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sexta-feira, janeiro 04, 2008

Tenho 17 anos e sou feliz.

O adolescente que comigo vive lá em casa não é muito falador. Coisa de adolescentes. Ontem à noite, tocam à campainha por volta das nove. O adolescente era o único suficientemente relaxado e indiferente ao incómodo de nos assaltarem a intimidade. Lá foi ele abrir a porta à vizinha do 12º.

Voltou divertido com a situação. A gata da mulher tinha-lhe "avariado a internet". Como era evidente, tratava-se apenas de um cabo desligado, coisa que se resolveu num ápice. Mas mais importante que isso: voltou falador.

Até às duas da manhã pudemos conversar sobre cinema e música britânica. Sobre como o 24 hour party people é o melhor exemplo de como as melhores coisas da vida se fazem com descontracção e com um sorriso nos lábios. Sobre como o Nine Songs, apesar de tão bem filmado é o melhor exemplo sobre a forma como a música britânica dos últimos anos está num ciclo ascendente de aborrecimento. E claro, de como o Control é um filme belíssimo sobre uma história demasiado triste para ter sido tão mal contada tantas vezes.

Esta manhã ao acordar só pude sorrir ao ouvir ao longe o Bela Lugosi's Dead. Era a versão dos Nouvelle Vague, claro.


| jogadores de xadrez | plovdiv | junho de 2007 |

domingo, setembro 23, 2007

Dia 4.2

Das coisas mais bem inventadas dos tempos modernos é a proibição de fotografar. Lembro-me dos tempos em que não se podia fotografar nos aeroportos. Imagino que tenham percebido que a gosma suicida não precisasse das fotografias para nada. Ainda me pus a puxar pela cabeça porque razão não se poderia fotografar na igreja arménia de Plovdiv. Porque poderia ser atacada à bomba por integralistas Turcos? Porque é demasiado pobre para ser mostrada em público? Porque tem dizeres obscenos escritos em arménio nos tectos? Não faço ideia.

Pode uma cidade resumir-se a um fabuloso gelado? Não é bem assim. Pode uma cidade resumir-se a um passeio por um jardim onde se joga xadrez, a uma estação dos correios de estilo neo-realista e a um fabuloso gelado? Pode.

Partimos de Plovdiv a seguir ao almoço, atravessando metade do país com temperaturas acima dos 40ºC. Felizmente alugámos um Toyota, penso várias vezes.

À chegada a Nesebar penso no terrível erro cometido. Passaremos duas noites num sítio que parece Albufeira ou, melhor ainda, a Quarteira. Repito inúmeras vezes: «isto é horrível», até que os meus companheiros de viagem me proíbem de usar a palavra.

No balcão do hotel perguntamos como nos dirigimos até à cidade antiga (património mundial). A funcionária admira-se com a nossa pergunta. Mau presságio, penso eu, enquanto repito: isto é horrível.

moinho em Nesebar
| moinho | nesebar | bulgária | junho 2007 |

Depois de um jantar tardio em que não paro de transpirar, percorremos a pé a cidadela de Nesebar. À entrada do istmo, o velho moinho comunitário. Lá dentro, parece-me que acabei de entrar na feira de Espinho. E na verdade recebo de oferta uma camiseta do escrete, comprada nos ciganos.

Já passa da meia-noite, o calor continua insuportável. É a hora do S. se juntar aos búlgaros que tomam banho de mar. Eu fico nas margens a vê-lo misturar-se no negro do mar.

à noite, um homem entra mar adentro

| o homem laranja no mar negro | nesebar | bulgária | junho 2007 |

quarta-feira, setembro 19, 2007

Dia 4.1

Sentado numa esplanada sobre as ruínas do teatro romano percebo que atrás de mim se conversa muito, mas com muitas pausas. Duas mulheres reflectem nas palavras; param para pensar. De repente uma delas levanta-se e, ali mesmo, em frente aos papalvos dos portugueses, começam a explicar passos de dança.

Há de certeza quem teorize sobre a possibilidade de um país poder ser analisado pelas conversas que decorrem nos seus cafés. Em Portugal fala-se de futebol, em Inglaterra fala-se de Portugal, na Bulgária fala-se de dança.


| mãos ao alto | plovdiv | bulgária | junho 2007 |

Dia 4.0

Não faço ideia como era. Se era uma daquelas manhãs em que não me apetecia olhar ao espelho. Se era uma daquelas manhãs em que me apetecia dar um empurrão na balofa que não me deixa sair do metro. Se era uma daquelas manhãs que não me apetecia escrever. Se era uma daquelas manhãs em que não me apetecia dormir nem me apetecia acordar. Acho que não. Não me lembro bem.

Lembro-me que a senhora ficou muito baralhada com os nossos pedidos de pequeno-almoço. Recusámos os menus pré-definidos e trocámos as voltas a tudo. Na mesa apenas leite, pão e fruta. O hotel ficou a ganhar e nós também. Era uma daquelas manhãs em que não me apetecia comer carne ou ovos de manhã. Disso lembro-me bem.


| eu e o p. | hotel nord | plovdiv | bulgária | junho 2007 |

domingo, setembro 09, 2007

Dia 3.2

Da noite, elenco as minhas impressões por ordem de importância:

1- Ainda o calor. Milhões de mosquitos febris e famintos descarregam sobre as minhas pernas a sua natureza. Mato uns quantos, mas a batalha é desigual. Guardarei de Plovdiv recordações para uns dias.


| centro de plovdiv | à noite | junho de 2007 |

2- Há muito que não me sinto missionário das minhas próprias opiniões. Sobretudo não me sinto refém de grandes certezas quando efectivamente não as tenho. Ao jantar, abandono um amigo entregue ao seu próprio monólogo sobre a capacidade de acção para mudar a política mundial. Creio que isso é aos seus olhos mais grave do que defender a tese oposta. Na verdade naquele momento preocupavam-me mais os mosquitos.

3- Há quem se aperalte para a noite com t-shirt de marca. Eu tiro da mala a primeira coisa que me vem à mão. Durante a noite perguntam-me o que tenho escrito ao peito. Olho para mim próprio e vejo que proclamo em castelhano solidariedade com os indígenas Guatemaltecos Há quem se ria com a ironia. Nada posso fazer. Sempre achei uma estupidez o fétiche de vestir roupa de marca apenas pelo estatuto que implicitamente ela daria. A verdade é que a minha t-shirt nada fará para ajudar quem quer que seja na Guatemala, ainda assim, serve-me para excretar alguma bílis.

4- Durmo despido num quarto que continua abafado, mesmo com o ar condicionado ligado. De manhã olho para o chuveiro: não é mais que um ralo ao lado da sanita. Adoro os balcãs.


| um atleta | plovdiv | junho de 2007 |

segunda-feira, setembro 03, 2007

Dia 3.1

Tenho um certo fascínio por segundas cidades. Primeira coisa: o que é isso das segundas cidades? Uma segunda cidade é digamos Montreal em vez de Toronto. Ou Santiago em vez de Havana. O fascínio nem é sequer por segundas cidades. Também tenho fascínio por terceiras e quartas cidades. É Lyon em vez de Paris. É Compostela em vez de Madrid. Ou no que diz respeito à música, Manchester em vez de Londres.



| Plovdiv | Bulgária | 2007 |


As capitais são chatas. O próprio conceito de capital é chato. Andava eu ainda na escola preparatória e era pelo menos assim que anuia com uma pichagem anarquista perto de casa: "nem estado nem capital". Mais tarde viria a perceber com um sorriso o sentido exacto da frase.

E era assim com algum encanto que partia para Plovdiv. Os preconceitos não são sempre negativos, podem dar-nos algum optimismo. O encanto desvaneceu-se logo à entrada da cidade e a viagem seguiu imediatamente caminho em direcção a sul. Ali haveríamos de dormir, por isso nada de pressas.


| Plovdiv | Bulgária | 2007 |

A sul encontramos o castelo de Asen. É uma das fortalezas históricas do país. À entrada de uma passagem na cadeia balcânica, hoje pouco mais não é do que uma pequena torre de menagem onde ondula uma grande bandeira.


| Asen | Bulgária | 2007 |

Os dias começam-se a repetir. Visitámos um velho mosteiro ortodoxo em Bachkovo. Este bem mais decadente que o de Rila. Ao entrar em igrejas, mosteiros, mesquitas e quejandos fico automaticamente com uma sensação de grande inibição e de um estranho desconforto que me obriga a sussurrar em vez de falar normalmente. Sou ateu mas enfim... O cheiro enjoativo a incenso misturado com a bosta (!!!) dos animais que vivem ao lado da capela deixam-me com mais vontade de sair dali.

Mas a melhor repetição é o banho tomado no meio de um rio que corria vivo montanha abaixo. A praia improvisada não serve sequer para pousar uma carteira no chão, mas ainda assim entro com grande gosto pela água dentro, não sem antes ter trocado umas palavras com o velhote que já lá estava dentro e que parecia um antigo campeão de halterofilismo. Mais uma vez fico com a sensação que os búlgaros percebem perfeitamente o português.


| ainda asen | bulgária | 2007 |