ocupar a rua era impossível passar por ali. E tal como eu, muitos outros portuenses ao observar "aquilo" viravam costas. No Marquês as pessoas espreitavam o dito ecran - mas ninguém se aventurava pela rua adiante. Por ali viam-se os velhinhos de boina que aproveitam estas ocasiões para tomar os seu banhinho e dar gratuitamente uma volta de autocarro.

Ao comprar pão observei rapaziada da JS a lanchar e a ler jornais desportivos. Sócrates discursava ufano naquele preciso momento. Como é evidente aqueles elementos da JS eram os mais inteligentes das redondezas. Vestiam de amarelo. Matutei: que outra cor poderia a JS ter escolhido? O pão estava quente e a minha filha chamava-me à realidade.

Vi no dia seguinte aquilo que só pude imaginar: os ministros rodeados de gente que os aplaudia, que os elogiava, que os incentivava entusiasticamente. Todos sorriam, o país avançava: a nação podia dormir mais uma noite tranquila.

Mas... que espécie de pessoa se pode deixar entusiasmar por uma "coisa" daquelas. Um ambiente próprio de um estádio de futebol... Um ministro? Os maiores responsáveis do país? Os nossos melhores quadros?

Aquilo resume-se a uma "eurodisney" para ministro ver. Um cenário para o primeiro-ministro brilhar. Um destes dias os papalvos nem sequer são militantes e tudo se resume a uma encenação hi-tech com figurantes pagos - se é que já não é assim...

A ironia: ali ao lado, a menos de 10 metros do pavilhão do académico, a antiga obra social do Ministério das Obras Públicas. Uma das melhores instituições da cidade para crianças: com profissionais competentes, um exemplo de "melhores práticas" e ainda por cima estatal. Em menos de um ano foi deixada no limbo das decisões ministeriais, ameaçada de fechar e/ou de ser desmembrada. Mas, como é evidente, da mesma forma que quem visita a Eurodisney não espera encontrar por lá gente sem-abrigo, ali ninguém estava propriamente interessado em ouvir falar de "coisas desagradáveis".

No domingo felizmente não me ocupei de palermices.



| avenida dos aliados | euro 2004 |

segunda-feira, dezembro 31, 2007

Copos sábado à noite?

O cheirinho de alecrim.

O tabaco em si é apenas uma planta. Como provavelmente muitos de vocês sabem, uma das coisas que me chateia há muitos anos é vir para casa com perfume a tabaco. Por qualquer motivo que não posso explicar por completo incomoda-me o cheiro. Não me incomodam o cheiro de outras plantas. Por exemplo, o alecrim, o tomilho, os oregãos ou o louro. Gosto até bastante de coentros. Tabaco, confesso que nunca apreciei.

Pouca gente saberá quais os efeitos de passar o dia a queimar louro seco e a metê-lo para dentro dos pulmões. Ou alecrim, oregãos ou coentros. Dito assim parece uma coisa bastante ridícula, não é verdade? Quem se lembraria de fazer semelhante disparate? Mas pelos vistos há quem tire um prazer enorme em fazê-lo com outras plantas, sendo o tabaco uma delas... Eu ainda assim continuo a achar que os coentros são melhores fresquinhos no prato, do que queimados depois de secos.

a liberdade.
Assustam-se muito os proprietários de cafés, bares e restaurantes com a nova lei sobre o tabaco. Os jornalistas fazem coro. Os fumadores, passarão a ser oprimidos e certamente haverá até quem já se tenha dedicado a explicar como a lei é pura e simplesmente fascista. A liberdade dos fumadores está posta em causa! Estou a ficar careca, mas fico com os cabelos em pé de cada vez que penso que a liberdade está posta em causa. Nem pensar nisso! Tenho muitos amigos fumadores, como vão agora tirar-lhes essa liberdade? Nã, nã, nã... que eu também sei daquela citação do Brecht...

old school rulez.
Os revolucionários franceses do séc. XVIII perceberam muito bem essa coisa da liberdade. E perceberam-na tão bem, que a fecharam num círculo com outros dois conceitos: a igualdade e a fraternidade. Qualquer um destes, sem os outros dois, seria despido de sentido. Até agora a regra tem sido olhar para o tabagismo como a liberdade de fazer fumo em sítios fechados, em nome do prazer próprio ou doutra coisa qualquer que eu não estou em condições de perceber. E essa era a regra. A mim que me chateava o cheiro da dita planta, restava-me a liberdade de não frequentar cafés, bares e (aqui para nós que ninguém nos ouve) a liberdade de deixar de participar em determinadas reuniões, mesmo que cercado de camaradagem ecologista. Exerci essa liberdade (e continuarei a fazê-lo) muitos anos.

Ponho-me para aqui a pensar com os meus botões, enquanto vejo notícias que anunciam que muitos bares, discotecas, restaurantes de luxo e tascas das mais rascas vão abrir falência. Imagino que não abram falência logo no próprio dia 1 de Janeiro de 2008. Primeiro porque é feriado e segundo porque suponho que toda a gente terá curiosidade em ver como será, antes de abrir falência. Mesmo com a crise, toda a gente tem um pequeno pé de meia. Lá para Fevereiro estará certamente instalado o caos.

Eu estou habituado a ser minoria. Não é bem uma questão de estilo. Será outra coisa qualquer. Eu gosto de pensar que tem a ver com o discernimento - mas essa pretensão pode ser muito bem o primeiro sintoma de como estou enganado. Mas no meio desta história acho que não sou minoria. Pelo contrário, por uma vez acho que faço parte da maioria - um bolchevique afinal.

ano novo
Uma das mudanças que vejo como certa na minha vida em 2008, será certamente o facto de começar a sair mais vezes à noite. Melhor dizendo, não é bem mais vezes - porque agora nunca saio - trata-se de recomeçar a sair à noite. De cada vez que o fizer, pode ser que ajude o dono de algum bar a salvar-se da falência certa. Mas sendo os não fumadores a maioria, talvez a história venha a revelar-se diferente. Ainda assim, não tenho pretensões a adivinho.

Tenho pena que em Portugal uma lei tão sensata tenha sido implementada por um dos governos mais coerentemente e "espertamente" neo-liberais. Posso estar enganado, mas penso que nesta lei pesaram mais os técnicos do Ministério da Saúde, que o programa do governo PS.
Tenho pena que esta lei não tenha sido imposta pelos sindicatos, como uma das formas mais elementares de protecção dos trabalhadores - sobretudo dos que trabalham na restauração.
Tenho pena que tenha sido uma decisão da tecnocracia. É que é sabido, a tecnocracia, ainda que acerte às vezes, falha muitas outras.
Tenho pena que na esquerda, a liberdade de poluir surja como uma contraponto a outra coisa qualquer sempre apresentada como sendo muito (mas muito!) mais importante - a liberdade de ser informado (tanta gente que deve desconhecer os malefícios do tabaco, não é?), de ser estimulado de mil e uma maneiras a deixar o vício (mas então não somos livres de escolher?), a liberdade de ter tratamentos anti-tabágicos pagos (mas... mas... mas... os maços de tabaco, quem os paga afinal?).
Tenho pena que o meu partido tenha tomado a posição ridícula que tomou.

No meio de tanta pena não posso deixar de sorrir ao saber que os deputados não poderão invocar imunidade parlamentar e terão que fumar na rua, fora da assembleia. Dickens teria certamente escrito um livro maravilhoso sobre a questão. Mas fico curioso sobre quem se arriscará a uma conversa de circunstância com o Paulo Portas, na soleira da porta de entrada.

2007 foi o que foi, 2008 será o que será. Eu estou cá para que sejam diferentes um do outro.



| :) | montagem | festas do espírito santo | ponta delgada | açores | julho 2007 |

domingo, abril 22, 2007

Jusqu'ici tout va bien

«C'est l'histoire d'une société qui tombe et qui, au fur et à mesure de sa chute se répète pour se rassurer : "Jusqu'ici tout va bien, jusqu'ici tout va bien, jusqu'ici tout va bien." Mais ce qui compte c'est pas la chute. C'est l'atterrissage.»

Conheci o Olivier em 1998. Eu estava de passagem por França, a caminho de uma licenciatura em (deverei dizê-lo?) Engenharia. Na altura vivia apaixonado pelo filme do Kassovitz: «O ódio».

Evidentemente essa paixão não me toldava a razão. Tinha algum receio, até porque me dirigia para uma das zonas com maior taxa de criminalidade da Europa. Nos primeiros dias tremia de cada vez que me pediam "une clope" no RER.

Lembro-me que a sua companheira da altura era brasileira e por isso falava razoavelmente bem português. Ele fazia parte dentro da LCR da tendência R. Uma noite, depois de um jantar mais tardio, em vez de me meter no RER para casa, acabei por ficar em casa dele.

A tendência R, mudou entretanto. Fundiu-se, cindiu-se, extinguiu-se não faço ideia. Já desisti há muito de compreender as idiossincrassias obscuras das tendências trotsquistas. De qualquer maneira devem ter dado a volta ao velhinho Alain Krivine e o Olivier foi hoje candidato presidencial pela segunda vez. Em Portugal, por um preceito constitucional bastante cretino (artigo 122), não poderia sê-lo.

Já lá vão nove anos (e não sete meses, como poderiam ser tentados a pensar). Não posso deixar de sorrir ao ver como aquele gajo, sem deixar de ser carteiro, sem nunca se dedicar profissionalmente à política, acaba de arrumar a candidata comunista e mesmo a decana Arlette Laguiller - essa sim, o verdadeiro postal da política francesa.

Dos tempos que lá passei guardo óptimas memórias. De vez em quando ainda me sai um palavrão em francês - como se fosse eu próprio o Merovingian.

Mas o melhor de tudo é mesmo um cd que ali tenho na gaveta. Ponham-no a tocar no dia do meu funeral.

Mas se não quiserem esperar. Podem ouvir já uma amostra. Com um brinde ao Olivier.

Quadro em lousa, segurado pela mão em frente a uma parede verde e azul, onde se pode ler: 7 meses
| Jusqu'ici tout va bien | 22 de Abril de 2006 |

sexta-feira, fevereiro 02, 2007

Pronto...!

Tenho em relação a este referendo tentado manter uma certa frieza. Não é uma frieza de indiferença, negligência ou alheamento. A verdade é que como provavelmente muita gente favorável à mudança da lei, parece-me que há muito pouco a discutir naquilo que tem sido uma campanha marcada sobretudo pelo campo dos criminalizadores. A minha frieza é uma distância que me é proporcionada pela pobre garantia que terei de poder colocar uma cruz pela mudança da lei.

No meu blogue raramente me dirijo a quem me lê. Gostaria até de imaginar que em certos momentos ninguém me lê e que as pessoa que aqui vêm o fazem exclusivamente pela fotografia. A verdade é que não sei quem me lê. Tenho para ali um contador que é uma intromissão na privacidade dos meus visitantes e que por diversas vezes ponderei apagar. Tenho um endereço de correio electrónico que, se bem me lembro, só foi usado uma ou duas vezes. Abreviando, para além de alguns familiares e amigos que sei que olham para isto e sabem o que penso das coisas, não faço ideia nenhuma de quem me lê nem o que pensam das fotos que vêem. Não faço links nos posts para outros blogues. Os meus amigos sabem que os admiro e não preciso de o dizer a cada passo.

Por isso nessa minha frieza nunca pensei escrever nenhum relambório sobre o referendo. Não gosto de discutir esta questão com ninguém. Tenho-a discutido com pouquíssimas pessoas e poucas são aquelas que reconheço como merecedoras de algum tipo de argumentação / contra-argumentação.

Até que esta manhã ao abrir a minha caixa de correio, encontro uma filha da puta de uma apresentação PowerPoint, enviado por uma besta que comigo trabalha. Foda-se lá o gajo.

[agora, caro leitor, cara leitora, desculpem a linguagem sexista, mas é que eu sou do Porto e revelo-me tal incrível Hulk quando fico agitado.]

Como é natural toda a apresentação está cheia de mentiras sobre tudo e mais alguma coisa. Sobre a lei, sobre a sexualidade, sobre questões familiares, sobre a "vida" e - pelo caminho - sobre mim próprio, fazendo insinuações insultuosas sobre quem discorda da criminalização. Ora que caralho!

A campanha para este referendo tem sido particularmente mais moderada que a campanha de 98. Moderada no sentido em que se acentua o carácter liberal da mudança da lei, deixando a responsabilidade (e a liberdade - aliás indissociáveis) do lado da cidadã. Eu que acho que sou muito mais (ou muito menos) que liberal aceito essa argumentação (que não é a minha) e subscrevo-a em grande medida.

A campanha de quem defende a criminalização é muito dura porque se fundamenta em mentiras, mentiras essas que têm um pano de fundo ideológico e cultural profundo: Portugal é um país atrasado, conservador e regra geral muito pouco esclarecido. É o país dos treinadores de bancada em que todos podiam ser primeiro-ministro mas ninguém quer ser administrador de condomínio. O meu preconceito diz-me que o mundo dos blogues é um bom exemplo disso.

[Aproveito para fazer uma declaração de amor à Ana Sá Lopes, dando graças por saber que ela não votará no PSD tão cedo.]

Mas a questão levantada pelo Portugalzinho que me entrou pela caixa de correio esta manhã é uma discussão de crenças e de fé. É uma discussão sobre o medo que há em assumir responsabilidades (sobretudo ao nível sexual) mas sobre a facilidade que temos em apontar o dedo à vizinha. E é sobretudo uma discussão profundamente masculinizada onde, apesar da palavra "vida humana" encher a boca de muita gente, discute-se muito pouco aquilo que são precisamente os direitos que temos nas nossas vidas (humanas).

[Nomeadamente o direito a não ter a tutela da igreja no nosso sistema jurídico e de saúde.]

A minha vida já teve abortos. No plural. Quero que o meu colega os meta pelo cu acima. Metaforicamente. Não me fodam, já basta o que já basta.


Caro leitor, cara leitora, ainda esta tarde conto ter ali do lado direito o maior banner que encontrar a apelar ao voto sim no referendo. Mandei a frieza às urtigas.


| Rabo de Peixe | S. Miguel | Açores | Junho de 2006 |

terça-feira, fevereiro 22, 2005

Democracia é...

Um partido com 45% dos votos ter 52% dos deputados.
Um partido com 29% dos votos ter 31% dos deputados.
Um partido com 7,6% dos votos ter 6% dos deputados.
Um partido com 7,3% dos votos ter 5,2% dos deputados.
Um partido com 6,4% dos votos ter 3,5% dos deputados.


| Carnaval | Podence | Fevereiro de 2005 |