No dia seguinte, no entanto, que ninguém se engane: todos os despertadores tocarão indiferentes e a máquina de triturar gente continuará a trabalhar lentamente.
| Porto | Serralves | Janeiro 2014 |
No dia seguinte, no entanto, que ninguém se engane: todos os despertadores tocarão indiferentes e a máquina de triturar gente continuará a trabalhar lentamente.
| Porto | Serralves | Janeiro 2014 |
Diz o seguinte, o líder da bancada parlamentar do PSD, que é um dos esclarecidos dirigentes deste país:
"Nós agora temos um programa onde está previsto (...) que em 2016 a nossa economia vai crescer 1,6%, em 2017 vai crescer 2%, em 2018 e 2019 vai crescer 2,4%. Isto significa que em 4 anos temos uma projecção de crescimento de 8,4% do nosso produto." (ao minuto 05:25)
Eu ouvi isto em directo (obrigado TSF) e não pude acreditar naquilo que ouvia. Estou certo que devo ter sido uma das quatro ou cinco pessoas deste país a ficar incrédulo. E não me admira que o país esteja como está, com este tipo de apreciação da realidade.
Estou a imaginar-me a dever dinheiro a este senhor. Seria uma maravilha. Ora vejamos. Ele empresta-me 100.000€ a uma taxa de juro de 5% ao ano. Eu digo-lhe então:
-Sr. Luís Montenegro, daqui a 4 anos, pago-lhe 20% de juros, logo 120.000€. É isso não é?
-Está certíssimo Sr. JoaoLuc!
Em resultado da capacidade de cálculo do nosso líder parlamentar, ficaria a ganhar com esta manobra mais de 1.500€.
Este tipo de analfabetismo é muito grave. Vejamos o que acontece sempre que se discute p.ex. o aumento dos salários. Analisemos a hipótese de alguém que teve o salário congelado durante 4 anos.
Se a taxa de inflação média for de 3,5%/ano, qual é a perda efectiva de poder de compra? 14% responderá Luís Montenegro ou um sindicalista mais distraído. Aumentamos os salários 14% e ficamos quites, ok? E lá iam 0,75% de poder de compra para o espaço (mais de 100€/ano, num salário de 1000€).
Bem sei: tudo isto é mais chato que uma emissão da telescola e muito menos interessante que um gatinho do facebook. Eu próprio já estou a precisar de um café. Cheguei a pensar fazer isto com juros de empréstimos entre amigos e apartamentos comprados a crédito em Paris, mas dava imenso trabalho e alguém ainda podia levar a mal. Alegadamente.
|entre a STIB e uma galeria comercial ou vice-versa | bruxelas | 2015 |
"Mas há mesmo ladrões, pai?" "Pois claro, olha o vidro do carro do pai da L. ali partido."
Com um certo delírio, o homem começa a explicar: há vários tipos de ladrões. Os que partiram o vidro do carro, provavelmente roubaram qualquer coisa que encontraram dentro do carro. O vidro deve ser mais caro do que aquilo que roubaram. Tudo normal? Ok, mas o homem continua. Esses ladrões vivem aqui perto e roubam coisas que valem pouco dinheiro. E podem ser perigosos. Mas não são os que mais roubam. Os que mais roubam são outros.
"Quem?" - pergunta a criança. Ou façam de conta que pergunta. Ou perguntem vocês.
Há homens que parecem pessoas muito importantes, andam bem vestidos, mandam em muita gente e controlam bancos, câmaras municipais, grandes empresas e outras coisas muito importantes. E como podem fazer tudo que lhes apetece, roubam muito mais dinheiro. E esses não parecem ladrões. Não partem vidros. E ninguém sabe o que eles roubam.
Isto estava já a afastar-se um pouco da realidade terrena. Não havia qualquer necessidade de entrar tão rapidamente nas camadas altas da atmosfera. Portanto, surge a pergunta que se impõe para acabar com o delírio:
"-Mas então porque é que andam bem vestidos?"
| furadouro | outubro 2014 |
A senhora tinha uma filha. Mas o carro não tinha onde parar. A filha tinha uma escola e havia que sair do carro todas as manhãs. E havia um certo atraso, por causa daquilo do despertador das outras senhoras. Ou do trânsito. Ou da chuva. Ou da própria filha que desrespeitava o tique-taque como se de uma mera convenção se tratasse. Era o mundo todo contra o resto do mundo todas as manhãs.
E ali à porta da escola, não havia grande alternativa. O carro só podia ficar em cima do passeio. As ruas estreitas, os despertadores, as horas, tudo isso a forçava a deixar o carro em cima daquele passeio. Ela preferia não o fazer. O ideal seria que houvesse um lugar livre todas as manhãs à sua espera. Infelizmente não era o caso. Ainda por cima, o espaço em cima do passeio era exíguo, obrigava a manobras. Pisca-pisca, chega à frente, chega atrás, chega outra vez à frente, pisca-pisca.
Num dos "chega-atrás" ela não viu uma criança que estava por trás do carro. E o carro lá a empurrou. O pai da outra criança bateu-lhe três vezes com as mãos no carro. E ela, como nem se apercebeu que havia batido na criança, ficou infeliz. Ou outra coisa qualquer que lhe mexeu com os nervos. Pobrezinha.
| foge foge | novembro 2014 |
Até que o blogue morreu. É que o blogue não era meu. E eu não era eu.
Havia outro muito mais fraquinho. Sem brilhantismo nenhum. Como eu. Mas esse não morreu. Digamos que está em êxtase. Como eu.
(Por causa da Lígia)
| entroido | laza | março 2013 |
Portugal é um país de gente à espera. À espera primeiro que tudo que acabe a crise. Como se a crise fosse acabar amanhã ou depois. Em Portugal espera-se que esse milagre do fim da crise surja um dia como uma tempestade de verão; que os impostos desçam; que os salários subam; que as reformas deixem de ser confiscadas; que a segurança social deixe de servir para pagar juros da dívida.
Em Portugal espera-se que o governo caia. Que o Paulo Portas faça uma fita das dele. Que os militantes do PSD se encham das aldrabices que lhes contam. Que no parlamento surjam à direita meia-dúzia de deputados com espinha dorsal (na realidade seriam necessários 18). Que o Miguel Relvas perca o sorriso amarelo. Que o Vitor Gaspar arrume o livro de merceeiro. Que o Álvaro volte a escrever em blogues e deixe de vender o país ao desbarato.
Depois, secretamente, espera-se que António José Seguro nunca chegue onde chegou Passos Coelho. Espera-se que ele diga qualquer coisa que não seja uma banalidade. Espera-se que os militantes do PS escolham alguém que não seja um carreirista, que tenha algum relevo intelectual, profissional ou social. Espera-se que no PS floresça uma ideia de esquerda. Ou uma ideia diferente das que têm proposto nas últimas décadas.
Os portugueses esperam que o presidente seja mais do que a figura patética que é. Espera-se que tenha mais utilidade que um naperon decorativo pousado numa mesinha velha num corredor onde passam leis, documentos e papelada para serem assinados de cruz.
Espera-se que lá fora (no estrangeiro) ninguém ache que somos mal comportados. Ou preguiçosos. Ou que apesar de enterrados até ao pescoço iríamos algum dia de deixar de sorrir e receber de braços abertos quem nos enterra. Ou que pensem que há quem sofra porque não vai ao médico ou porque os filhos não podem estudar ou porque não pode ligar o aquecimento ou porque tem que emigrar. Ou que pensem que há gente a quem lhe salta a tampa e decide matar-se do cimo de uma ponte ou numa linha de comboio. Espera-se que ninguém desconfie do que é óbvio.
Espera-se que juízes, procuradores e muitas toneladas de leis tenham mais utilidade do que fazer pagar multas fiscais, fazer evaporar os subsídios de férias e de natal ou prender manifestantes. Espera-se que um dia, o conselho de administração do BPN seja preso. Que a elite política do país seja acusada de cumplicidade com a marosca. Que quem faça as leis não seja quem primeiro as desrespeita. Que o governo cumpra a Constituição com mais zelo do que qualquer ministro cumpre o código da estrada.
A alguém que não perceba o que aqui se passa teríamos que dizer que ainda estamos à espera de perceber se a troika se enganou sem querer ou de propósito. Que ainda estamos à espera que tudo se resolva amanhã, apesar de nos terem dito que seria ontem. Que estamos à espera que o país vá para melhor, apesar de andar para pior ano após ano. Que estamos à espera que quem criou o problema o resolva.
Esperam que chova? Não isso não. Aqui faz sempre sol. Olhando para o estado do tempo é o que se espera para sábado. E eu espero-te lá. Lá onde? Se não sabes, descobre. Não fiques à espera.
| à espera | oeiras | 2012 |