| rue du noyer | bruxelas | 2012 |
É um ano excepcional. Há carros que flutuam nas ruas. Ou melhor dito, por cima delas. No código da estrada foi introduzida a prioridade aos veículos que se apresentem em descendente, tal como há prioridade aos veículos que se apresentem pela direita. Excepto os comboios que têm prioridade também quando vêm pela esquerda. E os caças bombardeiros que têm prioridade mesmo quando se apresentem em ascendente.
O rio Douro foi finalmente despoluído, a praia de Matosinhos deixou de ser conhecida como a praia do cagalhão. As pessoas podem ver a cara uma das outras enquanto falam ao telemóvel.
O acesso à informação está de tal forma disseminado que é o ano em que, pela primeira vez e em virtude do desenvolvimento tecnológico, os cursos universitários podem ser feitos em apenas um ano. E as pessoas misteriosamente sussurram nas ruas: "Vai estudar Relvas". E já ninguém sabe quem é o Dantas e se ele morreu ou não.
A sardinha é agostinha o ano todo. A nortada só aparece quando não está gente na praia e até a emissão da televisão pode ser parada para se ir aliviar águas num saltinho.
Ah quem me dera poder viver em 2012. Ou noutro ano qualquer no futuro. Cabrões de vindouros.
| aos saltos bem altos | ribeira | porto | junho 2012 |
Matematicamente um anúncio deve ser exacto. Por exemplo: se alguém muda de linha na estação da Trindade, pode apenas mudar para uma linha. O quê? É isso mesmo. Se saio da linha A, só posso mudar para a linha B. Ou para a linha C. Ou para a linha D. Mas nunca para a linha B, C e D. Não posso mudar simultaneamente para três linhas. E então surpreende-me a exactidão com que a voz anuncia em inglês, com aquele sotaque tipicamente português (sotaque? que sotaque? perguntar-me-ão todos os que ouvirem aquele anúncio em inglês perfeito mas com aquele sotaque tipicamente português): “connection with lines A, B, C, E or F”. “Or?”, pergunto-me. Não seria “and?”, pergunto-me. E com orgulho penso que a língua foi usada de forma matematicamente correcta.
Turistas, vinde acordar cedo. Não vos deixeis açoitar com queimaduras solares. Admirai a bela nação na bancarrota. E se virem portugueses a conversar de manhã bem cedo, ao sol da manhã, já saberão que discutirão bidés ou mapas de karnaugh. Um ou outro irá com a cabeça tomada por disparates.
| a puta da florzinha | gerês | março de 2012 |
| bruxelas | maio 2010 |
| mechelen | bélgica | 2011 |
Os chilenos eram torturados de todas as formas e esta é uma das formas que mais me marcou: eram governados por analfabetos. Pessoas para quem gerir um país se resume a ter pulso firme com a canalhada. Os mais altos quadros não sabem sequer ler. Condição necessária mas certamente não suficiente.
O Chile foi um laboratório, o primeiro do mundo, onde o americano Milton Friedman pôde dar asas às suas mais recalcadas fantasias. Apesar de os cidadãos chilenos serem torturados e mortos por serem agentes de potências estrangeiras, o facto de toda a política económica ser dirigida directamente a partir de Chicago, por um bando de catatuas que se limitavam a aplicar acriticamente teses de infundada credibilidade, foi coisa que não incomodou em nada Pinochet.
Sendo português como os outros, estaria disposto a todos os sacrifícios no presente, para que o futuro pudesse ser mais soalheiro. Mas ultimamente lembro-me demasiadas vezes deste documentário. E fico com a estranha impressão que isto que nos andam a fazer nos últimos tempos é coisa de gente muito parva. Tenho a impressão que a figura do "ministro catatua sul-americano" foi trocada pela figura do "ministro copy-paste europeu". A mediocridade, a incapacidade técnica e a banalidade são as mesmas. O pior é que Portugal é uma coisa ainda mais chata e complicada de perceber que um romance do Garcia Márquez. E duvido que haja um só ministro com capacidade para fazê-lo. E isto apenas e só por falta de tempo - estou certo.
Tenho apreciado a bandeira da república na lapela dos ministros copy-paste. Cheguei a fazer "assim" com a boca e a pensar que "sim" (com a cabeça); que a Maçonaria havia levado os mais altos valores republicanos ao coração dos mais significativos dirigentes da direita portuguesa. Mas vejo agora que não é nada disso. A bandeira na lapela deve ser um franchising da ideia de Portugal. É como levar um cartucho de pasteis de nata no bolso sempre que se sai para o estrangeiro. Não tem nada a ver com a República. A República, que tem agora cem anos, é tão chata como os "cem anos de solidão" e isso não merece sequer um feriado. Um pin na lapela dos ministros chega e sobra.
O pior não chega a ser "isto" ou "aquilo". O pior é a sensação que me fica (confirmada bem recentemente pelo senhor presidente) que quando quem nos dirige fica sem "copy" para fazer "paste" e começa a dizer exactamente aquilo que pensa ficamos a perceber que somos dirigidos por um comité de tortura para quem gerir um país é como gerir uma mercearia - mantendo o caderninho das contas bem apresentado e o chão varrido, não vá o fiscal aparecer sem se anunciar.
| 15-O | bruxelas | 15 de Outubro de 2011 |
| aachen | alemanha | 2011 |