terça-feira, julho 25, 2006

E milícias populares armadas de auto-tanques de combate ao lume...?

Um fogo precisa necessariamente de um comburente e de um combustível. O comburente é normalmente o elemento mais complicado de explicar para alguém que esteja a dar os primeiros passos em química. Metaforicamente um comburente pode ser explicado pela descrição de uma sequência de telefonemas realizados ao final da manhã de um dia qualquer da semana passada.

Quem viajar ao longo da A4, que liga Amarante ao Porto, pode facilmente encontrar uma série de instalações industriais, desde as famosas fábricas de móveis da Rebordosa, à Lear que se prepara para ir lucrar para outro lado, passando pelas mais variadas cadeias de hipermercados. Mas quem nos interessa nesta história é a fábrica de fogões Meireles situada ao quilómetro 22.

O quilómetro 22 não é um pormenor negligenciável, não senhor. É importante por exemplo para uma denúncia de um acto, digamos assim, de vandalismo. Imaginemos que alguém, nesse percurso de auto-estrada verifica que, em pleno mês de Julho, outro alguém (dentro das instalações dos tais fogões Meireles) se dedica a queimar resíduos em bidões metálicos, com labaredas de metro...

Como se desenrola o processo? Um cidadão preocupado liga naturalmente para o 117. O que é o 117? É a linha de emergência para incêndios florestais. Ok.

-Sim, ahh, é um terreno particular? Pois. E só estão a queimar coisas em contentores? Pronto. Olhe, a verdade é que não podemos fazer nada.
-Não podem fazer nada?
-Só actuamos em caso de incêndio. Terá que ligar para o 112.

[Desliga o telefone. Marca 112.]

-Sim, muito bem, mas terá que ligar o 117.
-Pois, percebo, mas acabo de ligar o 117 e pediram-me para contactar o 112.
-Vamos fazer uma coisa. Vou passar a chamada para a GNR da zona.

[Chamada transferida.]

-Nós podemos até tomar conta da ocorrência. Podemos mandar lá uma patrulha, mas a verdade é que quando lá chegarem o mais natural é já não encontrarem nada.

[neste momento, ainda que não se tenham apercebido passaram mais de 15 minutos, desde a passagem no famoso quilómetro 22. Os cidadãos zelosos estão já a pensar no almoço que os espera no final da viagem e começam a pensar que isso é infinitamente mais importante do que deixar o país arder de lés-a-lés.]

-Muito bem. Então o que é que se pode fazer?
-Ligue a linha SOS Ambiente. É o mais indicado para lidar com estes problemas.

[a chamada é desligada e a partir daqui o cidadão começa, ainda que pouco, a pagar do seu bolso o bem do seu país. O país merece uma chamada para um número azul.]

-[sinal de chamar] [silêncio] [sinal de chamar] [silêncio] (...)
Ninguém atende. Talvez seja melhor voltar a ligar.
-[sinal de chamar] [silêncio] [sinal de chamar] [silêncio] (...)
Pois é. Ninguém atende.

O comburente é uma metáfora rebuscada sobre a lassidão.
O combustível é bem mais fácil de explicar. É aquilo que faz com que desde o servente, ao director de uma fábrica, todos achem normal queimar resíduos a céu aberto. O burgesso é o combustível, o país é o comburente. Para todos eles deveria haver uma linha SOS.


| Estação de S. Bento | Porto | 2003 |

3 comentários:

Lis disse...

«António Meireles- uma empresa de sucesso a trabalhar pelo seu bem-estar»: lê-se no site desta empresa.Pois...
O insucesso dos teus teefonemas prova que neste país se fica mais tentado a não fazer nada que a intervir, talvez isso seja um dos motivos que levam empresas como a Lear a «emigrar».
E...como sempre uma fotografia lendária de um sitío lendário: a estação de S.Bento.;-)

JL disse...

A Lear emigra não porque os trabalhadores portugueses sejam incompetentes ou porque ganhem muito (bem pelo contrário) mas porque para fornecer a Jaguar só o trabalho quase gratuito dos trabalhadores romenos é satisfatório...

Anónimo disse...

Sim, eu sei. Tens razão.
Lis