quarta-feira, abril 29, 2009

Querida geração de Abril.

Querida geração de Abril,
é inevitável olhar para vocês que hoje têm mais de cinquenta anitos e pensar neste país que nos deixaram. Não fosse a vossa geração e uma série de coisas talvez fossem um pouco diferentes. Os direitos democráticos, as eleições livres, as organizações sindicais, a escola pública, o serviço nacional de saúde, os feriados de Abril e Maio e até mesmo a liberdade (que como sabem é a amiga baixinha e chata da Mafalda).

É natural que o tempo esmoreça ânimos, relativize convicções e esqueça velhas quezílias. Os processos revolucionários são dados a posições definitivas, a zangas sérias, a reacções no calor do momento. O tempo parece que acelera nessas alturas. Claro, o tempo, é afinal relativo.

E por isso, meus queridos, vocês que fizeram Abril de vez em quando olham para o país e têm uma certa nostalgia. Há inúmeros casos, mas vejam só como os vossos filhos e os vossos netos são sujeitos a situações abusivas por parte de quem, no poder público, mais responsabilidades tem na protecção da sua dignidade.

E ao olhar para os vossos filhos, que nunca mais saem de casa, sentem - estou certo - alguma dor por pensar que o seu mérito é descartável, que as suas competências não são reconhecidas e que por uma linha de currículum são obrigados a trabalhar de graça (no vosso tempo chamava-se a isso escravatura) e quando têm linhas a mais no currículum são obrigados a escondê-las para que não os considerem "desmotivados" no desempenho de funções menores.

Os vossos filhos estão a um passo de não saber o que é a segurança social, apesar de saberem exactamente o que é um recibo verde, um trabalho temporário ou estágio não remunerado. Quando nascem os vossos netos, os vossos filhos não podem ficar em casa. Recibos verdes. Quando estão doentes não podem ficar de baixa. Estagiários. Quando querem comprar casa precisam de fiadores. Bolseiros.

Querida geração de Abril, vocês hoje são gestores de empresas, ministros e secretários de estado. São directores de serviço, chefes de unidade e administradores públicos. São dirigentes sindicais, deputados e presidentes de junta. São donos de cafés, quiosques e sapatarias. Têm uma casa ou duas, dois carros ou três, três telemóveis ou quatro. É verdade que alguns trabalharam a vida toda e a única política que tiveram foi o trabalho. Hoje têm que trabalhar até aos 65 anos. Outros encostaram-se a este e àquele, lamberam as botas a uns e foram lambidos por outros. Tocaram guitarra nos 70, enganaram a CEE nos anos 80 e fugiram aos impostos nos 90. Alguns já estão reformados e outros estão a ser lixados. Todos sempre gostaram de discutir futebol à segunda-feira de manhã. Votaram na esquerda moderada nas sindicais, no centro moderado nas deputais, e na direita moderada nas presidenciais.

Compreendo que quando às vezes olham para os vosso filhos, fiquem um pouco surpreendidos por eles não saberem bem como era a vida antes de 1974. Os vossos filhos não sabem as dificuldades porque vocês tinha que passar. Às vezes, querida geração de Abril, vocês sentem uma certa ingratidão e incompreensão, não é?

Pois é.

Querida geração de Abril, a questão é que em grande medida, estamos fartos de ser os vossos filhos.



| o eterno retorno | entroido | laza | 2009 |

1 comentário:

miss red disse...

eh pá, juro que nem acredito nesta tua carta - lê a minha, sem saber da tua...

http://oblogouavida.blogspot.com/2009/04/les-soixantes-huitards-sont.html