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segunda-feira, março 28, 2011

Aos poucos habituamo-nos a viver sós. Um pouco como o alcoólico que bebe sempre um pouco mais e não se apercebe da sua ebriedade.

Ao aperceber-se do quão torpe é, certo dia é tomado pela consciência da sua situação. Invadem-no dois sentimentos: a culpa e o desejo.

Para mim são um e um só. Infelizmente, acrescento.


| tervuren | bélgica | março 2011 |

quarta-feira, novembro 10, 2010

O fulano não existia.

Certo dia descobri um fulano que se mantinha à espreita de qualquer oportunidade para se tornar alguém melhor. Isto quer dizer o quê? Que andava sempre a estudar e a ler? Que ajudava velhinhas a atravessar a rua e servia sopa aos sem-abrigo? Nada disso. Era um tipo culto - parecia, pelo menos.

Os tipos cultos falam de livros e filmes que ninguém leu ou viu. Ou conhecem as discografias e as músicas obscuras das bandas do século passado. Ou olham para as folhas no chão e dizem alguma coisa com aparente interesse. Ele era assim. Mas porque achava que era assim que deveria ser. Não porque tivesse algum gosto em ver cinema xunga, livros densos e músicas roufenhas e mal gravadas. Assim esse fulano cria tornar-se melhor - aos olhos dos outros pelo menos.

Certo dia estive em casa dele. Um apartamento bem arranjado. Bonito e funcional, acrescentaria. Descobri há uns dias que é a exacta réplica do catálogo do Ikea de 2006. Não me recordo agora da página em concreto.

As fotografias distribuídas pela entrada e sala eram de uma família completa. Ele vivia só, mas tinha uma mulher e dois filhos que se tinham deixado ficar pela terra. Ele metia-se no carro e regressava a cada quinze dias. Fiquei a saber que as fotos eram tiradas directamente do Flickr para serem por ele apropriadas e depois impressas. O imbecil não tinha família. Nem sequer máquina fotográfica.

Por altura da Páscoa trouxe-me de Sevilha, umas tortas de azeite. Guardei-as por uns dias. Quando as fui comer vi que tinham sido compradas no Corte Inglês de Gaia.

A semana passada adicionou-me como "amigo" no Facebook. Percebi a farsa e colaborei. Corria o risco de ver as minhas fotografias expostas na sua sala. A ideia agradava-me em certo sentido. Amanhã conto segui-lo. Levo gabardina.

Se eu não voltar é natural: o fulano não existe. Mas a mulher dele é bem bonita, pelo menos a julgar pelas fotografias.


| cinco máquinas fotográficas + uma + um telemóvel | o olho de londres | londres | uk | 2009 |

quinta-feira, outubro 30, 2008

A hora é sempre a hora local.

Um fim de algum tempo começou a pensar que efectivamente poderia estar a ficar louco. Estava a olhar para o seu bloco de notas, depois de várias semanas de viagem e duas noites sem dormir entre comboios e estações geladas algures na Ásia.

Estava habituado a olhar para os seus textos como um conjunto de frases desconexas. Assim era mais uma vez e com o cansaço recente, a justificação parecia óbvia e natural.

No entanto as horas não podiam estar correctas. Primeiro essa discrepância passou-lhe desapercebida. Depois começou a perceber como as refeições sucediam-se a um ritmo pouco habitual. Não tinha hábito de usar relógio e o telemóvel há muito que andava desligado. Ali de nada lhe servia. Só se servia dos relógios das estações, para onde olhava com o mesmo olhar que se lança a um instrumento de tortura.

Foi então que se lembrou de uma antiga amante, com quem combinava encontros tanto do lado de cá, como do lado de lá da fronteira. A confusão com os fusos horários era recorrente. E ela, como se lhe sussurrasse uma secreta e perversa fantasia repetia-lhe sempre ao telefone: «cielo, la hora siempre es la hora local.»



| ilhéu de vila franca | s. miguel | junho 2006 |

segunda-feira, outubro 06, 2008

Querida Deolinda...

O que se segue é pura ficção. A realidade é que comprei o disco da Deolinda. E que bela surpresa. Corram, corram...

Querida Deolinda,
os dedos tremeram-me. Na verdade, os dedos tremem-me. Comecei por escrever-te esta carta uma dúzia de vezes. Umas tantas vezes fechei o Eudora e desliguei rapidamente o computador que o meu tio que é professor deixou cá em casa. É um computador velho e como imaginas demora muito tempo a desligar. Enquanto esperava, logo ficava nervoso e com vontade de o voltar a ligar para que te pudesse finalmente escrever. Mas como sabes, os dedos tremiam-me e voltava a desliga-lo.

Quero que saibas que nunca conseguirei viver aí na cidade. Há muito barulho e nunca se pode andar descansado pela rua fora. Quando éramos miúdos gostava de vos visitar sempre. Havia sempre muita luz de noite, bolachas boas e refrescos de laranja.

Não sei como conseguiria viver sem o cheiro da carqueja a arder logo pela manhã... Bem sei que achas que por aqui somos todos brutos. Eu não sei que te diga. Os dedos tremem-me.

E mesmo que me achas um bruto, digo-te que o que me atormenta todas as noites. Penso nos filhos lindos que teríamos se um dia eu conseguisse que o teu coração voltasse para mim.

Nas noites frias poderíamos olhar abraçados para o céu à porta de casa.
No verão dançaríamos até cair em frente ao adro.
Ao Domingo mataríamos um galo para as visitas.
Haveria sempre presunto e queijo na mesa.
Poderíamos desligar de vez esta merda deste computador.

Querida Deolinda, tremem-me os dedos porque penso nos teus lábios. Ao fim da tarde, lá do cimo do monte, olho para as nuvens e começo a cantarolar. Como se isso me bastasse...


| VCI | Porto | 2007 |

sexta-feira, maio 16, 2008

Adultos

Durante anos, Deolinda foi perdendo o rasto aos seus amigos de infância e adolescência. Logo no final do ensino secundário com as escolhas de diferentes faculdades e universidades, sem telemóveis, correio electrónico, blogues ou áifáives muitas das amigas do peito passaram a memórias reavivadas esporadicamente de ano a ano ou nem isso.

Passaram-se os anos. Acabaram-se os cursos. Vieram os primeiros empregos. Depois vieram os segundos empregos. Vieram os mestrados e os doutoramentos. Vieram as partidas para outras cidades. Vieram as primeiras crianças. E vieram os primeiros encontros de antigos alunos.

E tudo isso se resumiu para Deolinda a uma única coisa: perceber que se tornou numa pessoa séria, eloquente, com algum sucesso profissional mas muito chata. Não havia grande coisa que a distinguisse para além do seu BMW descapotável. Tinha entrado na idade adulta pela porta da frente e dela não conseguiria libertar-se.

Photobucket
| bruxelas | abril 2008 |

quinta-feira, fevereiro 14, 2008

Insofismável.

Juntava o tempo das suas fezes ao tempo da sua reflexão. Nem sequer se apercebia da verdade triste que isso acarretava. As suas reflexões pessoais tinham a dignidade dos detritos do seu aparelho digestivo. E a mesma importância, já que era semelhante o tempo do dia que lhes dedicava.

Há dois anos e meio que tinha chegado à administração da empresa. O que significava em geral almoços tardios, demorados e agendados com muita antecedência. À noite, ao chegar a casa, encontrava a família cansada e prestes a adormecer.

Enquanto contraia o abdómen, ia mastigando algumas caralhadas. Estava farto dos estados de alma do PSI20 e começava a pensar seriamente o que fazer ao milhão e meio de euros que tinha distribuído por dúzia e meia de fundos e aplicações financeiras. Com 46 anos não lhe restava muita imaginação para o gastar.

A verdade insofismável tinha surgido uns dias antes. Ao fim da tarde, passeando a pé por uma das ruas das redondezas, achou bonita uma puta que certamente tinha acabado de acordar. Tremeu com a revelação: estava morto - a vida acabara naquele momento.

Lavou as mãos e apagou a luz.



| nenhum ser humano foi magoado na realização desta fotografia | graça | porto | dezembro 2008 |

sexta-feira, janeiro 04, 2008

Tenho 17 anos e sou feliz.

O adolescente que comigo vive lá em casa não é muito falador. Coisa de adolescentes. Ontem à noite, tocam à campainha por volta das nove. O adolescente era o único suficientemente relaxado e indiferente ao incómodo de nos assaltarem a intimidade. Lá foi ele abrir a porta à vizinha do 12º.

Voltou divertido com a situação. A gata da mulher tinha-lhe "avariado a internet". Como era evidente, tratava-se apenas de um cabo desligado, coisa que se resolveu num ápice. Mas mais importante que isso: voltou falador.

Até às duas da manhã pudemos conversar sobre cinema e música britânica. Sobre como o 24 hour party people é o melhor exemplo de como as melhores coisas da vida se fazem com descontracção e com um sorriso nos lábios. Sobre como o Nine Songs, apesar de tão bem filmado é o melhor exemplo sobre a forma como a música britânica dos últimos anos está num ciclo ascendente de aborrecimento. E claro, de como o Control é um filme belíssimo sobre uma história demasiado triste para ter sido tão mal contada tantas vezes.

Esta manhã ao acordar só pude sorrir ao ouvir ao longe o Bela Lugosi's Dead. Era a versão dos Nouvelle Vague, claro.


| jogadores de xadrez | plovdiv | junho de 2007 |

quinta-feira, outubro 18, 2007

Caro deus, um pouco de fé...

Encontrei-o poucas vezes ao longo da vida. Imagino que como pessoa ocupada que é, tenha mais que fazer do que prolongar a sua eterna existência com minudências como é a minha vida quotidiana. No entanto, dos poucos encontros que tivemos, saliento o facto de serem sempre sexta-feira à noite. Percebe-se bem. A sexta à noite é para ele um momento de descontracção, em que ele dá algum espaço para que o seu eterno compincha de profissão, Belzebu, possa por um momento divertir-se sozinho com a sorte dos mortais.

Ele não é muito falador. Compreende-se. A eternidade é muito tempo. Já leu todos os livros, já viu todos os filmes, já apreciou todos os poemas, já desvendou todos os mistérios policiais, já verificou todas as contas bancárias, já ouviu todas as histórias de todos os avós, já atravessou a pé países inteiros, já provou todos os pratos de todas as culturas, já navegou todos os oceanos, já chutou todas as bolas, já disparou todas as máquinas fotográficas, já ouviu todas as línguas, já amou de todas as maneiras e já matou das formas mais selvagens.

Isso explica os monólogos que todos são obrigados a ter com ele. Eu acho isso um disparate, pelo que só tenho monólogos comigo próprio.

Mas numa dessas sextas-feiras à noite, em que descubro que num ápice devo meter-me no carro para trabalhar toda a noite, percebo que o gajo me decidiu dar alguma atenção. Os problemas prolongam-se noite fora, o estômago vazio, o ar condicionado ronca infernalmente... nada do que aprendi me serve para fazer funcionar o equipamento que tenho à frente... Repito várias vezes: «não acredito».

E precisamente às 5:38h, enquanto matraqueio o teclado, no meio de telefonemas que me azucrinam o juízo, observo na consola...

Apr 1 05:38:43.072: %LINEPROTO-5-UPDOWN: Line protocol on Interface Serial0/0/0:5, changed state to down
Apr 1 05:38:44.589: %OSPF-5-ADJCHG: Process 1, Nbr 172.20.50.253 on Serial4/1 from LOADING to FULL, Loading Done
Apr 1 05:38:51.479: %SYS-5-CONFIG_I: Configured from console by joaoluc on vty0
Apr 1 05:38:54.883: %MESSAGE-FROM-HIM: Non believers always did my day.
Apr 1 05:38:56.147: %MESSAGE-FROM-HIM: :)

Num ápice o ar condicionado apaga-se, o velhinho 7500 dá o seu último "ai". Circulo pela sala à procura de um disjuntor disparado. Nada. Tudo parece normal. Mas quando chego junto ao PC ele está com o ecran azul do windows. Repito: «não acredito» e fico à janela a apreciar o silêncio e as luzes amarelas na avenida deserta.

Na segunda-feira seguinte confirmo: as mensagens no servidor SYSLOG terminam às 05:37h. Irra, não acredito.


| Lisboa | Setembro de 2007 |

segunda-feira, junho 18, 2007

A rapariga que falava todas as línguas.

Não era já motivo de surpresa. Conheceu búlgaros, polacos, ingleses, galegos da galiza, espanhois de outros sítios, portugueses dos açores, de lisboa e de outros sítios igualmente improváveis. Não a assustavam os encontros furtuitos na rua com chineses, indianos, paquistaneses, vietnamitas, congoleses, senegaleses, marroquinos, argentinos bebendo mate e índígenas equatorianos.

Com todos eles se entendia, como se ao mergulhar pela primeira vez nas águas limpas da caloura, um peixe babel se tivesse instalado no interior do seu canal auditivo.

Era muito mais simples que isso. Mas o mistério permaneceria por desvendar anos a fio.

o povo e o touro
| os guarda-sois, os cornos do touro, a sua língua e a fraga inerte | gondar | amarante | Junho 2007 |

sábado, janeiro 08, 2005

De onde vem a vontade de fugir...

Pôncio, nascido e criado em Azevedo de Campanhã, guardava dos seus tempos de infância o desejo paterno de que ele um dia fosse alguém na vida. Foi o seu tio, contrabandista de material electrónico vindo de Andorra e vendido na rua do Loureiro que lhe permitiu abrir o seu primeiro escritório de advocacia. Pôncio nunca quis ser advogado. Pôncio guardava o desejo paterno de ser alguém na vida, mas do que ele gostava mesmo era de futebol.

Jorge Nuno apareceu um dia na vida de Pôncio. Jorge Nuno também gostava muito de futebol. O amor foi revelado público dias depois e casaram-se na Holanda com duas catraias de 24 anos. Durante a lua de mel na República Dominicana, zangaram-se. Isto porque num jogo de futebol entre amigos, Jorge Nuno conseguiu que um penalti inexistente fosse claramente visto por toda a gente.

A minha cidade nem sequer precisava de ser mais bonita para parir gente menos decadente.


| Jardim do Retiro | Dez 04 |